
Sara Silva, L’Oréal: Gestão de pessoas ao ritmo do jazz
O fim da partitura e o início da improvisação colectiva.
Por Sara Silva, directora de Relações Humanas da L’Oréal
Numa era dominada pela inteligência artificial (IA), onde os debates sobre a tecnologia nas escolas e a falta de espaço para a emoção e a arte são constantes, encontrei um momento de introspecção ao som de um concerto de Mozart para piano e orquestra. Enquanto ouvia a mestria de Maria João Pires ao piano, reflecti sobre a minha própria formação musical clássica – anos de conservatório, piano, história da música e composição – e questionei-me: o que levo, hoje, de toda essa estrutura para a minha função como directora de Relações Humanas da L’Oréal?
A resposta reside em princípios intemporais, tão vitais numa pauta musical como num escritório. A orquestra clássica oferece-nos lições fundamentais:
O poder do silêncio. Na música, as pausas são tão cruciais como as notas. O maestro gere o ritmo e o silêncio para criar tensão, emoção e clareza. Em Recursos Humanos (RH), esta é a linguagem do bem-estar: a importância do descanso, das férias e do “direito a desligar”. Quantas vezes, ao sair da L’Oréal, o meu trajecto é feito em silêncio, sem rádio, num esforço consciente para esvaziar a mente e assimilar o dia. Este é o silêncio que permite que a próxima “nota” seja tocada com intenção e vigor.
Do uníssono à harmonia. Muitas empresas procuram o chamado “culture fit”, o equivalente a um coro que canta em uníssono, todos na mesma nota. É uma abordagem segura, mas musicalmente pobre. A verdadeira riqueza emerge da harmonia, onde diferentes notas (perfis, perspectivas, origens) soam em simultâneo para criar um acorde de uma beleza e complexidade muito maiores. O papel do RH moderno é ser o maestro que não procura a unicidade, mas que activamente procura, integra e valoriza as vozes distintas que enriquecerão a harmonia da organização.
A dissonância construtiva. Na música, a dissonância não é um erro; é uma ferramenta deliberada para criar tensão, que se resolve numa consonância, gerando um sentimento de progresso e satisfação. No trabalho em equipa, a dissonância é o debate de ideias, o conflito construtivo. Uma equipa sem qualquer dissonância é uma equipa estagnada, que não inova. O grande desafio para os RH é cultivar um ambiente de segurança psicológica onde a dissonância é bem-vinda, produtiva e vista como o motor de inovação e evolução.
Contudo, se a orquestra clássica nos ensina as fundações, acredito hoje que é a estrutura do jazz que melhor espelha a agilidade, a colaboração e a liderança que o mundo corporativo moderno exige. A rigidez da partitura dá lugar à dinâmica da improvisação colectiva.
Estrutura para a liberdade. Uma banda de jazz opera sobre uma estrutura base – uma melodia, uma harmonia. Mas a magia acontece na improvisação. Da mesma forma, as empresas fornecem objectivos e directrizes claras (a estrutura), mas o sucesso depende de dar autonomia às equipas para improvisarem, testarem e encontrarem as melhores soluções (os solos).
Escuta activa e cocriação. O segredo de um bom ensemble de jazz é a escuta. Cada músico está profundamente atento aos outros, não para competir, mas para construir sobre a ideia do colega. Este é o modelo ideal para a colaboração em equipa, onde as pessoas não esperam apenas pela sua vez de “falar”, mas ouvem activamente para cocriar, responder e elevar o trabalho colectivo.
Liderança servidora. Num grupo de jazz, o líder raramente é o que executa o solo mais vistoso. É, muitas vezes, aquele que mantém o ritmo, que dá o espaço para os outros brilharem e que garante a coesão do grupo. Esta é a mais pura analogia para a liderança servidora: um líder que capacita, que serve a equipa e que se foca no sucesso do todo, não apenas no seu brilho individual.
Termino com um convite à reflexão, inspirado pelo livro “Falar Piano e Tocar Francês”, do maestro Martim Sousa Tavares. Faço-o não apenas pela feliz coincidência de eu própria tocar piano e falar francês, mas porque a sua mensagem central é a que tentei transmitir aqui. O maestro defende que a principal função da arte é a melhoria do indivíduo e da sociedade – e eu acrescento, dos nossos ambientes corporativos. A sua obra é um apelo para redescobrirmos o mundo com curiosidade e encontrarmos significado na “educação pela arte”, desafiando-nos a olhar para tudo, incluindo a gestão de pessoas, de uma forma renovada.
Este artigo foi publicado na edição de Novembro (nº. 179) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.