
Nuno Troni, Gi Group Holding Portugal: Ruben Amorim e como escolher o projecto certo
Poucos eventos na nossa vida têm tanto impacto como mudar de projecto profissional, pelo que nos devemos assegurar de que os drivers para a mudança são os correctos e de que a escolha é o mais objectiva possível.
Por Nuno Troni, Business director de Search & Selection da Gi Group Holding Portugal
Recentemente, o Manchester United, comandado por Ruben Amorim, sofreu uma humilhante eliminação na Taça da Liga Inglesa, sendo afastado da competição por uma equipa da quarta divisão. Este percalço é o ponto mais baixo de um percurso que se adivinhava difícil, mas creio que nem o próprio antevia tantas dificuldades ao trocar o campeão português por um clube de dimensão mundial, ainda que em evidentes dificuldades ao longo dos últimos anos.
Para quem está motivado ou interessado em abraçar um novo projecto profissional, este desaire permite tirar algumas ilações sobre como fazer uma escolha consciente assente em pilares estratégicos.
Num mundo corporativo volátil, onde transições entre empresas são comuns, seleccionar o projecto certo é crucial. Os líderes de topo, como CEO e directores-executivos, enfrentam pressões semelhantes às de treinadores de elite: expectativas altas, recursos limitados, práticas e processos muitas vezes desadequados e pouco flexíveis, assim como culturas organizacionais complexas. Uma má escolha pode destruir reputações construídas ao longo de anos, levando a demissões prematuras, danos financeiros, mudanças não desejadas em equipas, entre outras.
O que devemos fazer para escolher bem? O pilar fundamental é o da cultura: se houver desalinhamento, não há estratégia, recursos ou processos que valham. Ruben Amorim, para além da competência técnica, viu o seu trajecto no Sporting ser reconhecido como um exemplo de liderança e comunicação, criando uma equipa que se habituou a ganhar e a ter uma cultura de excelência, de trabalho árduo e de performance de alto nível. Todavia, chega a Manchester sob um clima de dúvidas sobre o seu valor, o que não terá seguramente ajudado ao pegar numa equipa em descrédito. Efectuou várias mudanças, sejam tácticas, novas contratações, dispensas, mas nunca conseguiu mudar a cultura nem unir a equipa em busca de objectivos comuns e ambiciosos.
Nunca devemos desvalorizar o contexto. Por muito competentes que possamos ser, por muita experiência que tenhamos, se as condições não estiverem reunidas, não teremos sucesso.
Visto o tema da cultura, urge saber se teremos os recursos necessários para cumprir a missão. Há suporte financeiro, equipa qualificada e autonomia para implementar mudanças, caso sejam necessárias? Vai estar sob avaliação a partir do primeiro dia, por isso é fundamental garantir que tem as condições necessárias para cumprir os objectivos a que se propõe. Ruben Amorim herdou uma equipa cara, alguns nomes sonantes, outros em tentativa de afirmação. Procurou fazer várias mudanças, trazendo novos jogadores, dispensando outros, mudando o sistema, mas por vezes não teve os recursos, financeiros e temporais, necessários para uma mudança tão profunda.
Este artigo foi publicado na edição de Setembro (nº. 177) da Human Resources
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