
O capital humano como chave para indústrias do futuro
Por Sofia Vieira, responsável de Recursos Humanos na Givachoice Garments
A transformação das indústrias não se faz só com maquinaria de ponta, automatização de processos ou sistemas de análise de dados. Faz-se, sobretudo, com pessoas. E com a forma como as empresas olham para essas pessoas – como um custo ou como o centro estratégico da organização.
Falo da realidade que conheço melhor: a indústria, em particular a têxtil. É um sector que, muitas vezes, é visto com algum preconceito e acaba por ser pouco valorizado por quem não vive este mundo por dentro – só se fala dele quando há um problema ou uma polémica. Mas, para quem está no terreno, a realidade é bem diferente: tem sido um verdadeiro laboratório de adaptação, resistência e aprendizagem constante. E isso traz duas coisas ao mesmo tempo: desafios diários… e uma enorme inspiração.
A inovação tecnológica está aí, sem dúvida. Mas no dia-a-dia, sinto que a maior dificuldade não está nas máquinas nem nos sistemas. Está nas equipas: conseguir atrair pessoas, mantê-las e dar-lhes as ferramentas certas para acompanharem o que está a mudar. Hoje o mercado pede perfis técnicos, sim, mas pede também versatilidade, autonomia e capacidade de adaptação, porque os processos já não ficam iguais durante muito tempo. E isso levanta questões muito práticas: como é que formamos essas pessoas? Como é que requalificamos as que já cá estão? Como é que evitamos perder talento só porque não conseguimos acompanhar as suas expectativas?
Termos como reskilling e upskilling já fazem parte do discurso, mas precisam de passar à acção. E nem sempre a solução passa por ir buscar pessoas “lá fora”. Muitas vezes já existe talento dentro da própria empresa, só precisa de ser melhor aproveitado. O crossboarding, por exemplo, permite movimentar pessoas internamente e dar-lhes outro espaço para crescer, sem perder quem já conhece a casa, a cultura e já está adaptado à equipa e aos processos. Não é algo que se faça de um dia para o outro; é algo que exige planeamento e critério, mas também abertura e vontade real de experimentar caminhos diferentes.
Outro ponto crítico é a dificuldade em atrair as novas gerações. Muitos jovens não olham para a indústria como uma opção de futuro. Muito por causa da imagem que ainda existe: um sector rígido, pouco flexível, pouco criativo e pouco moderno. Mas hoje a realidade já não é essa em muitos contextos. O desafio agora é comunicar essa evolução. Há empresas a investir em ambientes mais colaborativos, mais tecnológicos, onde o equilíbrio entre vida pessoal e profissional é valorizado. E isso pode ser o início de uma nova forma de pensar o sector.
Do lado da competitividade, sabemos bem os limites de produzir em Portugal – os custos são diferentes dos dos grandes mercados asiáticos, por exemplo. Mas há também um valor que só se constrói aqui: a qualidade, a proximidade, a capacidade de resposta rápida. A tecnologia pode ajudar a potenciar isso. A transição para um modelo de indústria 4.0, com mais automatização e maior integração de IA, pode ser um caminho sustentável para aumentar a produtividade sem comprometer a excelência. Mas, mais uma vez, tudo depende das pessoas. Da forma como lideramos, como comunicamos, como envolvemos as equipas nesta transição.
Aquilo que vejo é que não basta falar em talento como um recurso. O talento é uma parte viva das empresas. Precisa de ser ouvida, precisa de espaço e de confiança. E se não lhe dermos isso, procurará noutro lado. Por isso, a questão não é só atrair talento. É mantê-lo.
O futuro não se constrói com fórmulas antigas. Também não se resolve isoladamente com tecnologia. Constrói-se com visão, com coragem e, acima de tudo, com pessoas! Pessoas preparadas, valorizadas e alinhadas com o propósito da organização.
No fundo, cada indústria terá o seu ritmo, os seus desafios. Mas acredito que há algo transversal: o talento não é um extra; é a base.