Transformar “lixo” em comida. A prova de que economia e ecologia não só são compatíveis como, juntas, dão dinheiro

«A economia circular é o futuro, se queremos preservar o planeta e a natureza. E também pode ser economicamente rentável», garante Natan Jacquemin, fundador da Nãm, projecto através do qual borras de café são transformadas em cogumelos, e que a Delta Cafés acolheu. Bernardo Bello, product manager da equipa de inovação da Randstad Portugal, concorda e constata que «há cada vez mais um investimento estratégico das empresa em inovação e sustentabilidade». Foi este o tema de mais uma RE(talks).

Por Sandra M. Pinto

 

De forma simples, economia circular é um conceito integrado no âmbito do desenvolvimento sustentável e que assenta na redução, reutilização e reciclagem de materiais e energia. Vem substituir o conceito de fim-de-vida da economia linear.

Exemplo pratico e real deste conceito é o Nãm, projecto fundado por Natan Jacquemin com a ajuda da Delta, que assenta na transformação de borras de café em cogumelos. Por muito inovadora que possa parecer, esta ideia não é nova, ressalva Natan. «A ideia de cultivar cogumelos a partir das borras de café foi pensada nos anos 90 por um cientista chinês que facilmente percebeu que a borra de café é, além de rica em nutrientes, esterilizada devido à água quente usada para fazer o café. O que o cientista percebeu foi que a borra de café podia ser usada como substrato para cultivar cogumelos.»

O jovem empreendedor conta que deu inicio ao projecto por querer tentar encontrar um modelo de negócio que fosse capaz de reconciliar a economia com a ecologia. «Acredito que esse é o maior desafio que temos hoje: ter uma economia que funcione, criando valor e emprego, mas que trabalhe juntamente com a ecologia. Não é possível continuar como até aqui, é preciso encontrar uma formula sustentável que torne a nossa economia em algo mais eficiente, no sentido de se evitar cada mais o desperdício, tal como acontece na natureza, onde o desperdício para uns é valor para outros.» No fundo, esta é a ideia da economia circular, «tentar olhar de uma maneira diferente para o desperdício».

Na área de serviços, o conceito não terá uma aplicabilidade tão evidente, mas há muito que se pode fazer, acredita Bernardo Bello. «Para nós é realmente um desafio, porque a nossa matéria prima são as pessoas. Mas se pensarmos no sentido mais lato, a verdade é que temos processos onde contribuímos para a economia circular.» Exemplifica: «Quando se contrata uma pessoa, temos um processo físico, mas aplicámos recentemente um processo de assinatura digital que reduz a utilização de outros recursos, como o papel ou deslocações. Não só ajudamos no ambiente como estes novos processos trazem um novo valor económico para a empresa, pois aporta uma maior sustentabilidade financeira».

O product manager realça que o objectivo da Randstad «é colocar pessoas a trabalhar», mas reitera o compromisso com a sustentabilidade, que se repercute na criação de diferentes iniciativas, como o “paperless”, que envolve a desmaterialização de papel, assim como a digitalização de documentos e o próprio arquivo, mas também noutros âmbitos, como a contratação de 14 pessoas que eram sem-abrigo, às quais demos um propósito, introduzindo-as no mercado de trabalho, e quando o projecto acabou colocamo-las em clientes», conta. «É preciso ser mais imaginativo, mas na verdade temos processos onde temos em atenção o facto de os recursos serem finitos e através dos quais nos associamos a pilares ambientais, sociais e económicos que fazem parte da economia circular».

 

A importância das parcerias

Como em tudo, ter boas intenções ou ideias não chega. E Natan explica como concretizou a sua. «Quando terminei o meu mestrado na Universidade Católica tinha muita vontade de começar o meu próprio negócio, mas queria um negócio que fizesse sentido para mim.» Durante seis meses pesquisou e realizou vários estágios em países europeus, e um dos modelos de negócio que mais lhe agradou foi este. «O problema era a falta de espaço», recorda. «Durante um ano, utilizei a cave de um conhecido para provar a viabilidade da minha ideia. Ali criei uma pequena quinta urbana, recolhia a borra do café nas vizinhanças e tentava criar ali os cogumelos.» Mas foi a Delta Cafés que permitiu o projecto crescer e ganhar escala. E a empresa entra na vida deste projecto através de um professor de Natan, que os colocou em contacto. «O Rui Miguel gostou da ideia e aceitou a parceria, o que permitiu ao negócio crescer e, com ele, tentamos ter mais impacto.»

Peranta esta aposta da Delta Cafés, Bernardo Bello constata que «assistimos hoje a um crescimento naquilo que é aposta estratégica das empresas nas áreas de inovação ligadas à sustentabilidade». Se olharmos em termos de oferta, «ela não existe na procura de profissionais com funções que especificamente trabalhem estas áreas, até porque os departamentos de inovação são quase inexistentes, mas acaba por existir um investimento mais estratégico dentro da empresa relativamente à inovação, como se percebe pelo caso da Delta, onde a sustentabilidade é mais importante».

 

Onde fica a rentabilidade?

Todos já percebemos que, para termos um futuro sustentável, o caminho é este. Mas projectos como os de Natan Jacquemin têm de cumprir outro propósito que é o de ser rentável. «Este géneros de negócios são rentáveis desde que o consumidor esteja disposto a pagar um pouco mais», garante o fundador da Nãm, para quem este é mesmo o maior desafio. «Muitas vezes o que é bom para o ambiente é caro e o que é mau para o ambiente é barato, e isto é algo que devemos tentar alterar», defende. «É preciso começar a existir a preocupação de tornar o ecológico acessível a todos, pois só assim se vai conseguir levar a ecologia a um próximo nível. É preciso começar um movimento neste sentido junto das pessoas, junto dos consumidores, reeducando-os.»

E as empresas estão a começar a perceber o potencial de negócio que está por trás deste projectos. Na visão de Bernardo Bello, existem dois tipos de empresas, «as que não sabem bem como aplicar este conceito e aquelas que têm uma elevada pegada ecológica, para quem o retorno no investimento neste tipo de projectos é muito óbvio, não só pelo retorno por parte dos clientes que estão mais atentos a estas empresa, como na própria reputação da empresa e da sua marca».

 

É Portugal um bom ecossistema para desenvolver estes projectos?

Depois de ter passado pela Sérvia e pela Holanda, entre outros países, Natan, que tem nacionalidade belga, optou por ficar em Portugal e aqui implementado o seu inovador projecto. «Há quatro anos cheguei a Portugal e apaixonei-me pelo país: a qualidade de vida, o sol, as pessoas, a comida, tudo me encantou», partilha. E na altura de fazer o mestrado nem pensou duas vezes e decidiu ficar por cá. «No norte da Europa a economia até pode ser mais forte, mas aqui existe uma qualidade de vida e uma maneira de viver que lá não existe». Por outro lado, descobriu em Portugal um destino atractivo para os jovens empreendedores. «Como ainda não há por cá muita coisa, as oportunidades são mais e melhores do que noutros países. Ainda há muita coisa para fazer em Portugal».

O product manager da Randstad reteira que «existe uma tendência natural para as pessoas e as empresas se estabelecerem em Portugal, a qual tem sido acompanhada de um esforço por parte do Governo, sobretudo do Ministério do Ambiente para promover e dinamizar este conceito».

 

O futuro

Mesmo em tempo de pandemia, a Nãm tem vindo a crescer. «Apesar da altura difícil que atravessamos, a aceitação do mercado tem sido muito boa, sendo que estamos a produzir uma tonelada de cogumelos por mês». conta Natan. «Em seis meses, passámos de uma produção de 100 quilos para uma tonelada com quase sempre tudo vendido». No futuro, o o objectivo passa por replicar este modelo em diferentes cidades, sendo este o principal desafio agora. Enquanto isso não acontece, a empresa lançou um kit em que as pessoas podem fazer os seus cogumelos em casa, «e assim podem aproveitar as suas próprias borras de café e perceber o conceito da economia circular».

Bernardo Bello conclui com a crença de que vão existir e nascer mais projectos como «este que o Natan Jacquemin deu a conhecer, mostrando que é possível ter negócios economicamente rentáveis e ecologicamente sustentáveis».

 

(re)Veja aqui, na íntegra. A moderação foi assegurada por Ana Leonor Martins, directora de redacção da Human Resources.

As re(talks) são uma iniciativa da Randstad em parceria com a Human Resources, promovida desde Março, e estão todas reunidas aqui.

 

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