Ajudar os mais vulneráveis da sociedade é a função da Cáritas. Para isso, a organização conta com uma rede de colaboradores que desenvolvem o seu trabalho com um verdadeiro espírito de missão.
Por Sandra M. Pinto
Em Portugal, a Cáritas conta com cerca de 1500 colaboradores profissionais, mais de 350 voluntários regulares e mais de cinco mil voluntários pontuais. Para que a “máquina” esteja sempre “oleada” e em funcionamento, a chave é a proximidade ao terreno. Assim, a Cáritas Paroquiais e outros Grupos Paroquiais de Acção Social, em articulação com a Cáritas Diocesana, estão atentos aos problemas existentes de pobreza e exclusão social, e actuam no sentido da sua resolução. Esta articulação é fundamental, para «adequar as respostas, desbloquear e canalizar os recursos necessários, para que estes cheguem de forma rápida e eficaz a cada pessoa», faz notar Márcia Carvalho, gestora de Comunicação da Cáritas Portuguesa.
Trabalhando em sintonia, os diferentes níveis de actuação – nacional, diocesano e local – permitem dar resposta às necessidades detectadas, desempenhando cada um uma função de relevo em toda a engrenagem. «De forma a desenvolver este trabalho, a rede Cáritas tem trabalhado ao nível da sua coesão interna e reforçado a sua rede de parceiros, quer a nível nacional como local, implementando e dinamizando metodologias de trabalho participativas e colaborativas», acrescenta a responsável, destacando ainda que «envolver os parceiros sociais e económicos, assim como toda a comunidade, é fundamental para que a rede possa dar uma resposta efectiva às diferentes formas de pobreza e exclusão social».
Anualmente, a Cáritas apoia cerca de 100 mil pessoas em atendimento directo, e o trabalho de todos, voluntários e colaboradores, é imprescindível para que se consiga achatar a curva da pobreza. É um trabalho que envolve assistentes sociais, mas também muitos voluntários e grupos locais que contactam directamente com a população mais vulnerável. «A resposta a estas pessoas envolve o referido trabalho de articulação e o empenho de cada um é fundamental, por isso, a Cáritas não se esgota no trabalho normal de uma Organização Não Governamental», garante Márcia Carvalho. «Tendo a pessoa no centro de toda a nossa acção, o cuidado com o outro é uma prioridade que nos distingue.»
É através desta acção em rede, pautada pela proximidade, que a Cáritas consegue diagnosticar os problemas sociais das comunidades, referenciando as pessoas afectadas pelos mesmos. Permite uma intervenção célere e eficaz junto daqueles que são afectados por diferentes formas de pobreza e de exclusão social. «Por outro lado, através da promoção dos valores associados à sua missão junto da sociedade civil e da intervenção directa junto dos decisores políticos e económicos, a Cáritas promove a criação de medidas que tenham real impacto na vida das pessoas e comunidades. Neste “achatar da curva”, é imprescindível estar com as pessoas na identificação das causas de cada situação e com elas definir caminhos que permitam a superação das dificuldades. Demonstrando com a sua acção, com o seu acolhimento, que todas as pessoas contam, que todos são importantes e que todos devem ter voz na identificação das causas da sua vulnerabilidade», confirma.
Os desafios acrescidos da pandemia
Márcia Carvalho faz questão de salientar que «a contribuição dos colaboradores da Cáritas desenvolve-se sempre no respeito pela dignidade da pessoa humana, seguindo os princípios da doutrina social da Igreja, fazendo da caridade praticada um sinal claro de amor e esperança». E no trabalho formativo que a organização desenvolve com os seus colaboradores e voluntários dos grupos paroquiais procura sempre que cada um entenda o seu trabalho como sinal de esperança. «Procuramos que cada um se sinta responsável pelo próximo e que actue sempre em fidelidade aos princípios cristãos», sublinha a responsável.
Mais: «Através de uma acção directa junto das pessoas que beneficiam da nossa intervenção, potenciamos a reconstrução do seu projecto de vida através de um conjunto alargado de respostas, quer em funções de carácter logístico e de gestão, quer através da promoção de mudanças estruturais nas comunidades e sociedade em geral essenciais ao desenvolvimento económico e social.»
Com a pandemia causada pelo novo coronavírus, a Cáritas sentiu «necessidade de adaptar as competências das suas pessoas às exigências dos novos tempos, num processo contínuo de aprendizagem, reflexão e experimentação». A gestora de Comunicação partilha que não só esta adaptação aconteceu a nível estratégico, como, principalmente, ao nível do terreno, onde o contacto presencial e humano é imprescindível para atender os beneficiários. «Estamos a reinventar-nos na mobilização dos voluntários, nomeadamente os que se encontram nos grupos de risco, na dinamização dos espaços paroquiais e dos atendimentos sociais, tendo necessariamente de reajustar espaços, horários, ritmos, formulários, cuidados no atendimento, entre outros, sensibilizando e garantindo, ao mesmo tempo, a segurança de todos.»
De referir que as Cáritas Diocesanas tiveram de reorganizar toda a sua estrutura de atendimento social e restantes serviços, de acordo com o plano de contingência em vigor e com as respectivas limitações, para conseguir dar resposta aos pedidos que diariamente chegam. «Todos os técnicos, colaboradores e voluntários estiveram na linha da frente, fazendo todos os esforços para atender os pedidos com a maior celeridade possível, de modo a cuidarmos de todas as situações de fragilidade e exclusão social.»
A COVID-19 veio agudizar os problemas sociais existentes. Márcia Carvalho constata que são cada vez as famílias que passam por dificuldades, dificuldades essas que passam não só pela alimentação, mas também pelo pagamento de rendas e contas. «Esta é uma realidade que temos vindo a verificar desde o início de Maio até ao final de Junho, período durante o qual a Cáritas Portuguesa disponibilizou à rede nacional das 20 Cáritas Diocesanas um apoio de 130 mil euros para a resposta imediata às solicitações por parte da população mais vulnerável.» Com esta verba, a organização apoiou nesse período um total de 3371 pessoas, das quais 49% representam novas situações de apoio. No que diz respeito ao perfil dos beneficiários deste apoio, a Cáritas regista que são, na sua grande maioria, de nacionalidade portuguesa, entre os 30 e os 60 anos. «Este é um programa de assistência socioeconómica que a Cáritas construiu com os seus próprios meios e que está a procurar manter.»
Numa altura tão excepcional e difícil como a que vivemos actualmente, e tendo em conta os indicadores que são públicos, as dificuldades podem vir a ser muito maiores a partir do último trimestre deste ano, com agravamento no primeiro trimestre de 2021. «Actualmente, as pessoas que nos procuram fazem-no fundamentalmente porque perderam o posto de trabalho ou porque houve uma baixa significativa nos rendimentos», revela Márcia Carvalho. «Se é verdade que o desemprego pode ter um aumento substancial a curto prazo, essas dificuldades só podem vir a ser maiores.» A maior preocupação da Cáritas Portuguesa prende-se, por isso, com os efeitos da pandemia nas famílias, e não apenas no imediato. Assim, Márcia Carvalho defende que «deve ser assegurado um plano de trabalho coordenado entre todas as organizações e organismos nacionais e locais, que garantam uma resposta social e que não deixe ninguém sem resposta.»
Não obstante, a responsável confia que, com o desconfinamento e o retomar de algumas actividades económicas, se possa evitar que mais pessoas caiam em situação de desemprego e que outras possam retomar os seus próprios negócios, mas será um processo lento e gradual. «Muitas actividades, nomeadamente empresas têxteis e restauração, por exemplo, nas quais uma percentagem muito significativa da população exerce a sua actividade, irão demorar a retomar o seu funcionamento normal ou eventualmente poderão não consegui-lo, pelo que será necessário aguardar vários meses para se poder analisar a evolução do mercado de trabalho e, em consequência, a forma como as famílias conseguirão reorganizar-se.»
Este artigo foi publicado na edição de Setembro (nº. 117) da Human Resources.














