Suceder é para todos e todas

Por Filipa Pinto de Carvalho, cofundadora da AGPC, da RedBridge Lisbon e da Here Partners, e vice-presidente da ANJE

 

O Dia Mundial do Empreendedorismo Feminino já passou, mas a reflexão à volta do mesmo não deve ficar presa ao calendário. Para mim, é, na verdade, uma realidade que atravessa todos os dias de trabalho, todos os projectos que acompanho e todas as mulheres que com quem me cruzo no ecossistema empreendedor.

Ao longo destes anos, uma parte muito especial do meu trabalho tem passado por acompanhar mulheres que decidem lançar empresas — algumas vindas de outros países, outras a dar os primeiros passos aqui — e ajudá-las, inclusive, a estruturar, financiar e escalar os seus projectos. Vejo diariamente o efeito positivo de ambientes que não tratam a maternidade como fragilidade nem pedem às mulheres para se diminuírem profissionalmente. E acredito que só teremos equipas verdadeiramente equilibradas quando também os homens forem encorajados a assumir responsabilidades familiares sem receios de penalização.

Em Portugal, a percentagem de startups lideradas por mulheres permanece reduzida e o acesso ao investimento ainda é desigual. O mercado é pequeno, a competição por capital é intensa e as equipas têm de demonstrar ambição internacional desde o primeiro dia. Mas, para muitas mulheres, juntam-se obstáculos adicionais: serem constantemente avaliadas pelo que podem vir a não conseguir — e não pelo que já provaram —, ou verem a parentalidade interpretada como fraqueza. São preconceitos subtilmente enraizados e que não desaparecem através de um decreto.

Situações em que a voz de uma mulher é secundarizada em reuniões, momentos em que se espera que se coloque “num plano mais discreto”, dúvidas que surgem não por falta de competência, mas por excesso de pressão externa são situações que reconhecidas não nos tornam frágeis, tornam-nos conscientes. E é dessa consciência que nasce a mudança.

O caminho para uma verdadeira paridade de género no empreendedorismo português exige acção em várias frentes: representação feminina em fundos e órgãos de decisão; políticas de parentalidade equilibradas; processos de progressão baseados em mérito; iniciativas de educação que contrariem preconceitos desde a infância. E, acima de tudo, exige compromisso de todos, mulheres e homens, para construir um ecossistema que não peça a ninguém que abdique de partes essenciais da sua vida para poder liderar, investir ou criar.

O futuro do empreendedorismo feminino não se decide num único dia celebrado uma vez por ano. Decide-se, todos os dias, no trabalho de quem cria e de quem acredita que talento e ambição não têm género. E, sobretudo, decide-se na coragem colectiva de questionar o que ainda precisa de ser mudado e de agir para o transformar.

Ler Mais