Feedback anual: como o IRS, mas à mesa

Opinião de Rodrigo Maia Prinzo, head of People na InnoTech

Human Resources
30 de Março 2026 | 10:30

Por Rodrigo Maia Prinzo, head of People na InnoTech

 

Estamos naquela altura do ano. O calendário avança, os prazos aproximam-se e, quando damos por nós, aqui está ele: o momento de tratar do IRS. Mas não é sobre isso que escrevo. Isso, deixo para os contabilistas. Hoje escrevo sobre outro fenómeno que acontece, mais ou menos, na mesma altura: a avaliação de desempenho anual.

Surge um convite no calendário que, mesmo não tendo sido pedido, já se sabia que chegaria. Tal como o IRS, sabemos que faz parte. Adiamos mentalmente, desejamos que este ano seja mais simples e, quando finalmente chega a hora, esperamos que corra bem.

Durante anos, convencemo-nos de que este era o grande momento. O dia em que tudo se organizava: o desempenho, a entrega, os resultados e o futuro. Como se 12 meses de trabalho pudessem ser declarados, analisados e fechados numa única conversa.

Continue a ler após a publicidade

Spoiler: não podem. Isto não é mais um Excel.

Chamamos-lhe avaliação de desempenho anual. Na prática, acaba muitas vezes por ser o único momento do ano em que se dá feedback a sério. Mas quando chega já vem fora de prazo. O contexto era outro. O que podia e devia ser um momento útil transforma-se, muitas vezes, numa espécie de acerto de contas: olhamos para trás, fazemos balanços e seguimos em frente.

Já participei em centenas de conversas destas, dos dois lados da mesa (quando não redonda, que é a minha preferência), e muitas vezes senti que aquele momento era subaproveitado. Muito mais valor poderia ser criado. É certo que há quem o valorize, mas também há quem o encare apenas como mais um processo a cumprir ­– como preencher uma timesheet ou submeter as férias.

Continue a ler após a publicidade

Depois há a segunda parte.

Passamos de falar de desenvolvimento e, com mais ou menos subtileza, começamos a falar de remuneração, aumentos e expectativas. Aqui, e como no IRS, passamos rapidamente de uma lógica de análise, passiva, para uma lógica de cálculo, muito mais activa. Mais do que ouvir, estamos a tentar perceber “somando, isto dá quanto?”.

O feedback deixa de ser feedback. Agora, estamos em negociação. A partir deste ponto, não se volta atrás.

Mas o maior problema talvez ainda nem seja este. Talvez seja continuarmos a usar este modelo como se o trabalho e as dinâmicas nas empresas não tivessem mudado.

Hoje, o trabalho não se mede num único ciclo anual. Mede-se todos os dias, pela sua forma dinâmica, rápida e, muitas vezes, imprevisível. As prioridades mudam, as equipas ajustam-se e novos desafios surgem. E, mesmo sabendo isto tudo, insistimos em parar uma vez por ano para “verificar os números”.

Continue a ler após a publicidade

Mas temos de ser intelectualmente honestos: tal como o IRS, também as avaliações anuais têm o seu papel. Servem para formalizar e consolidar informação e, posteriormente, apoiar em decisões.

Agora, tem de se ir mais longe. As avaliações anuais não podem ser o único momento de feedback.

Na prática, o que muitas empresas têm feito, incluindo a minha, é complementar este momento com um modelo mais contínuo: acompanhamento próximo e regular, permitindo receber e dar feedback on time. Isto significa encontros mais curtos, conversas informais sobre projectos em curso, reconhecimento imediato de bons resultados e ajustes quando algo não corre como esperado.

Porque o feedback não se declara uma vez por ano. Tal como os descontos de IRS, tem de ser mensal.

O feedback anual (ainda) não está morto, mas, convenhamos, está ligado às máquinas.

Partilhar


Mais Notícias