
É possível ser global, digital e produtivo sem perder a alma e cultura da organização
Por Eduardo Taborda, CEO da Syone
Vivemos um paradoxo claro. Estamos mais conectados do que alguma vez estivemos, por via da tecnologia, e, no entanto, muitas equipas e empresas nunca estiveram tão fragmentadas. Com a normalização do trabalho remoto, o “sentimento de pertença”, outrora o pilar das organizações, sofreu uma forte erosão, cabendo aos responsáveis pela gestão de talento gerir e mitigar esta tendência.
O mercado das tecnologias de informação enfrenta hoje um duplo desafio: a escassez de talento local obriga as empresas a recrutar nos quatro cantos do mundo, e esse mesmo recrutamento à escala global acentua a diversidade cultural e, potencialmente, a fragmentação das equipas, caso não exista um olhar atento a esta realidade. No sector das Tecnologias de Informação, a rotatividade das pessoas é actualmente o maior desafio, mas muitos insistem em subestimar a cultura organizacional.
Na Syone, decidimos que não podíamos ficar indiferentes perante este desafio. Ao gerir um grupo que reúne pessoas de 18 nacionalidades, oriundas de quatro continentes, percebemos que num mundo de ecrãs e equipas multiculturais, o verdadeiro diferencial competitivo de uma tecnológica não é apenas o seu stack de ferramentas, mas a solidez das suas relações humanas.
Por isso, entendemos que a flexibilidade do digital não deve substituir a profundidade do encontro físico, mas sim ser potenciada por ele. Foi assim que, nos últimos anos em lugar de uma típica festa de Natal, data com marca cultural regionalizada e religiosa, passámos a organizar um Wrap-up dinner, um momento de balanço e celebração do percurso feito ao longo do ano e dos desafios e metas atingidas, passando por aquilo que nos une. É uma oportunidade para aproximar pessoas que, no dia-a-dia, trabalham à distância ou em contextos distintos, promovendo o convívio, a partilha e o reforço das relações interpessoais. A adesão tem sido massiva, o ambiente genuinamente aberto e a energia difícil de replicar num ecrã.
Ao longo do ano e na mesma linha, vamos criando pontos de contacto entre as equipas: na participação em eventos e provas desportivas, na recepção a empresas e clientes que nos visitam, na recepção a alunos universitários internacionais, nas datas de significado global e/ou popular, como os Santos Populares ou o Halloween, ou em muitas efemérides ligadas à realidade tecnológica, como o Dia do Software Livre, o do Programador, ou o do Gestor de Projecto, entre tantos.
E é neste equilíbrio que transformamos a dispersão geográfica em união estratégica, garantindo que a nossa cultura humana e de empresa permanece forte e tangível, mesmo quando as equipas deixam de partilhar diariamente o mesmo espaço físico.
O trabalho remoto é, inegavelmente, um agente facilitador de agilidade e um aliado fundamental na gestão da liberdade individual. No entanto, não podemos ignorar que a cultura de uma empresa é um organismo vivo que se alimenta de interacções humanas reais e espontâneas.
O verdadeiro desafio da liderança moderna passa por eliminar o fosso entre estratégia e execução. Quando os resultados deixam de ser apenas slides e passam a ser apresentados como conquistas colectivas, em momentos de encontro real, o desapego transforma-se em compromisso. É nesta transição do “eu” para o “nós” que se constrói a base necessária para operar num mercado volátil e altamente competitivo.
Hoje, e apesar da resistência de muitos, as paredes do escritório deixaram de existir diariamente, mas a necessidade humana de comunidade permanece intacta. O futuro do trabalho não será decidido por quem tem a melhor plataforma de mensagens instantâneas, mas por quem consegue manter uma empresa unida e motivada num cenário de dispersão geográfica e imersão digital.
O nosso compromisso é provar que é possível ser uma empresa global, tecnológica e remota, sem perder a alma e a cultura. Porque, no final do dia, a tecnologia é feita por pessoas, para pessoas, e nada substitui a energia de uma equipa que sabe que pertence a algo maior do que o seu código. É possível ser global, digital e produtivo sem perder a alma e cultura da organização.