Gerir Talento na era da IA (ou fazer mais do mesmo)

Por Carlos Sezões, Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders

Num tempo em que, trimestre após trimestre, a IA (inteligência artificial) regista avanços enormes e (já pouco) surpreendentes, é difícil antever que os modelos e processos de gestão de talento fiquem imunes ou inalterados. Como tal, as organizações na linha da frente já não se estão a concentrar em melhorias incrementais; estão a adaptar-se a um paradigma em que a IA está a remodelar a forma como o trabalho é realizado, como as pessoas aprendem, inovam e como as carreiras se estruturam e desenvolvem.

Direi, para começar, que as estratégias de gestão de talentos actuais devem harmonizar o potencial humano com a capacidade das máquinas, criando ambientes de trabalho onde ambos possam progredir na sua causa comum: a missão organizacional. Inovações recentes em IA, como assistentes inteligentes (por exemplo, ferramentas baseadas em LLM´s) e agentes de IA autónomos (sistemas capazes de executar tarefas em múltiplas etapas com mínima intervenção humana) já não são apenas ferramentas. Elas tornam-se, num certo sentido, “colaboradoras”. Em concreto:

  • Assistentes de IA, apoiando indivíduos ao gerar insights, resumir informações complexas, redigir comunicações e gerar ideias;
  • Agentes de IA, executando sequências de actividades, como agendamento de reuniões, coordenação de tarefas, monitorização de desempenho e até optimização de processos.

O impacto sobre o trabalho é significativo e a gestão de talento, enquanto processo organizacional terá, na minha óptica, 3 grandes desafios de mudança.

Primeiro, a redefinição de funções e competências com base na literacia digital. Descrições de cargo tradicionais estão a dar lugar a responsabilidades híbridas, que combinam fluência tecnológica com conhecimento especializado. Maior alfabetização em IA (capacidades e implicações éticas), pensamento crítico e criatividade (ampliados pela IA) e resolução colaborativa de problemas são bons exemplos.

Depois, a adopção de ferramentas de Gestão de Talento baseadas em IA. Destaco aqui a gestão de desempenho e desenvolvimento de competências. Análises avançadas oferecem insights mais profundos sobre desempenho, aprendizagem e engagement. Roteiros de aprendizagem personalizados podem ser recomendadas automaticamente a partir de dados em tempo real, promovendo o desenvolvimento de carreira de forma contínua e direcionada.

Por último, e talvez a mais relevante, os modelos de Liderança nesta era da IA. Os líderes deste novo tempo, a quem a velocidade da inovação retira quaisquer pretensões a serem omniscientes e omnipresentes, irão inevitavelmente mudar. Terão de ser capazes de conduzir a transformação digital sem perder de vista os valores humanos, promover uma cultura de experimentação, resiliência e aprendizagem constante e equilibrar automação e compromisso humano, garantindo propósito e motivação no trabalho. Cada vez mais, liderar irá além da gestão de pessoas – trata-se de orquestrar a colaboração entre humanos e IA.

Em conclusão, uma nota positiva. A IA está transformar a gestão de talento, de uma função de apoio para um verdadeiro motor estratégico de inovação e resiliência organizacional. Ao adotar assistentes e agentes de IA com visão de futuro e responsabilidade, as organizações podem liberar todo o potencial do seu talento humano – garantindo que contribuições humanas e artificiais sejam simbióticas na construção do futuro do trabalho. Já as organizações que prefiram fazer mais do mesmo, ficarão rapidamente obsoletas.

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