Trabalhadoras do serviço de limpeza sentem que profissão as coloca em risco

Human Resources com Lusa
26 de Outubro 2021 | 16:00

Um estudo coordenado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), que envolveu 436 trabalhadoras do serviço de limpeza, concluiu que 50% sente que a profissão as coloca em risco de contrair COVID-19, revelou hoje a coordenadora.

«É uma profissão que continua a ser socialmente muito desvalorizada. Estas mulheres estão na base da hierarquia das profissões, apesar de desenvolverem um trabalho em setores críticos para a existência em termos de saúde pública», observou, em declarações à Lusa, Isabel Dias.

O estudo, coordenado pela FLUP com o apoio do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto (ISPUP), do Instituto de Sociologia da Universidade do Porto (ISUP) e da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), teve como principal objectivo «mapear as dificuldades sentidas pelas trabalhadoras dos serviços de limpeza durante a pandemia COVID-19».

Na investigação, participaram 436 mulheres da região Norte, a maioria com idades compreendidas entre os 51 e 60 anos, que exerciam a sua actividade nos dois hospitais da cidade do Porto, nas faculdades da Universidade do Porto, em grandes superfícies comerciais, setores da justiça e segurança e empresas que gerem as redes de transportes públicos da Área Metropolitana do Porto (AMP).

Através de questionários presenciais, que decorreram entre 3 de Novembro de 2020 e 17 de Maio de 2021, os investigadores quiseram compreender os riscos a que estas mulheres estavam expostas durante o exercício da sua profissão e os sucessivos confinamentos.

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Os questionários dividiram-se em cinco grupos: condições de saúde, atitudes preventivas, perceção da pandemia, condições de trabalho e dados sociodemográficos.

Segundo a investigadora, os resultados do estudo mostram que «50% destas mulheres sente que a profissão as coloca em risco de contrair COVID-19» e que, desde o início da pandemia, 62% das trabalhadoras se sentiram agitadas e facilmente alarmadas.

Das 436 participantes, 22% referiram sofrer ataques de pânico, 61% sentiram-se mais cansadas e 61% apreensivas com a possibilidade de não conseguir cuidados médicos em caso de necessidade.

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Relativamente às condições de saúde, 24% referiram ter algum tipo de doença cardiovascular, 8% diabetes e 14% doença crónica do sistema respiratório.

Os dados mostram também que a maioria destas profissionais utilizaram sempre máscara e lavaram as mãos com frequência, ainda que apenas 47% tenha conseguido manter as normas de distanciamento social entre colegas.

«Os clientes onde os serviços de limpeza são prestados asseguram a implementação de medidas que se relacionam sobretudo com o espaço em que a atividade é desenvolvida, já os empregadores focam-se muito na adoção de atitudes de segurança por parte das trabalhadoras e, entre estas, é de destacar a obrigatoriedade de distanciamento físico (87% dos locais), obrigatoriedade da máscara e medição de temperatura das trabalhadoras, mas o transporte das trabalhadoras para o trabalho por parte da empresa não foi aplicado em 99% dos locais», salientou Isabel Dias, acrescentando que o principal meio de transporte destas mulheres é o transporte público.

Quanto ao retrato da situação profissional, o estudo concluiu que metade destas mulheres trabalha seis ou mais dias por semana e que um terço trabalhou sempre no sector das limpezas, sendo que metade começou a actividade antes de completar 18 anos.

Paralelamente, os dados mostram existir uma «predominância de vínculos precários de trabalho entre estas mulheres» e que 44,5% exercia a actividade a tempo parcial.

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«Este batalhão de trabalhadoras que se levanta de madrugada para chegar a estes locais de trabalho permanece invisível. Esta foi a minha preocupação, não só do ponto de vista sociológico de perceber em contexto pandémico, mas os riscos para a saúde e o agravamento das suas condições de trabalho», afirmou a investigadora.

E acrescentou: «Estas mulheres acumulam um conjunto de factores de desvantagem que se traduz também em baixa remuneração e salários e precarização das suas condições».

Isabel Dias disse ainda que o intuito dos investigadores é alargar o projecto, financiado em 30 mil euros pela Fundação Para a Ciência e Tecnologia (FCT) no âmbito do Apoio Especial Gender Research for COVID-19, a nível nacional e a outras actividades profissionais.

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