Se toda a humanidade consumisse como Portugal, seriam necessários de 2,87 planetas para sustentar o mesmo estilo de vida, muito acima da média global de 1,7 planetas, revela a Global Footprint Network, entidade que anualmente calcula e assinala global e localmente o Dia da Sobrecarga da Terra.
Os hábitos de consumo tecnológico são um dos espelhos mais nítidos deste padrão. Com base em dados de 2025, do Instituto Fraunhofer e da refurbed, estima-se que nas casas portuguesas estejam cerca de 16 milhões de smartphones sem utilização, mais de 600 milhões de dispositivos em toda a Europa.
A tentação é focar o debate na reciclagem, mas, o referido estudo, mostra que entre 70 e 90% da pegada de carbono de um smartphone é gerada durante a sua produção, muito antes de o aparelho ser ligado pela primeira vez. Os próprios dados da Apple confirmam: no iPhone 16 Pro, cerca de 80% das emissões estão associadas ao fabrico e menos de 1% ao fim de vida.
Os dados mais recentes da Agência Portuguesa do Ambiente indicam que, em 2024, Portugal recolheu cerca de 65 mil toneladas de resíduos de equipamentos eléctricos e electrónicos (REEE), um recorde nacional. Mas, este valor fica muito aquém das cerca de 160 mil toneladas, que a associação Zero estima que sejam produzidas anualmente no país.
«Continuamos a tentar esvaziar uma banheira a transbordar com um balde, sem nunca fechar a torneira. O problema não é apenas o lixo que produzimos, é tudo o que consumimos para chegar até lá», afirma Kilian Kaminski, cofundador da refurbed e vice-presidente da European Refurbishment Association.
Os smartphones parados nas gavetas portuguesas representam mais do que desperdício: são a prova de que já temos os recursos. Precisamos é de os reutilizar.
Estender a vida útil de um dispositivo é uma das formas mais directas de reduzir a pegada do sector tecnológico. Segundo as Nações Unidas, sem mudança de rumo, a produção global de resíduos electrónicos deverá atingir 74 milhões de toneladas de globais em 2030, um número bastante superior aos 62 milhões registados em 2022.
«Cada aparelho que volta a circular é um passo para adiar o próximo Dia da Sobrecarga da Terra. Não é preciso deixar de viver. Basta consumir menos e com mais consciência», conclui Kilian Kaminski.














