
Lições da sétima arte para a Gestão de Pessoas. On Falling: Nunca estamos sós
“On Falling” é uma produção britânico-portuguesa que aborda questões laborais de uma maneira crua e realista. Realizado pela portuguesa Laura Carreira, com actores portugueses (entre eles Joana Santos e Inês Vaz) e de outras nacionalidades, o filme (de 2024) revela como se vivem, na prática, algumas condições de trabalho e de que forma os colaboradores se vão relacionando entre si e com os seus responsáveis.
Por Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media
Tudo se passa numa empresa localizada na Escócia, onde uma emigrante portuguesa realiza um trabalho intensivo num armazém, identificando produtos, um por um, repetindo a mesma tarefa todos os dias. Vive sozinha, num quarto de um prédio, com uma cozinha comum por piso. Ao jantar, tenta socializar com as pessoas dos quartos vizinhos, mas os horários não são coincidentes. Na empresa, almoça na cantina, tanto por ser mais barato, como por ser uma ocasião para poder conversar com os colegas mais próximos.
Um dia, falam-lhe do suicídio de um rapaz que ali trabalhava e fica bastante afectada. Também ela está a sofrer e a passar por dificuldades. Ganha pouco para pagar a renda do quarto e poder alimentar-se bem. Além disso, os seus chefes não reconhecem o bom serviço que faz e quando não atinge os resultados esperados, é logo repreendida. Sente-se incompreendida quando os directores pedem que apoie uma ONG dedicada às alterações climáticas, quando eles nem se dão conta da situação precária em que ela e os seus colegas se encontram.
O desespero acaba por bater à porta e, um dia, tem de roubar a comida de um dos vizinhos do prédio, pois já não tem o que comer. No emprego, resolve aldrabar alguns resultados para evitar repreensões. Apesar de conseguir uma entrevista para outro emprego, é incapaz de se preparar bem e tem uma crise de choro perante a entrevistadora.
A sua atenção está sufocada pela sobrevivência imediata. Não sente forças para falar com ninguém e retrai-se cada vez mais. Refugia-se na solidão e pensa em abandonar tudo… No entanto, não desiste e apresenta-se mais uma vez ao trabalho. Sabe que precisa da companhia dos colegas para ultrapassar os desafios em comum e envolve-se então com eles em actividades conjuntas para fortalecerem laços e manterem-se de pé.
A vida é dura para todos nesta empresa, e a sua história dá algumas lições que vale a pena destacar: as pessoas são o verdadeiro motor e o principal capital de qualquer projecto. Os resultados crescem quando os colaboradores não são vistos como números, mas como indivíduos, valorizados pessoalmente, reconhecidos, compreendidos e, de alguma forma, recompensados. Não se trata de uma recompensa apenas salarial e monetária, mas de algo que os faça sentir e saber que fazem parte de um grupo. Assim, irão procurar também dar o seu melhor, pois notam que não são mais uma peça da engrenagem. Isso aumenta a motivação, fá-los ganhar um propósito e ter um sentido para o seu trabalho.
Em tantas realidades como neste filme, os responsáveis desconhecem até as capacidades e o talento de cada um, alimentando-os num crescente cumprimento mínimo das tarefas. Perante uma realidade destas, o burnout dos colaboradores irá aumentar e será uma variável cada vez mais pesada na vida deles. Fecharem-se em si mesmos não é a solução, e isso fica bem patente neste caso. Só falando, só tendo a coragem de se abrir, de se envolver com os outros, é que se encontra a saída. E este é um risco que vale a pena correr.
Leia o artigo na íntegra na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.