Por Nuno Augusto Ferreira Simões, enfermeiro especialista em Enfermagem de Reabilitação e em Enfermagem Médico-Cirúrgica, mestre em Cuidados Paliativos, pós-graduado em Gestão em Saúde, Gestão de Projectos, Gestão na Administração Pública, e em Políticas, Gestão e Administração em Saúde, docente universitário e formador
Há declarações que, pela sua frontalidade, deveriam provocar alarme social. Em Abril de 2026, o director executivo do SNS confirmou no Parlamento o que os profissionais de saúde repetem há anos nos corredores das unidades de saúde: as listas de espera não vão diminuir por falta de horas dedicadas de profissionais de saúde à prestação de cuidados de saúde. A frase passou. A resignação ficou. E os pessoas que necessitam de cuidados de saúde continuam à espera.
Mas há algo mais perturbador do que a declaração em si: a sua própria naturalização. Aceitamos, enquanto sociedade, que um serviço nacional de saúde universal confesse publicamente que não tem pessoas para cuidar das pessoas — e seguimos em frente como se fosse uma fatalidade. Não é. É o resultado acumulado de décadas de subinvestimento, de planeamento estratégico ausente e de uma cultura organizacional que trata os profissionais de saúde como recursos infinitamente renováveis.
Não é só um problema de números
O erro mais frequente neste debate é reduzi-lo a uma questão quantitativa. «Precisamos de mais médicos, mais enfermeiros.» Verdade — mas incompleta. Portugal tem profissionais de saúde que emigram para o Reino Unido, Suíça ou Luxemburgo atraídos por salários três a quatro vezes superiores. Tem especialistas concentrados nos grandes centros urbanos enquanto o interior do país fica ao abandono. E tem uma geração jovem que, após anos de formação paga pelos contribuintes, opta pelo sector privado ou pela saída do país — não por falta de vocação, mas por excesso de desvalorização.
O primeiro estudo nacional sobre satisfação e retenção de profissionais de saúde, conduzido pelo IHMT-NOVA com mais de 3.800 participantes, é revelador: a componente salarial atinge pontuações próximas de 2 em 5. Mas o salário não é tudo. As condições de trabalho, a liderança das equipas, a autonomia clínica e a percepção de desenvolvimento de carreira são igualmente determinantes. A “retenção” não se resolve com um aumento pontual de vencimento. Resolve-se com cultura organizacional, com reconhecimento e com compromisso.
O inventário que existe e a estratégia que falta
O PLANAPP (Centro de Planeamento e de Avaliação de Políticas Públicas) avança com um Inventário Nacional de Profissionais de Saúde — uma ferramenta necessária e há muito em falta. Saber quantos somos, onde estamos e o que fazemos é o ponto de partida. Mas não é o destino. O que continua a faltar é uma estratégia nacional de gestão de profissionais da saúde com metas mensuráveis, financiamento garantido e mecanismos reais de responsabilização. Uma estratégia que vincule não apenas o Ministério da Saúde, mas também o Ministério das Finanças, as universidades, as Unidade Locais de Saúde, os Institutos Portugueses de Oncologia e os outros parceiros sociais.
Entretanto, o SNS recruta médicos aposentados para colmatar as suas próprias lacunas. É uma solução que diz tudo sobre o estado do planeamento estratégico em saúde: remendamos quando devíamos construir e promover o desenvolvimento profissional e organizacional.
O que não pode continuar a ser adiado
Não faltam diagnósticos. Falta vontade de agir com coerência e continuidade. Algumas prioridades são incontornáveis:
– Revisão das carreiras e remunerações com referência à média europeia e progressão profissional transparente;
– Programas de fixação no interior, com incentivos reais — fiscais, habitacionais e de condições de trabalho;
– Modelos de gestão em saúde baseados em maior autonomia para as equipas e menos burocracia;
– Formação profissional contínua reconhecida como factor de retenção e não apenas como obrigação estatutária;
– Planeamento de gestão de profissionais de saúde, enquanto pessoas, familiarmente responsáveis, baseado em evidência, articulado com as instituições de ensino superior que foram os profissionais de saúde e com horizonte de longo prazo
O SNS não é uma linha de produção. Nunca o foi. É uma organização viva que depende, acima de tudo, de pessoas que escolhem — todos os dias — continuar a dar o melhor de si numa organização que nem sempre retribui essa escolha. Quando essa organização admite, perante o Parlamento, que não tem profissionais de saúde para responder às necessidades dos cidadãos, não estamos perante uma fatalidade conjuntural. Estamos perante uma falha de governação e de gestão de pessoas com nome e apelido.
A equação é simples e urgente: sem profissionais motivados, comprometidos, valorizados e com o número de horas suficiente para a prestação adequada de cuidados, não há SNS que resista. O momento de resolver a equação já passou — mas ainda não é tarde demais.
Conflitos de interesse: Declaro não ter conflitos de interesse financeiros; a posição expressa é de natureza técnico-ética e cívica.
REFERÊNCIAS:
PLANAPP. (2025). Políticas de gestão e planeamento estratégico de RH da saúde.
IHMT-NOVA. (2025). Primeiro estudo nacional sobre satisfação e retenção de profissionais de saúde em Portugal. Instituto de Higiene e Medicina Tropical.
World Health Organization. (2023). Health workforce: Key facts. WHO.
RTP Notícias. (2026, abril 7). Faltam recursos humanos no SNS.
Diário de Notícias. (2025, dezembro 31). Desafios e prioridades do SNS em 2026: acesso, gestão e humanização.













