Tecido produtivo frágil e a qualidade do sistema educativo levam a fuga de talento, diz antigo Governador do Banco de Portugal

Tânia Reis
2 de Novembro 2022 | 16:40

No ISAG – European Business School, Carlos Costa, antigo Governador do Banco de Portugal, sublinhou a importância de existir uma maior eficiência no ecossistema educativo e apontou o dedo à gestão em Portugal.

 

Apesar de considerar a escola como «a pedra angular do desenvolvimento económico»,  tal «não significa que gastar mais em educação gera mais desenvolvimento económico», afirmou o economista.

Sobre o sistema educativo salientou que «Em Portugal, temos obrigação não é de nos interrogarmos sobre quanto gastamos. É de interrogarmos sobre o que retiramos daquilo que gastamos». Defende uma «adequação daquilo que se produz em matéria educativa àquilo que são as necessidades do tecido económico» e a importância de gerar «eficiência do sistema educativo do ponto de vista do aproveitamento dos recursos».

Na Aula Inaugural, que marcou o início oficial do ano letivo no ISAG – European Business School, o 17.º Governador do Banco de Portugal focou a sua intervenção numa análise do Ensino Superior português e da sua ligação ao mercado empresarial.

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Durante o seu discurso, Carlos Costa afirmou: «Temos de nos perguntar se este ecossistema está eficientemente organizado ou se, pelo contrário, gera resultados que são de segunda ou terceira ordem». Para o economista, «não há um ecossistema educativo que funcione com professores insatisfeitos» ou «com alunos que não entendam que a educação em si é um trabalho por parte deles».

Contudo, o economista reconheceu a qualidade do sistema educativo português, enquanto apontou responsabilidades ao mercado empresarial: «não temos um tecido produtivo que acompanhe a qualidade dos licenciados, dos mestrados ou dos doutorados que a universidade já fornece, porque não consegue ter a especialização funcional que seria necessária para os utilizar plenamente».

Em causa, revelou, está a «dimensão reduzida das empresas portuguesas» que traz uma «grande limitação» nas saídas profissionais e na absorção de mão-de-obra. «A fuga de cérebros é o reflexo da fragilidade do tecido produtivo e da qualidade do sistema educativo».

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«Temos de ir ao encontro dos factores que determinam esta fragmentação empresarial», destacou o antigo Governador, que indicou também caminhos de solução: «o primeiro elemento que temos de olhar claramente é o da política económica que, no fundo, conforta a falta de transparência e a opção pela pequenez».

«Defendo claramente uma redução substancial do IRC para as empresas que aceitem modelos de governação com separação entre propriedade e gestão e com transparência de contas», explicou.

O antigo Governador do Banco de Portugal apontou ainda desafios de futuro para o sistema de ensino. Entre eles, a especialização das instituições, a «adequação da educação às necessidades de cada etapa de desenvolvimento do país», incluindo ao desenvolvimento tecnológico, e ainda a necessidade de ganhar escala e sustentabilidade através da captação internacional de estudantes.

«Há um elemento decisivo com que estão confrontadas as escolas, que é entender o tecido produtivo, pressionar o poder político no sentido de regenerar o tecido produtivo (…) e, ao mesmo tempo, encontrar escala, em termos de alunos, para continuarem a ser melhores, não obstante estarem atrofiadas pelo mercado local. Passam a ser exportadoras de serviços», concluiu Carlos Costa.

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