Ana Trigo Morais, Sociedade Ponto Verde: Maior preparação para lidar com a complexidade e maior disponibilidade para escutar

No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.

 

Por Ana Trigo Morais, CEO da Sociedade Ponto Verde

Nos próximos 15 anos, a liderança enfrentará transformações profundas, provocadas por forças disruptivas que desafiam a forma como vivemos, produzimos e nos relacionamos com o planeta. A transição ecológica e digital, a escassez de recursos, a pressão por maior transparência e o imperativo da sustentabilidade estão a remodelar os contornos da liderança. Entrámos numa era onde a agilidade, a colaboração e o propósito são os actores principais. E esta mudança não é opcional. É estrutural. Exige um novo perfil de liderança, mais preparado para lidar com a complexidade, mais disponível para escutar e mais determinado em construir soluções colectivas e regeneradoras. O tempo de agir é agora.

Enquanto líder da Sociedade Ponto Verde, tenho testemunhado como a sustentabilidade se tornou um eixo estratégico de desenvolvimento e competitividade. A economia circular, que tem na reciclagem um dos seus pilares mais visíveis, deixou de ser apenas uma ambição ambiental e passou a ser um modelo económico alternativo, resiliente e inteligente. Portugal tem feito um percurso positivo na reciclagem de embalagens, superando metas e revelando compromisso colectivo.

Mas este caminho só poderá continuar a ser percorrido com uma liderança clara, consistente e inclusiva, capaz de antecipar tendências e de mobilizar sectores diversos em torno de objectivos comuns. Na gestão de resíduos, vemos um exemplo claro de como a inovação tecnológica, nomeadamente a inteligência artificial (IA), pode gerar valor para a economia, reduzir a dependência de matérias-primas virgens e posicionar o País como um player competitivo e sustentável.

A principal disrupção que está a forçar a mudança nas lideranças é ambiental, social e tecnológica. Não se trata apenas de responder às alterações climáticas ou à escassez de recursos. É preciso redefinir as fundações dos sistemas económicos e sociais, colocando o bem comum no centro da equação. O cidadão de hoje exige sentido de ética e coerência. E, por isso, as organizações têm de provar o seu valor não apenas pelos resultados financeiros, mas pelo seu contributo para uma sociedade mais justa e resiliente. E à medida que a IA, a automação e os dados se tornam omnipresentes, os líderes precisam de compreender as oportunidades e os riscos da era digital, garantindo uma transição justa e humana.

Neste novo contexto, os líderes devem dominar competências como gestão da incerteza, comunicação com impacto, inteligência emocional e, especialmente, literacia tecnológica e ambiental. Além disso, as suas relações devem assentar em confiança, verdade e transparência, não apenas com as equipas internas, mas com comunidades, reguladores, parceiros e consumidores. Liderar, hoje, é criar pontes e dar voz à mudança. É saber ouvir, envolver e responder com coerência.

O líder do futuro será um facilitador de transformação. Será capaz de escutar com atenção, de aprender com os seus erros, de integrar conhecimento diverso e de inspirar em todas as frentes. Em 2030, o perfil ideal será o de alguém que conjuga visão estratégica com capacidade operacional, valoriza a inovação, mas não abdica da ética, assume a sua responsabilidade no debate público, promove o envolvimento de todos e lidera pelo exemplo, com autenticidade e integridade. Mais do que medir o sucesso por métricas de curto-prazo, o líder de 2030 medirá o impacto nas gerações futuras.

Para lá chegar, teremos de ultrapassar obstáculos significativos: a inércia institucional e a resistência à mudança, a ausência de literacia ambiental e digital em larga escala, a dificuldade de actualização de modelos mentais enraizados e uma regulação que, por vezes, não acompanha a velocidade da inovação. Mas acredito que é possível.

Na Sociedade Ponto Verde, temos apostado em soluções tecnológicas de recolha selectiva, promovido campanhas de literacia ambiental com forte impacto, reforçado a cooperação com autarquias, marcas e cidadãos, e defendido, junto dos decisores políticos, um quadro regulatório mais estável e transparente. Esta experiência mostrou-me que a mudança acontece quando existe convicção, compromisso e coragem.

A liderança com futuro será, acima de tudo, uma liderança com consciência. Capaz de entender que o desenvolvimento económico não é incompatível com a protecção ambiental. Pelo contrário. É nessa reconciliação que reside o seu potencial de longevidade e resiliência. Será uma liderança transformadora, porque activa mudanças estruturais; inovadora, porque aposta em soluções; ética e transparente, porque se pauta por valores; cooperativa e circular, porque compreende que ninguém lidera sozinho. Porque liderar é traçar caminho, envolver e inspirar. E o caminho para um futuro sustentável começa com a liderança que decidimos exercer hoje.

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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