Políticos e legisladores, oiçam quem trabalha

Margarida Lopes
14 de Janeiro 2020 | 12:17

Sobre os resultados do XXVII Barómetro Human Resources, Catarina Horta, directora de Capital Humano no Novo Banco, destacou que «o legislador laboral, mas não só não ouve quem gere e aplica a lei, como não avalia a aplicabilidade do que legisla».

 

«A separação entre o legislador e a sociedade civil e o aparente pleno emprego saltam à vista neste questionário da Human Resources. Em primeiro lugar, registo o divórcio que existe com o legislador da área laboral independentemente da cor do governo, a relação tem sido sempre distante. O legislador laboral, mas não só, não ouve quem gere e aplica a lei, como não avalia a aplicabilidade do que legisla. Trabalhei numa multinacional holandesa e fiquei agradavelmente surpreendida por saber que existiam reuniões regulares entre o primeiro-ministro holandês e os três maiores empregadores holandeses – Unilever, Randstad e Philips. Não tenho memória de a Associação Portuguesa de Gestores de Pessoas (APG) ser ouvida no que respeita à legislação laboral. Não vejo profissionais de Recursos Humanos no activo a comentarem as mudanças à lei nos media. Daí que não me espante que as alterações no Código do Trabalho sejam indiferentes a 50% dos que responderam ao questionário. São alterações políticas, para satisfazer a clientela política, e não servem as pessoas nem os profissionais de Recursos Humanos. Numa segunda nota, destaco que, estando a taxa de desemprego abaixo dos 6%, 35% dos inquiridos dizem que vão aumentar as contratações na sua empresa. Estamos perto do pleno emprego, mas com défice de pessoas em algumas áreas de qualificação – faltam pessoas qualificadas em áreas específicas da tecnologia, bem como em funções de controlo como auditoria, risco e compliance. As tentativas de reskilling não podem caber apenas às empresas, até porque são onerosas e só empresas com necessidade e dimensão o conseguem fazer. Se, inspirada neste questionário, pedisse um presente no sapatinho arriscaria um slogan: políticos e legisladores, oiçam quem trabalha.»

Este testemunho foi publicado na edição de Dezembro da Human Resources, no âmbito do XXVIII edição do Barómetro.

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