Filhas de Eva – o que mudou na liderança?

Por Rui Roque, sociólogo

 

“Se o círculo vicioso é tão difícil de desfazer, é porque os dois sexos são vítimas ao mesmo tempo um do outro; entre dois adversários defrontando-se na sua pura liberdade, um acordo poderia facilmente estabelecer-se: tanto mais que essa guerra não beneficia ninguém.”

(Simone de Beauvoir – O Segundo Sexo)

 

Numa semana em que se comemorou o Dia Internacional da Eliminação da Violência Contra as Mulheres [25 de Novembro], e no seguimento dos meus artigos anteriores Ancestrais e GPS, respectivamente, partes I e II, da trilogia “de lideradas a Líderes”, partilho convosco a terceira e última parte da minha reflexão sobre o contributo feminino para a Liderança nos nossos dias, bem como as várias alterações ocorridas ao longo dos tempos. As palavras de Simone Beauvoir, mostram-nos como a sociabilidade, entre os dois sexos, nem sempre foi a mais pacífica.

O ADN que a caracteriza, a mulher actual, fruto da evolução ocorrida ao longo dos tempos, aliado a uma determinação, invulgar perante as adversidades, foram pertinentes no aparecimento de conceitos como resiliência e antifragilidade. Esse mesmo ADN provocou a passagem de um papel passivo do início do século passado, como vimos em Ancestrais, para um papel bem mais interventivo nos nossos dias, independentemente do seu contexto social.  qualquer que seja o grupo onde socializa.

A escolha do nome, Filhas de Eva, vem no seguimento da herança judaico-−cristã, segundo a qual a mulher terá herdado de Eva, não apenas a curiosidade, mas também o desejo do saber. Estes foram os ingredientes que permitiram que a Liderança chegasse aos novos dias totalmente renovada, fruto de um empoderamento feminino em nítida ascensão.

A forma como a liderança no feminino rapidamente transpôs as portas de casa, levando as emoções para áreas onde a racionalidade reinava, resume-se a uma nova forma de comportamento, seja por quem lidera, ou por quem é liderado. A procura de novas técnicas de liderança, em substituição das vigentes, leva a um maior reconhecimento do indivíduo, enquanto parte integrante do grupo. Esta afirmação da importância das emoções no quotidiano, remete-nos para Saint- −Exupéry, e para a máxima: “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa, que a torna importante. (…) e é para ela que deves voltar”.

Vivemos actualmente a dicotomia entre os algoritmos e os afectos, fruto talvez de uma liderança mais humanizada, mais emocional, sem que isso signifique menos eficiente. Para Ricardo Caldeira (2024) estes novos líderes são “extremamente humildes, têm empatia, distinguem-se pelas suas capacidades relacionais, pelo seu lado mais humano. Valorizam e estimulam. Importam-se preocupam-se genuinamente – e por isso é visível. Não têm problemas em mostrar as suas emoções. E é por aqui que se faz o corte com o passado”.  Todas estas alterações mostram-nos que o tempo não pertence a ninguém, que tudo o que somos é passagem e este é o momento propício para darmos ao nosso ecossistema a possibilidade, com o contributo de cada um, independentemente do género, de deixarmos o mundo um pouco melhor do que o encontramos.

É importante referir, ainda, a ilustração do Telmo Guerra que, tal como acontecera em Ancestrais, mostra uma porta que nos permite entrar e sair dos vários contextos sociais ao longo do tempo e que se assume como “Um símbolo carregado de significados profundos e multifacetados. Representa a abertura de novas possibilidades e desafios, e é uma metáfora poderosa para as transições que experimentamos ao longo da vida. Este ciclo de fechamento e abertura é um reflexo da natureza contínua das nossas vidas pessoais e profissionais”.

O olhar passivo da porta de Ancestrais, onde a imagem reflecte um olhar feminino passivo (reflexo do papel social, exercido pela mulher à época), é substituído em Filhas de Eva, por um novo olhar: “um rosto que se ergue em direcção ao céu, não como se buscasse respostas”, mas com um foco específico, na diminuição do gender up que permite uma maior igualdade do género. Este olhar elevado não desafia, aceita e luta pelos seus objectivos, mantendo o foco naquilo que persegue e ambiciona, de modo a alcançar uma maior equidade do género.

Na actualidade devemos ver o género e o seu estudo como: “um processo fluido, contingente, caracterizado pela contestação, ambivalência e mudança” (Schouten, 2011), ainda segundo esta autora: “O que é ser homem ou mulher é uma definição social, pois a fisiologia é sempre medida pela cultura”.

Relativamente à Liderança, e sem tomar partido de uma corrente ou de outra (masculina ou feminina), partilho do pensamento de Teresa Damásio relativamente à melhor forma de liderança, pois acredito que caminhamos para a afirmação da liderança andrógina: “Existem vários estilos de liderança, cada uma com as suas características, vantagens e desvantagens, e a escolha do estilo adequado dependerá das características do grupo e do contexto em que a liderança será exercida. Há claramente diferença entre liderar no masculino e liderar no feminino, mas dizem que a liderança andrógina, é a melhor forma de exercer a liderança, pois mistura capacidades masculinas com capacidades femininas”.

Como vimos, a diversificação dos tipos de Liderança trouxe realidades que ao longo dos tempos foram sendo absorvidas pela cultura dominante, alterando mentalidades e relegando para segundo plano verdades que se pensava serem intocáveis.

A Liderança andrógina possibilitou uma maior flexibilidade e adaptabilidade do líder e, por conseguinte, dos liderados, permitindo que se alcançasse uma melhoria significativa nas tomadas de decisão, proporcionando um maior bem-−estar geral. Este output de soluções permite que, perante as adversidades, o desempenho individual seja mais eficaz e mais próximo dos anseios do grupo,

Novas soluções no campo da inclusão bem como uma maior diversidade cultural levam a que não se deva esquecer o grande contributo que a Liderança no feminino proporcionou e conduzirão no futuro a uma maior equidade do género, numa altura em que, como vimos anteriormente, a dicotomia entre algoritmos e emoções poderá resultar numa maior simbiose entre os modos de liderar.

Uma certeza é mais do que evidente: a contribuição do pensamento feminino na criação de novos modelos de Liderança teve uma enorme pertinência.  Perante as propostas das reformas laborais que se aproximam – entre elas, merecem referência o alargamento da isenção de horário de trabalho, baixos salários e retrocesso nos direitos da parentalidade – tenhamos pelo menos, uma certeza: não devemos abandonar quem nos proporcionou a vivência de uma liderança andrógina, em que as emoções convivem com o racional, o que estará de acordo com o que Ricardo Caldeira defende relativamente à Liderança do futuro: “Leadership terá de ser cada vez mais lovership com uma boa dose de emotionalship”.

Ainda segundo Caldeira: “No passado os empregos dependiam dos músculos, actualmente dependem do cérebro, mas no futuro vão depender do coração! (..). Apesar de haver no presente quem lidere como no passado (com músculo), e seguramente quem no futuro vá liderar como no presente (com cérebro), (…) a verdade é que no futuro passará por Lideranças mais emocionais e com coração. No fundo podemos concluir que o futuro será mais humano”.

 

Bibliografia

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BRACKETT, Marc: “Permissão para Sentir”, Albatroz, Porto, 1ª edição junho de 2024

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