Reportagem: Os custos dos problemas de saúde mental no trabalho e como preveni-los

Este sábado, assinalou-se o Dia Internacional da Saúde Mental, tema incontornável no mundo do trabalho. Os transtornos mentais comuns atingem 30% dos trabalhadores e são a principal causa de incapacidade; estima-se que stress e a problemas de saúde psicológica podem custar até 3,2 mil milhões de euros por ano às empresas e a COVID-19 está a afectar a agravar os problemas de saúde mental no trabalho. Mas por vezes ainda é um tema tabu. A Human Resources foi ouvir  uma psicóloga, uma directora para a  Felicidade e uma directora-geral sobre este tema.

 

Por Sandra M. Pinto

 

Segundo dados da Organização Mundial da Saúda (OMS), os transtornos mentais e comportamentais estão entre as principais causas de absentismo no trabalho. Teresa Espassandim, psicóloga especialista e membro executivo da direcção nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Madalena Marinho, Happiness director na Critical Techworks, e Sara Barros, country manager da Lundbeck Portugal, partilharam com a Human Resources a sua visão sobre a importância do tema da saúde mental no trabalho, alinhavando caminhos que devem ser tomados para evitar a sua deterioração.

 

A Agência Europeia para a Segurança e a Saúde no Trabalho considera os factores organização do trabalho e relações interpessoais como fundamentais na promoção da integridade psicológica dos trabalhadores e prevenção de situações-problema no trabalho. Para Teresa Espassandim, psicóloga especialista e membro executivo da Direcção Nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses, as condições de vida e o bem-estar no trabalho «não são influenciadas apenas pela segurança e pela saúde nos locais de trabalho, mas também por factores psicossociais, como as relações interpessoais ou a organização do trabalho, que não têm apenas um custo humano enorme mas também um impacto imenso na sociedade e na economia».

Para esta especialista, os efeitos adversos dos problemas de saúde psicológica e do stress ocupacional estão amplamente demonstrados pela investigação, de que são exemplo a:

  • diminuição da motivação, do desempenho e da produtividade;
  • o aumento do absentismo, do presentismo e dos custos de saúde;
  • o aumento dos conflitos no trabalho, dos acidentes por erro humano, da rotatividade dos trabalhadores e da intenção de sair da organização.

De facto, os problemas de saúde mental, como a depressão e a ansiedade, têm um impacto negativo e significativo a nível individual e em particular no plano profissional, explicando grande parte da redução da produtividade e do absentismo laboral. Como refere Teresa Espassandim, estima-se que os trabalhadores faltem, devido ao stress e a problemas de saúde psicológica até 6,2 dias por ano e o presentismo possa ir até 12,4 dias. «A perda de produtividade pode custar às empresas até 3,2 mil milhões de euros por ano – três vezes mais do que custou a ponte Vasco da Gama», sublinha a psicóloga.

Teresa Espassandim chama a atenção para o facto de que a prevenção e a promoção da Saúde Psicológica e do bem-estar nas empresas portuguesas podem reduzir as perdas de produtividade pelo menos em 30% e, portanto, resultar numa poupança de cerca de mil milhões de euros por ano. Mas a especialista assinala que, «infelizmente, em Portugal, pouco mais de 10% das empresas possuem procedimentos para lidar com os riscos psicossociais». É desta forma fácil de concluir que uma maior atenção face à adopção de medidas que monitorizem e promovam o bem-estar nos locais de trabalho poderá traduzir-se em inúmeros benefícios para as organizações.
Se analisarmos o Programa Nacional de Saúde Mental da Direcção-Geral da Saúde, verifica-se que «é imprescindível que as organizações e a própria comunidade adoptem uma postura compreensiva e holística face a estas questões». Podem fazê-lo «disponibilizando serviços de apoio nesta área, bem como acções de sensibilização e formação para efeitos de prevenção/promoção da saúde mental, combate ao estigma e, por conseguinte, melhoria da produtividade empresarial».

 

Sara Barros, Country Manager da Lundbeck Portugal chama a atenção para o facto de a incerteza gerar muita ansiedade e, actualmente, estamos a viver tempos de muita incerteza. «O aumento do número de casos de Covid-19, as dúvidas sobre se devemos ou não reabrir as economias e as empresas e as consequências económicas da pandemia estão a afectar a saúde mental, inclusive no trabalho», refere.

Na verdade, muito se tem falado sobre este impacto a curto prazo, mas os efeitos a médio-longo prazo provavelmente serão ainda mais abrangentes. «Antes da pandemia, algumas empresas aumentaram o seu foco na saúde mental no local de trabalho frequentemente em resposta à pressão por parte dos colaboradores», afirma, «mas há muito mais que tem de ser feito», defende. Sabemos que estes esforços são ainda mais necessários nos dias de hoje, e que nos próximos meses e anos, os líderes provavelmente verão os seus colaboradores a lutar contra a ansiedade, a depressão, o burnout, o trauma ou o stress pós-traumático. «Daí ser urgente a sensibilização de todos os gestores e líderes que muito poderão fazer para apoiar as pessoas enquanto elas enfrentam novos factores de stress, preocupações com a segurança e a turbulência económica», reforça Sara Barros, é, pois, urgente mudar a cultura de saúde mental nos locais de trabalho para que os colaboradores e organizações possam prosperar».

 

Saúde Mental versus Covid-19: podem ou devem as organizações lidar com este tema sem entrar na “esfera pessoal” dos colaboradores?

De acordo com dados recentes mais de 300 milhões de pessoas sofrem em todo o mundo com depressão, sendo esta a principal causa de incapacidade laboral. Mais de 260 milhões vivem com transtornos de ansiedade, e muitas dessas pessoas vivem com ambos os transtornos. Segundo a OMS, os transtornos mentais comuns atingem 30% dos trabalhadores e são a principal causa de incapacidade, realidade que se veio a agravar com a pandemia causada pela Covid-19.

«A incerteza em relação ao futuro e o medo gerado pela crise pandémica nalguns casos pode ter gerado um agravamento da saúde mental», afirma Madalena Marinho, Happiness Director na Critical Techworks, no entanto, refere «isso acarretou alguns benefícios que notamos na Critical Techworks: falamos mais abertamente de stress e de burnout e os nossos colaboradores estão a aderir cada vez mais às sessões de terapia, coaching e peer coaching que oferecemos». De facto, para Madalena Marinho o desafio que a sua organização teve de enfrentar foi o criar «esse awareness em relação aos sintomas de burnout, de ansiedade e que, como empresa, estamos aqui para ajudar».

Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, afirmou recentemente «que a pandemia de Covid-19 vai fazer de 2020 um ano pior em termos de problemas de saúde mental no trabalho, que em 2019 custou 3,2 mil milhões de euros às empresas portuguesas». Perante isto, Madalena Marinho acredita que a «nossa responsabilidade como empresa é dar acesso aos recursos necessários para aumentar o bem-estar das suas pessoas, providenciar soluções para situações de esgotamento, mas também dotarmos as pessoas do conhecimento necessário para fazerem, elas próprias, uma avaliação do seu estado de espírito».
De acordo com a experiência da Happiness Director, «pode parecer imediato, mas são muitas as pessoas que se “deixam levar” e entram num estado de dormência, ignorando os sinais que, caso tivessem consciência, estariam à sua vista». Desta forma, para Madalena Marinho este tipo de iniciativas não só é importante para fazer uma autoavaliação, como também para que as pessoas se possam ajudar entre si ao detectar sinais nos seus colegas. «Para que isto seja conseguido, é importante que os líderes se mostrem abertos a ouvir, de forma a que ninguém tenha de camuflar o seu estado de espírito da restante equipa», sublinha, «alar abertamente destes temas, sem que sejam tabus, oferecer recursos para ultrapassar estes momentos, criar awareness são as responsabilidades fundamentais que temos enquanto empresa».

«Mesmo nos momentos mais incertos, o papel de um gestor permanece igual, que é, fundamentalmente, o de apoiar os membros da sua equipa, e isso inclui apoiar a sua saúde mental», alerta Sara Barros. Para a especialista a boa notícia é que muitas das ferramentas de que precisamos para fazer isso são as mesmas que nos tornam gestores eficientes. «Um dos aspectos que poderá ter mais importância nesta fase é contar com uma liderança honesta e transparente acerca das suas próprias dificuldades no contexto da sua saúde mental», refere, «isso poderá criar um ambiente favorável para que os colaboradores se sintam à vontade para falar sobre os seus próprios desafios». Campanhas de “Let’sTalk” ou “SpeakUp” poderão fazer a diferença, na opinião de Sara Barros, pois quando os gestores descrevem os seus desafios, sejam eles relacionados com a saúde mental ou não, isso mostram o seu lado mais humano e corajoso. «E a investigação já demonstrou que uma liderança autêntica cultiva a confiança e melhora o engagement e o desempenho dos colaboradores», defende.

 

Construir e assegurar um ambiente de trabalho saudável que promova o bem-estar: prioridades e novos desafios

Oferecer flexibilidade é um aspecto de vital importância, assim como a necessidade de comunicar até mais do que provavelmente se pensa ser necessário. «É importante que os managers se certifiquem de que as suas equipas estão informadas sobre quaisquer mudanças ou actualizações organizacionais», sublinha Sara Barros, que defende igualmente que se devem retirar também causas de stress sempre que possível, definindo expectativas sobre a carga de trabalho, priorizando o que deve ser feito e distinguindo o que é prioritário do que é urgente.
«Deve também incentivar-se a utilização dos recursos de saúde mental disponíveis, quando os há», afirma, «estamos conscientes de que a vergonha e o estigma impedem muitos funcionários de usar os seus benefícios de saúde mental para procurar ajuda». Por último, Sara Barros defende que se deve tentar reformular as avaliações de desempenho como claras oportunidades de aprendizagem e feedback, em vez de insistir em modelos de avaliação com base em objectivos demasiado rígidos. Neste contexto, «parece-me fundamental que ao fazer estas alterações sejamos explícitos reforçando que o que se está a fazer é com o objectivo principal de apoiar a saúde mental de todos».

 

Wellbeing Summit discute a saúde mental no ambiente de trabalho

No mês em que se assinala o Dia Internacional da Saúde Mental, a Workell apresenta a primeira edição do Wellbeing Summit num formato exclusivamente digital e com inscrição gratuita. O evento que decorrer entre 12 e 30 de Outubro (entre as 14h30 e as 16h00), tem como mote “Qualidade de vida no trabalho – uma nova era”, estando estruturado em três eixos estratégicos: Saúde mental, Prevenção e Promoção de Saúde no local de trabalho. «O evento tem como missão transformar a forma como a saúde e bem-estar no local de trabalho é encarada», refere Tiago Santos, CEO da Workwell e pioneiro do corporate wellness em Portugal.
«Sabemos que locais de trabalho saudáveis são mais produtivos e que contribuem para o desenvolvimento dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, representando um modelo de desenvolvimento mais sustentável para todos», reforça para deixar no ar a pertinente questão: «Passamos tanto tempo a trabalhar, não deve ser o bem-estar laboral uma das nossas maiores preocupações?»

 

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