
Cuidar primeiro por dentro: o impacto real da cultura na retenção de talento
Por Teresa Sabino, directora de Recursos Humanos da UPPartner
Há conceitos que as empresas repetem tantas vezes que, a certa altura, perdem o seu peso real. Cultura é um deles. Está presente em discursos de liderança, em relatórios e em campanhas de recrutamento, mas continua a ser um dos temas menos vividos na prática. E, paradoxalmente, é também aquele que mais influencia a capacidade de uma organização crescer, inovar e, acima de tudo, reter talento.
Durante anos, acreditou-se que reter pessoas passava por benefícios tangíveis — um salário competitivo, um escritório inspirador, um plano de progressão. Tudo isso tem valor, mas a experiência mostra que raramente é o suficiente. Porque o que faz alguém ficar não é o que se promete no início, é o que se vive no dia-a-dia. É o ambiente que se cria, a confiança que se constrói e o sentido que se encontra no trabalho.
Quando uma empresa cuida primeiro por dentro, tudo muda. As decisões deixam de ser apenas estratégicas e passam a ser humanas. As lideranças tornam-se mais próximas, as conversas mais genuínas e os resultados mais consistentes. E o que nasce dessa coerência é algo que nenhuma política de retenção consegue comprar: compromisso.
Esse compromisso constrói-se em detalhes. Está na forma como um líder escuta antes de responder, na clareza com que se partilham decisões, na capacidade de reconhecer um esforço sem esperar por uma avaliação formal. Está na sensação de que há espaço para errar e aprender, de que o contributo individual é visto e valorizado. É aí — nesse dia a dia aparentemente simples — que se forma a cultura real de uma organização.
Porque a cultura não é uma frase escrita na parede. É o que acontece quando ninguém está a olhar. É o tom das conversas nos corredores, a forma como se acolhe um novo colega, a disponibilidade para ajudar mesmo quando o tempo é curto. São gestos pequenos que criam ligações grandes — e essas ligações, quando existem, tornam-se a cola invisível que mantém as equipas unidas.
Mas quando a cultura falha, o impacto é imediato, ainda que silencioso. As pessoas deixam de partilhar ideias, de se entusiasmar, de acreditar que podem fazer a diferença. E pouco a pouco, começam a desligar-se. Primeiro emocionalmente, depois fisicamente. É assim que a rotatividade começa: não com uma saída repentina, mas com um afastamento gradual que ninguém nota a tempo.
Por isso, cuidar da cultura é, antes de mais, cuidar das pessoas. É garantir que o que se promete é vivido, que há coerência entre palavras e acções, e que o propósito não se esgota num slide de apresentação. E isso exige liderança consciente — líderes que saibam escutar, comunicar com empatia e inspirar pelo exemplo.
Um estudo da Gallup mostra que colaboradores alinhados com a cultura da empresa têm 55% menos probabilidade de procurar outro emprego. O número é relevante, mas o que ele traduz é ainda mais importante: quando as pessoas se identificam com o que vivem, não procuram outro lugar.
Cuidar primeiro por dentro é, por isso, a estratégia mais inteligente e humana que uma organização pode adoptar. Porque a cultura é o fio que liga as pessoas à sua empresa. É ela que dá sentido às funções, que transforma trabalho em propósito e equipas em comunidades.
As empresas que compreendem isto não precisam de slogans inspiradores. Precisam apenas de coerência — entre o que dizem e o que fazem, entre o que prometem e o que entregam. E quando isso acontece, o resultado é natural: as pessoas não ficam por obrigação. Ficam porque querem.
No fim, é simples: o talento não é retido, é inspirado a permanecer. E essa inspiração começa sempre no mesmo lugar — dentro de casa.