Uma reflexão sobre o empreendedorismo no feminino

Por Rui Roque, sociólogo

 

“Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” Antoine de Saint-Exupéry – O principezinho

 

Nas palavras sábias de Saint-Exupéry, revejo o método de aprendizagem utilizado neste trabalho, que se insere no campo da sociologia do género e tem como principal objectivo identificar e compreender as causas do surgimento/desenvolvimento do empreendedorismo, nomeadamente na sua vertente feminina.

Toda esta cruzada, vivida desde os tempos remotos até aos nossos dias, possibilitou uma maior equidade entre os sexos, consequência dos vários movimentos vividos por homens e mulheres, resultando uma sociedade mais igualitária, mas ainda com muitas arestas para limar.

A opção de analisar o empreendedorismo na sua vertente feminina, deve-se ao facto de que, ao contrário do que sucede com os homens, as mulheres foram desde sempre condicionadas pelos valores de uma “sociedade patriarcal”. Simone Beauvoir não questiona apenas a origem do patriarcado, coloca a questão, relativamente à origem da “submissão” da mulher. Como resposta a esta questão, a autora aponta três factores que estão na origem de tal comportamento:

– A desigualdade perante a sexualidade e a reprodução;

– A associação de mulheres com a natureza e os homens com a cultura;

– O trabalho doméstico não pago.

Com a entrada da mulher no mercado de trabalho, assistimos a grandes alterações, não apenas no seu funcionamento, mas também no modo como passa a estar estruturado, alastrando essas alterações não apenas no sector privado, mas também à própria Administração Pública.

Se o trabalho fora de casa é exercido em condições, “desfavoráveis” quando comparadas com os colegas do sexo masculino, teremos de levar em conta na equação o algoritmo referente ao trabalho que acontece dentro de portas e que trava, entre outros aspectos, as aspirações na carreira.

A história

No final do século passado, surge a categoria de “género”, como complemento ao conceito de “classe social”, criado por Marx. Para Muraro, o conceito de género foi criado pelas mulheres e visa “dar conta do seu papel na História e na condição humana no fim do século XX”. Esta categoria começa: “a ser usada de início para mostrar a discriminação da mulher a todos os níveis: económico, político e social”.

Já em 1949, com a publicação do Livro de Simone Beauvoir, “O segundo sexo”, onde a mulher é vista como “a outra”, pretende-se trazer à discussão, o papel da mulher na sociedade. Beauvoir, juntamente com outras autoras, na origem de movimentos que pretendem alterar o rumo das investigações sociais, nomeadamente ao tentar colocar a mulher no seu epicentro. Será como refere Schouten (2001), citando Conceição Nogueira: “estudar o que sempre terá sido esquecido”.

Em 1975, nos Países Baixos, surgem os conceitos de viricentrismo (Schrijvers), em detrimento das culturas silenciadas (muted culture), defendido por Edwin Ardener. Os primeiros dominam os segundos.

Antes do 25 de Abril, a liberdade das mulheres acaba sempre por esbarrar nas normas de uma sociedade onde o androcentrismo domina. Em Portugal, os primeiros estudos sobre mulheres datam do pós 25 de Abril, mais precisamente em 1977, com a criação da CCF (Comissão da Condição feminina), que nos nossos dias conhecemos como CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade do Género).

 

Os estudos

O estudo do género visa perceber as assimetrias existentes entre homens e mulheres. Os primeiros estudos, realizados na década de sessenta trazem para a discussão académica a realidade vivenciada pelos dois sexos. Schouten, (2014), afirma: “O género deve ser estudado pela grande importância deste princípio na organização da vida social, mas também por ser um factor que está na raiz de muitas situações de desigualdade e injustiça”.

Agora que vimos sumariamente no que assenta o estudo do género, importa definir qual/quais o(s), conceito(s) de empreendedorismo que vamos seguir ao longo da presente pesquisa.

Dos vários conceitos de empreendedorismo, tal como já tinha anteriormente feito em FEEL (Roque 2024), optei por seguir o conceito de José A. Porfírio (2019), para quem: “O empreendedorismo materializa-se na aplicação prática da inteligência humana, para o desenvolvimento da própria humanidade, sendo estimulado desde os primórdios do ser humano, pelas características agrestes do meio ambiente, que promoviam o seu espírito empreendedor, principalmente para fins de sobrevivência, segurança e progresso”.

Deste modo, podemos concluir que o empreendedorismo é uma caraterística inerente ao Homem, desde os primeiros tempos da sua existência. No entanto, Porfírio é mais explícito ao afirmar: “Empreendedor é aquele que é capaz de assumir riscos e responsabilidades, concebendo e implementando estratégias inovadora e criando negócios novos”.

Como vimos anteriormente, mesmo partindo de uma posição desfavorável, as mulheres sempre souberam identificar as oportunidades, que lhes permitiram superar as dificuldades.

A Mulher Empreendedora, relativamente aos restantes membros do grupo/comunidade, deve ser:

  • Comunicativa;
  • Alegre;
  • Humilde e Generosa;
  • Paciente;
  • Empática.

Relativamente ao conceito de empreendedorismo no Feminino, optei por seguir o conceito defendido por Cristina Soutinho (Porfirio 2019): “A mulher identifica oportunidades, estuda habilidades criativas na actividade produtiva e assume riscos e incertezas nos empreendimentos. Desta forma, o papel desempenhado pela mulher-empreendedora na economia contemporânea tem-se revelado cada vez mais importante seja, no processo produtivo, seja no sector dos serviços”.

De que modo o empreendedorismo altera a vida da mulher no grupo em que está inserida, seja numa dimensão mais reduzido (família), seja maior (sociedade)? De que modo, o género, condiciona o indivíduo, na forma como socializa?

Até aos 70, podemos dizer que dominava o androcentrisno, em que segundo Schouten: “a atenção era quase exclusiva para o homem, e as conclusões acerca de uma sociedade ou comunidade no seu todo eram retiradas a partir da vivência masculina”.

Em 1975, Edwin Ardener introduz no debate acerca do género o conceito de cultura silenciada (muted culture), que define: “o conjunto de ideias e normas existentes no seio dos grupos com maior poder (por exemplo, as mulheres), que não são explicadas em público e por isso raramente registadas pelos investigadores. Em público, os muted groups (…) devem exprimir-se nos moldes prescritos pelos dominantes. (…) O seu modelo de realidade, a sua mundivivência não pode realizar-se nem exprimir-se utilizando os termos do modelo dominante masculino”.

Quais os comportamentos que permitem ao indivíduo a passagem de liderado a líder, independente do género a que pertencem?

Se não me conhecer a mim próprio nunca serei capaz de conhecer os outros. Além disso, quanto mais eficaz for a minha autogestão, maior será a probabilidade de gerir outras pessoas com sucesso. A existência diária de um exame de autoconsciência permitem ao individuo uma evolução/aprendizagem com os erros cometidos, bem como as vitórias alcançadas nesse dia.

Todos sabemos que a valorização ocorre sempre através da qualificação, no entanto as organizações devem promover o desenvolvimento sustentável, sendo que a felicidade das pessoas no contexto laboral deve ser uma das principais preocupações.

Importa ainda de salientar a importância que a Resiliência e a Antifragilidade tem no processo de superação do indivíduo/mulher perante as adversidades.

Embora os dois conceitos anteriores aparentemente pareçam idênticos, existem no entanto algumas diferenças, que se reflectirão no estado final do indivíduo. De acordo com a definição que encontramos no Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora:

Resiliência é a capacidade de defesa e recuperação de uma pessoa perante factores ou condições adversas.

No que concerne a antifragilidade, e embora não haja uma definição concreta, optei por seguir o conceito de Ricardo Caldeira (2022). O autor vai buscar o conceito a Taleb e que podemos defini-lo, do seguinte modo: “É um estado evolutivo, um estado superlativo de resiliência. É uma adaptação positiva face a adversidade. (…) Um estado em que o indivíduo além de se adaptar, cresce e melhora perante a adversidade”.

Em suma, enquanto o indivíduo resiliente apenas resiste aos choques, na antifragilidade o indivíduo cresce e melhora perante os choque. Tal como defende Caldeira, não se trata de lutar contra o stress, o imprevisto ou incerto, mas sim prosperar e fazer deles aliados que permitam o crescimento do indivíduo.

A mulher empreendedora, além de se superar regularmente, luta num “tabuleiro” desigual quando comparada com os homens, que, desde sempre, e como vimos, controlaram e ditaram as regras de uma sociedade parcial, quando pensamos na igualdade de oportunidades.

Relativamente ao modo como reagem perante as adversidades, Oliveira (2018) divide os indivíduos em dois grupos:

– Os resilientes, em que por questões óbvias nos iremos focar, são segundo esta autora, e citando Mário Ceitil, no livro Gestão e Desenvolvimento de Competências: “as pessoas têm características, que quando aplicadas na prática, se transformam em competências”.

– Os não resilientes, que, segundo ela, podemos definir como: “Uma pessoa não resiliente nas situações difíceis tende a pensar e agir da forma que acha que os outros e as circunstâncias esperam de si.(…) espera que os outros definam as regras e lhe transmitam o que é necessário fazer, como, onde e quando deve fazê-lo.(…) os resultados tendem a ser uma resposta directa às solicitações dos outros “.

Durante o processo de mudança/reacção perante a adversidade, são identificáveis três fases (Oliveira:2018):

– Autocontrolo;

– Desafio;

– Compromisso.

– Procurar melhorar continuamente, este último será a alavancagem para o estado desejado da Superação.

Todos sabemos que a valorização ocorre sempre através da qualificação, no entanto as organizações devem promover o desenvolvimento sustentável, sendo que a felicidade das pessoas no contexto laboral deve ser uma das principais preocupações.

É neste contexto desfavorável que as mulheres aceitam as diferenças de género e lutam para que as gerações vindouras tenham outra mentalidade, outra educação, que permita melhores respostas diferentes perante adversidade. Existem ainda países de regimes totalitários, como no caso das mulheres afegãs e iranianas, em que tiveram de construir uma nova vida, abandonando para sempre as suas casas, que tiveram de encontrar um novo emprego, uma nova escola para os filhos, com grande sacrifício pessoal, para escaparem aos crimes de que diariamente são alvo, fruto de uma sociedade patriarcal, que não acompanhou a evolução dos valores, nomeadamente na questão do género.

Schouten, citando Bradley (1996;82), define como sendo o objecto de estudo do género: “As relações vividas entre homens e mulheres através das quais as diferenças sexuais e ideias sobre essas diferenças são construídas. (…) O conhecimento aprofundado da problemática do género ajuda a compreender melhor e de forma mais completa e traz também uma vantagem prática na execução de projectos de investigação e de intervenção social”.

Podemos comparar este empreendedorismo ao estado que Nuno Fontes (2018) designa de “Anormalmente Bom” e que associa ao estar acima do normal. De tudo o que referi anteriormente, o empreendedor pode ser visto como alguém que se destaca dos restantes membros do grupo/comunidade. Alguém que rompeu com o estado de liderado e passou a fazer parte de um grupo mais restrito que lidera. Quais são as características que um indivíduo anormalmente bom possui:

– Pessoa que é um exemplo de integridade e luta diária para ser cada vez melhor;

– Pessoa que constrói diariamente uma marca distinta e que ajuda os outros a serem cada vez melhores.

– Pessoa cujo valor se asta positiva e largamente da média, através de uma capacidade de execução excepcional em qualidade, quantidade e consistência.

Resumindo, podemos então concluir acerca da existência de vários factores que condicionam o despertar do empreendedorismo na mentalidade do indivíduo: a vontade, a ansiedade, o stress, a resiliência, a antifragilidade, a procrastinação, tem entre eles uma característica comum, a escolha do caminho, rumo à felicidade e ao sucesso do indivíduo, independentemente do seu género.

Na maior parte dos casos, como vimos, a questão do empreendedorismo resume-se a uma “batalha desigual”, que desde sempre foi travada por ambos os sexos. Muitas vezes em condições desiguais, reflexo de mentalidades, desafios e oportunidades que ao longo do tempo foram acontecendo, permitindo uma redução do gender up (fosso cultural) entre os dois sexos. No entanto, a mulher sempre soube sair da “zona de conforto” e encurtar essas mesmas desigualdades. Caberá às gerações vindouras continuar o a trilhar o caminho que nos levará certamente a uma sociedade mais “igualitária”.

Essa mesma diáspora encontra eco no pensamento de Ernestine Friedl (Schouten 2018), para quem: “O mistério não é como é que os homens são superiores, é como é que as mulheres e os homens acreditam que eles são”.

 

Bibliografia

CALDEIRA, Ricardo: “Cisnes Negros da Liderança”, Actual Editora, Lisboa 2022

CALDEIRA, Ricardo: “Ao Coração da Liderança””, Actual Editora, Lisboa 2024

Dicionário de Educação para o Empreendedorismo: Direção Jacinto Jardim e Jose

Eduardo Franco: Gradiva, Lisboa 2019

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Antônio Houaiss e Mauro de Salles Villar, elaborado no Instituto Antônio Houaiss de Lexicografia e Banco de dados da

Língua Portuguesa S/C Lda. – Lisboa, Temas e Debates, 2003.

ESTAPÉ, Mariam Rojas: “Encontre a sua pessoa vitamina”, Planeta, Lisboa 2022

FERNANDES, Sofia Castro: “Mereces (muito) mais do que aquilo que sonhas”, Planeta, Lisboa 2023

FONTES, Nuno: “Anormalmente Bom – Uma história inspiradora de Superação”, Cultura, Lisboa 2018

MATA, Gonçalo Gil: “Ainda não tive tempo”, Porto Editora, Lisboa 2024

MURARO, Rose Marie: “Textos da Fogueira”, Editora Pergaminho, Lda, Cascais 2003

OLIVEIRA, Alina: “”Resiliência para Principiantes”, Edições Sílabo, 2ª Edição, Setembro de 2018

ROQUE, Rui “FEEL. Formação, Emoções, Empreendedorismo e Liderança”, Human Ressources, Lisboa Junho 2024.

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de: “ O Principezinho”, Bertrand Editora, Lisboa Março de 2024

SCHOUTEN, Maria Joahanna: “Uma Sociologia do Género”, Edições Humus, Vila Nova de Famalicão, 2011

TORGA, Miguel “Obras Completas”, Ed Circulo de Leitores, Lisboa 2005

 

(Ilustração: Obra de Telmo Guerra)

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