São estes os três desequilíbrios mais significativos que explicam a lacuna entre mulheres e homens no mercado de trabalho

Margarida Lopes
8 de Março 2023 | 12:20

O estudo ‘Working Women and the War for Talent’ da Bain & Company indica que as mulheres ainda representam menos de 40% da força de trabalho global, e que a sua participação está a diminuir em muitos países, como a Índia e a Nigéria, que têm um crescimento mais acelerado e um maior número de mulheres sem estudos universitários.

 

Com motivações semelhantes, mas resultados tão diversos, o estudo da Bain & Company revela os três desequilíbrios mais significativos normalmente no centro da lacuna entre mulheres e homens no trabalho:

A escolha da profissão está ligada às expectativas adquiridas durante a infância: embora tenham havido avanços, ainda existe um viés de género na escolha das profissões. As mulheres ocupam apenas 25% dos empregos no sector das ciências de computação dos Estados Unidos e 13% no da engenharia.

Este preconceito está entranhado desde tenra idade. De facto, os estudos mostram que, aos sete anos, as raparigas escolhem carreiras mais relacionadas com os cuidados, como o ensino e a saúde, e os rapazes escolhem carreiras mais estereotipadamente masculinas, como a engenharia. Ainda que a brecha educativa esteja a diminuir em todo o mundo, existem outras áreas de oportunidade. As mulheres que se formam em informática passaram de 33% em 1980 para os 21% em 2018. A situação é semelhante em todo o mundo.

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A flexibilidade é um dilema: os homens e as mulheres assinalam que a flexibilidade é um instrumento de interesse comum quando começam a trabalhar, mas em alguns países, consoante a idade, a flexibilidade cresce em importância para as mulheres e diminui para os homens. Nos Estados Unidos, a proporção de mulheres que trabalha voluntariamente a tempo parcial é o dobro da dos homens.

Destas, o número de mulheres que trabalham voluntariamente a tempo parcial para necessidades familiares é quase nove vezes maior. A proporção de mulheres que trabalham a tempo parcial é ainda maior em muitos países europeus. Nos Países Baixos, três quartos das mulheres trabalham a tempo parcial, sobretudo para conciliar o cuidar dos filhos com o trabalho.

O preconceito continua no local de trabalho: muitos comportamentos e estruturas no local de trabalho baseiam-se no preconceito, tanto conscientes como inconscientes. Isto leva a um tratamento diferenciado das mulheres. Por exemplo, as mulheres raramente recebem sponsorships, é-lhes exigido que assumam a maior parte do trabalho administrativo e existe um duplo padrão cultural centrado na escada de promoção tradicional.

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As empresas mais destacadas vão abordar proactivamente a desigualdade de género que refreia as mulheres, e os gestores seniores liderar os movimentos para atrair e reter os melhores talentos. Este aspecto é crítico num momento de contínua disrupção e escassez de talento.

A Bain & Company identificou cinco princípios que procuram não apenas empoderar as mulheres e reduzir o desequilíbrio de género, mas também melhorar a força de trabalho como um todo.

1. Desconfiar das médias: nenhum grupo demográfico é igual e é fundamental que as empresas reconheçam que existem muitos factores que configuram a experiência de vida de cada trabalhador.

2. Combater activamente os estereótipos de género: as empresas podem lutar activamente contra os preconceitos, promovendo a diversidade de papéis, garantindo a equidade de acesso aos patrocínios (sponsorships), fomentando o companheirismo e incorporando medidas concretas para reduzir os preconceitos.

3. Incutir práticas inclusivas: menos de 30% do pessoal sente-se integrado no trabalho, havendo assim muito espaço para melhorias. Clara Albuquerque, partner da Bain & Company para as práticas de Serviços Financeiros, Digital e Agile Innovation, comenta: «Criar e fomentar uma cultura inclusiva, onde todos sentem que pertencem e se podem desenvolver, é essencial para que as organizações sejam mais fortes e ágeis; no actual ambiente de mudança contínua, isto é mais importante do que nunca.»

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Além disso, os funcionários que se sentem excluídos, tanto homens como mulheres, têm maior probabilidade de se demitirem. Assim, as práticas inclusivas são essenciais para atrair e reter o melhor talento, e os gestores têm a responsabilidade de adoptá-las.

4. Promover a flexibilidade laboral: a pandemia pôs em causa o modelo tradicional de trabalho presencial, mostrando que os colaboradores podem ser produtivos em casa e esta última opção costuma ser a preferida dos trabalhadores. Mais de 60% dos trabalhadores americanos não quer voltar ao escritório a tempo inteiro. As empresas têm a oportunidade de redesenhar as normas do escritório, as expectativas e assegurar o progresso contínuo dos funcionários, independentemente do modelo de trabalho. A igualdade no tratamento dos colaboradores, independentemente da sua escolha de trabalho, é fundamental para o sucesso.

5. Explorar novas reservas de talento através de programas de recapacitação e reinserção: as mulheres renunciaram aos seus postos de trabalho durante a pandemia, mas agora são elas que podem resolver a escassez de talento. Aproximadamente 90% das mulheres quer voltar a trabalhar, mas apenas 40% conseguiu.

Quase três quartos das mulheres que tentam voltar ao trabalho após uma demissão voluntária têm problemas em encontrar um emprego. As empresas têm uma oportunidade e podem aproveitar esse mercado laboral através de programas dirigidos a capacitar as pessoas para que tenham uma inserção bem-sucedida no mercado de trabalho.

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