
Sara Dias (MC): Como usar a IA como ferramenta para reforçar a humanização
Numa era em que a tecnologia redefine o mundo do trabalho, a MC mostra que é possível utilizar a inteligência artificial para reforçar, e não substituir, o lado humano dos processos de recrutamento. Foi com este propósito que Sara Dias, Talent Acquisition manager da MC, apresentou o tema “Mais humanos com IA” na XXX Conferência Human Resources.
A sua intervenção começou com uma reflexão dirigida à audiência: «Quando falamos em inteligência artificial, pensam mais em algoritmos ou em pessoas?» Em seguida, apresentou como a MC está a transformar o seu processo de recrutamento, utilizando a inteligência artificial como ferramenta para reforçar a humanização.
A responsável destacou que o principal desafio da empresa foi compreender como humanizar o recrutamento diante de um volume anual de cerca de 400.000 candidaturas, uma escala que inviabilizava aumentar a equipa de Talent Acquisition. Para responder a esta realidade, em que apenas conseguiam dar resposta a 30% das candidaturas, a MC optou por transformar o processo de forma estrutural, deixando de lado a triagem curricular convencional, focando-se nas competências reais dos candidatos.
Para ilustrar o desafio, Sara Dias recorreu à metáfora de “Onde está o Wally?”, explicando que, durante anos, o recrutamento foi uma busca constante pelo “talento ideal” que, muitas vezes, permanecia “escondido” entre milhares de currículos. «Percebemos que o verdadeiro Wally sempre lá esteve, apenas o estávamos a procurar da forma errada», afirmou.
A oradora partilhou ainda um exemplo de um candidato, inicialmente descartado por critérios tradicionais, mas que se revelou um verdadeiro talento devido às suas competências pessoais. Este caso reforça a importância de as empresas valorizarem o real potencial dos candidatos, e não apenas critérios formais. «Não nos interessa o CV; não utilizamos uma plataforma de triagem curricular, interessa sim a competência da pessoa».
A transformação cultural
De acordo com a Talent Acquisition manager, o maior desafio não é a tecnologia em si – que já está disponível em larga escala – mas sim a transformação cultural, destacando a necessidade de adoptar uma nova mentalidade que privilegia a avaliação das competências e a criação de uma «cultura de propósito que faça sentido».
Nesse contexto, a gestora explicou que a equipa de recrutamento da MC passou a valorizar mais as competências do que a formação ou experiência prévia dos candidatos. Um exemplo dessa abordagem foi a implementação de questionários situacionais, que simulam situações do dia-a-dia do trabalho, permitindo avaliar comportamentos e competências de forma mais eficaz e prática, tornando o processo selectivo mais alinhado com a realidade da função. Além disso, houve um maior investimento em entrevistas presenciais, reforçando o contacto directo com os candidatos.
Sara Dias também salientou a importância da transparência durante o processo de recrutamento: «Para nós, a transparência não está a ser negociada», não só para os candidatos, mas também para as equipas que mudaram a forma como geriam os processos até à data.
Para garantir essa transparência, todos os candidatos são informados previamente sobre o uso de inteligência artificial, podendo optar por não participar, o que reforça o compromisso da MC com a diversidade, a inclusão e o respeito. «Há uma opção B se os candidatos não quiserem optar por este novo tipo de recrutamento», garantiu.
Os resultados e o impacto humano
Com cerca de um ano e meio a dois anos de implementação, a transformação cultural permitiu não só à MC analisar todas as candidaturas, garantindo que nenhum talento ficasse de fora, mas também de reduzir o tempo médio de recrutamento, de cerca de um mês e meio para 15 dias, aumentando a capacidade de entrevistar mais candidatos. Paralelamente, observou-se uma diminuição nas saídas durante o período experimental, resultado de uma comunicação clara e do alinhamento de expectativas desde o início do processo de candidatura.
Outro ponto destacado pela oradora foi o impacto humano desta mudança, com os candidatos a demonstrarem «mais respeito e clareza» pelo processo. Até ao momento, a taxa de satisfação dos candidatos tem sido elevada, com uma avaliação média de 4.6 em 5, com comentários muito positivos sobre a experiência.
Para terminar, Sara Dias realçou que «o futuro é humano e tecnológico», defendendo que a integração da IA não retira o lado humano, pelo contrário, permite que as equipas de recrutamento ganhem mais tempo para criar ligações genuínas. Por fim, lançou o desafio à audiência para que repensem os processos de recrutamento das suas próprias organizações e descubram como a tecnologia pode amplificar o que há de mais humano nas pessoas.