
O choque de gerações que está a transformar o mundo do trabalho
Por Maria João Oliveira, directora de Recursos Humanos da Valantic
A forma como trabalhamos está a mudar a um ritmo que poucos anteciparam. A combinação entre avanços tecnológicos, novas expectativas profissionais e a convivência de várias gerações no mesmo ambiente está a criar um cenário desafiante, mas também cheio de oportunidades. Hoje, mais do que nunca, as empresas precisam de compreender que o talento não é uniforme, mas sim, diverso, plural e marcado por motivações que variam consoante a idade, o percurso e a forma como cada grupo encara o papel do trabalho nas suas vidas.
A nova geração que entra agora no mercado privilegia equilíbrio, bem-estar e um sentido claro de propósito. Já a Geração X, por muito tempo esquecida no debate público, tem vindo a afirmar-se com uma enorme relevância, pois conhece o modelo tradicional de trabalho, mas aprendeu a adaptar-se às mudanças digitais, tornando-se uma ponte natural entre o passado e o futuro. E no meio disto tudo, Millennials e Baby Boomers continuam activos, contribuindo com visões complementares que tornam o ambiente laboral cada vez mais multifacetado.
No caso de empresas na área de tecnologia, cujo trabalho se cruza diariamente com temas de inovação e transformação digital, compreender estas diferenças é essencial. Não se trata apenas de ajustar políticas internas, mas de criar uma cultura em que todas as gerações se sintam parte de um mesmo objectivo. As organizações que conseguirem fazer isto não só terão equipas mais motivadas, como estarão mais bem preparadas para os desafios que se avizinham.
Num contexto em que a tecnologia evolui de forma tão acelerada, torna-se evidente que esta pode desempenhar um papel de facilitadora entre diferentes gerações. A experiência mostra-nos que, tal como acontece na indústria onde a inteligência artificial já permite decisões mais ágeis, baseadas em dados reais e não apenas na intuição, também no ambiente corporativo o recurso a ferramentas inteligentes pode aproximar perspectivas distintas e ajudar a distribuir o trabalho de forma mais equilibrada.
Ao automatizar tarefas repetitivas, oferecer análises que ajudam líderes a tomar decisões informadas e permitir uma adaptação mais flexível às expectativas de cada colaborador, a tecnologia deixa de ser vista como uma ameaça e passa a ser reconhecida como um apoio. Gerações com maior resistência ao digital conseguem encontrar nela uma aliada, enquanto as mais jovens vêem atendida a sua expectativa de processos mais simples, transparentes e eficientes.
O grande desafio das empresas é, neste momento, garantir que a tecnologia não cria fossos, mas pontes. Flexibilidade, formação contínua, comunicação clara e uma liderança capaz de escutar são peças essenciais para que este equilíbrio exista. Mais do que adoptar ferramentas novas, é fundamental promover uma cultura que valorize a diversidade geracional como uma vantagem competitiva e não como um obstáculo.
O futuro do trabalho será, inevitavelmente, híbrido em vários sentidos. Na forma de trabalhar, nos modelos de liderança e, sobretudo, na convivência entre as várias gerações que constroem as organizações. Acredito que este é o momento ideal para reforçar a ideia de que o progresso acontece quando unimos competências e experiências diferentes, apoiadas por tecnologia que simplifica e melhora o dia a dia. A diversidade geracional, quando bem orientada, não só enriquece as empresas, como torna as equipas mais preparadas, mais humanas e mais capazes de inovar. E é esse, no fim de contas, o verdadeiro motor do futuro.