Rui Semedo: “A liderança é uma atitude”

Rui Semedo, presidente do conselho de administração do Banco Popular Portugal, soube orquestrar o seu percurso profissional como poucos. No activo há 30 anos, 25 dos quais na gestão de pessoas, tem como desafio permanente que todos os colaboradores se sintam úteis e envolvidos.

Por TitiAna Amorim Barroso

Fotografia de Paulo Alexandrino

Está à vontade em qualquer lugar ou perante qualquer desafio. Não é para menos, desde a tropa que Rui Semedo já teve mais de 30 chefias e trabalhou em diferentes contextos e países. E se ainda juntarmos a inquietude própria da sua personalidade, a vontade de aprender e fazer diferente e de partilhar com os outros, construindo um ambiente de confiança, apercebemo-nos como progride.

Natural de Elvas, Rui Semedo, hoje com 53 anos, tem um percurso profissional centrado na banca. Licenciado em Economia, o presidente do Banco Popular Portugal começa a sua carreira no Ministério da Administração Interna, em 1981, mas cedo passa para o Banco Pinto & Sotto Mayor, onde fica até 1987. No grupo BCP desenvolve a sua carreira, trabalhando até 2003, tendo então ocupado diversos cargos, desde director-geral do International Private Banking, CEO do Banco Expresso Atlântico, presidente da Companhia de Seguros de Macau, CEO do Banco Comercial de Macau, entre outros. Depois de uma passagem pelo Barclays Portugal e Barclays Espanha, como CEO e country manager, assume o cargo que actualmente ocupa no Banco Popular Portugal. Reconhece que aprende muito com os seus colaboradores. «O principal conselho que posso dar é a necessidade de reconhecer que são as pessoas que fazem as organizações e que, por isso, a principal característica de quem gere pessoas deve ser a capacidade para perceber os outros, para ser aberto, sem preconceitos, porque não há receitas. Só sendo genuíno no que se faz e nos exemplos que se dão se pode ser consistente», observa Rui Semedo.

Em conversa com a Human Resources Portugal, fala-nos da sua vida, do seu percurso profissional e de um sector que atravessa um conturbado e incerto período.

HR: O Banco Popular divulgou, em Julho, um resultado de 305 milhões de euros, um valor 14% inferior ao registado há um ano, mas acima dos 288 milhões estimados pelo mercado. Que leitura?

Rui Semedo: No actual contexto só posso fazer uma leitura positiva. O Grupo Banco Popular tem vindo a reagir de forma adequada à difícil envolvente económica e financeira, contando para isso com as suas principais forças como o modelo de negócio, os níveis de capital e a eficiência. Estar em linha ou ligeiramente acima daquilo que o mercado espera é um bom indicador.

HR: As provisões e o ambiente económico Espanhol penalizaram as contas do primeiro semestre do Banco Popular. Como reage o Banco, em Portugal, a esta situação?

Rui Semedo: Os actuais níveis de provisionamento na Banca são eles próprios uma consequência do actual ambiente económico, seja em Espanha, seja em Portugal. Os Bancos não estão, naturalmente, imunes à atmosfera que os rodeia e, por essa razão, as suas contas reflectem a actual fragilidade das economias.

O Banco Popular Portugal é parte integrante do Grupo Banco Popular e, por isso mesmo, indissociável no espaço económico ibérico. A crise económica é o que é e, perante isso, o Grupo usa todos os meios e capacidades de que dispõe para enfrentar a crise, sabendo que haverá futuro e que quererá continuar a ser um player ibérico de referência. Nós, no Popular Portugal, agora e sempre, beneficiamos grandemente do facto de ser parte do Grupo. Neste momento de grande instabilidade e incerteza, ele dá-nos o conforto necessário para operarmos activamente no mercado, ainda que de forma ajustada à realidade.

HR: Ainda assim, quais as previsões para o sector bancário Português e para o Banco Popular?

Rui Semedo: Não terá havido muitos momentos em que fosse tão difícil fazer previsões. O que se vai passar, num horizonte de 3-5 anos, está indiscutivelmente associado à execução do programa de ajustamento que está em curso em Portugal e de forma mais geral, a forma como se desenrolar a crise da dívida soberana na Europa e, por essa via, à forma como a própria Europa ultrapassará esta fase. A nós, portugueses, resta-nos fazer bem a nossa parte, aquilo que só depende de nós.

Face a tamanha incerteza, e estando o sector bancário no centro da economia, a evolução estará muito associada à resolução dos problemas económicos, com o regresso a uma trajectória de crescimento, e, obviamente, à reconquista de confiança junto dos mercados financeiros internacionais, sem a qual o impasse se manterá. O sector bancário português tem qualidade e ultrapassará seguramente esta fase com os ajustamentos que se justifiquem.

No Banco Popular continuamos a preparar-nos, em paralelo à resposta que temos que dar aos problemas que a crise vai gerando, para o pós-crise. Queremos ser uma operação bancária de referência em Portugal e, para isso, contamos com o apoio do Grupo.

HR: Ainda no mercado interno, qual a aposta e desafios do Banco, designadamente em termos de estratégia de RH?

Rui Semedo: A aposta do Popular em Portugal é simples. Ser uma referência na prestação de serviços financeiros a empresas e famílias. A essa aposta está associado um mundo de desafios, entre os quais um que é central, talvez o mais relevante, as pessoas e como descobrir e aproveitar o que há de melhor em cada uma delas.

Só há um verdadeiro desafio quando se trata de gerir Recursos Humanos. Atrair e desenvolver pessoas com qualidade e conseguir que todos estejam alinhados em redor dos grandes objectivos da empresa. Para isso é necessário criar as condições internas para que haja uma correspondência entre estar bem e fazer bem. É claro que cada momento é um momento distinto e condicionado pelo contexto, mas há coisas que nunca podem mudar. Que todos se sintam úteis e envolvidos. É esse o desafio permanente.

HR: Foi reconduzido, em Junho deste ano, para mais um mandato na presidência da administração do Banco, para o período de 2011 a 2014. Vão existir alterações de rumo?

Rui Semedo: Não há motivo para grandes alterações de rumo. Os nossos objectivos são claros. Apesar do conturbado, difícil e incerto período que atravessamos, continuaremos a trabalhar para reforçar a nossa operação, introduzindo todos os ajustamentos que se revelem necessários. Sem esquecer os problemas do dia-a-dia, preparamos o pós-crise, que chegará e para o qual queremos estar preparados. Os próximos tempos serão de acção e de reflexão sobre o banco que queremos ser e acreditamos poder ser. Apoiados na reputação, na qualidade e nas características do Grupo, estamos a construir um banco completamente orientado para o serviço aos clientes, privilegiando as empresas e as famílias portuguesas e explorando a nossa ampla experiência e presença ibérica.

HR: Na 1.ª conferência da revista Human Resources Portugal disse que trabalha há 30 anos, dos quais 25 na gestão de pessoas. Que conselhos gostaria de passar nesta área?

Rui Semedo: É verdade que tenho tido o privilégio de gerir pessoas e, ao longo de muitos anos, ter reunido um capital de experiência em diferentes contextos e situações. O principal conselho que posso dar é a necessidade de reconhecer que são as pessoas que fazem as organizações e que, por isso, a principal característica de quem gere pessoas deve ser a capacidade para perceber os outros, para ser aberto, sem preconceitos, porque não há receitas. Só sendo genuíno no que se faz e nos exemplos que se dão se pode ser consistente.

Aprendi e continuo a aprender muito com os outros, com os seus erros e com as suas qualidades. A interacção permanente é a melhor forma de compreender e dá origem a acções mais eficazes. Cada pessoa é um mundo e é na boa conjugação de todos esses mundos individuais que se constroem as organizações que progridem, fazendo progredir os que as fazem. Todos.

A descoberta das pessoas é, na minha visão, o principal desafio de quem gere. Quanto mais aperfeiçoamos a nossa capacidade de interpretar os sinais que todos os dias nos chegam, melhor extraímos das pessoas o melhor que têm para dar. O resto é acessório.

HR: Também afirmou que teve mais de 30 chefias e já trabalhou com diferentes nacionalidades desde chineses, espanhóis, anglo-saxónicos. Quais os principais ensinamentos que recolheu?

Rui Semedo: A diversidade com que tenho sido confrontado, desde a tropa, contribuiu decisivamente para consolidar o meu estilo. As pessoas são diferentes mas há sempre coisas em comum. Em paralelo às inquestionáveis questões de natureza cultural há muitos elementos comuns na natureza humana. Os anseios são os mesmos, a vontade de ser útil é a mesma, muitas das alavancas da motivação são as mesmas, o que leva a que gerir em contextos diferentes não implique alterações radicais. A proximidade, a transparência, a frontalidade bem dirigida e comunicação clara são transversais.

O ter uma variada experiência, pelo número de “chefes”, de colaboradores, de culturas, de línguas e de situações, só ajudou a distinguir o essencial do acessório e a deixar-me à vontade em qualquer lugar ou perante qualquer desafio. Mas esse é uma construção que nunca está terminada e que só os resultados e não o discurso podem confirmar.

HR: Quais as características fundamentais de um líder? E desafios?

Rui Semedo: Tenho para mim que a característica fundamental de quem lidera é a de ser genuíno, ser ele mesmo e não uma construção artificial. Isso é melhor compreendido se pensarmos que a capacidade de liderança se encontra a todos os níveis de uma organização.

O líder não é só aquele que está no topo e, visto assim, a liderança é uma atitude.

Se queremos centrar-nos na liderança como o papel de quem é número um, veremos que os seus atributos se começaram a revelar ao longo de toda uma carreira, já em grande parte determinada pelas características que acabam por levá-lo ao topo.

Se tenho que resumir, direi que o papel do líder é muito semelhante ao papel dum maestro e é na sua missão de orquestrar, de sintonizar diferentes contributos, que reside o seu grande desafio. Visto na perspectiva da organização empresarial, compete ao líder ter claro onde quer chegar e alinhar a organização em ordem à obtenção dos resultados. Quanto melhor a sintonia, melhores os resultados e, por isso mesmo, sendo as pessoas os agentes que executam a melodia, é o seu alinhamento que ditará a qualidade do concerto, isto é, o resultado.

HR: Como chegou ao topo?

Rui Semedo: A pergunta encerra uma questão à qual é difícil de responder. O que é o topo ou qual topo?

HR: Refiro-me: como chegou onde está?

Rui Semedo: A resposta é muito simples. Sendo eu mesmo e nunca esquecendo que “não há nada que não se possa fazer melhor”. A inquietude, a vontade de aprender, de fazer diferente, tem sido sempre um impulsionador ao longo da minha vida. Só podem ser essas as características que me têm ajudado a progredir.

Quando se olha cada dia como um ponto de partida e não de chegada, torna-se mais fácil avançar.

Se a essa necessidade de aperfeiçoamento, de ser útil e fazer mais, juntarmos disponibilidade para aprender e partilhar com os outros, construindo um ambiente de confiança à nossa volta, podemos ter a chave para o desenvolvimento pessoal e profissional. É nisso que acredito e é isso que tento difundir à minha volta.

HR: A liderança para além de ser uma atitude, é uma tarefa especial e privilegiada. Mas é um exercício solitário?

Rui Semedo: Fica bem vender a imagem do líder como uma figura solitária, mas isso não é mais que um cliché. Entendo a liderança como permanente interacção e; daí, a importância da clareza, da transparência e da proximidade. O que é individual e por isso pode dar uma ideia de solidão, é o exercício da decisão e o assumir da responsabilidade última. Esse é apenas uma das exigências a quem exerce a liderança.

As organizações são organismos vivos, com uma miríade de interacções formais e informais aos quais já não se adapta a imagem do líder solitário que exerce um poder discricionário. Há limites para tudo. Até para o exercício do poder. No mundo em que vivemos devemos valorizar a autoridade que se ganha e não o poder que se dá.

O que só pode ser individual é a capacidade para mobilizar, para inspirar, para motivar, enfim, para reunir em redor de uma missão comum. Nesse sentido, a liderança tem uma componente individual, mas não necessariamente solitária.

HR: Qual o seu estilo de liderança?

Rui Semedo: Esta é uma resposta a que só quem comigo colabora pode responder. A minha visão será sempre enviesada. Só direi, como já referi anteriormente, que tento ser claro, transparente, próximo e dedicado às pessoas. Vivo em permanente interacção, tentando ser uma boa referência para quem comigo trabalha. Se isso marca um estilo, não sei. Sou eu mesmo, como sempre fui, mas cada dia com mais experiência (oxalá se transforme em sabedoria).

HR: Sabemos que não há nada que ultrapasse a nossa motivação pessoal, esforço e dedicação individual. Mas como se motivam as pessoas?

Rui Semedo: Para esta não há resposta científica, só podendo revelar as armas que uso e que resumiria em duas ou três palavras já usadas: clareza de objectivos e métodos, frontalidade e envolvimento. Depois uma adequada medição do contributo de cada um e uma justa e equilibrada compensação. Enfim, aplicar aos outros a receita que gostamos que nos seja aplicada a nós.

HR: Garantiu ainda que recebe, um a um, todos os novos colaboradores que entram no Banco, estando duas horas à conversa. Quais as políticas de RH do Banco?

Rui Semedo: As que decorrem das ideias já explanadas, enquadradas pelas políticas do Grupo. Simples e claras, tendo como finalidade concretizar os objectivos de negócio do banco, criando as condições para que as nossas pessoas se sintam bem e se desenvolvam pessoal e profissionalmente. Como não sou especialmente favorável a espartilhos, também a política de Recursos Humanos se vai moldando no tempo.

HR: Como incentiva, trata e retém o talento no Banco?

Rui Semedo: Respeitando as pessoas e criando condições para que se sintam envolvidas e sempre desafiadas. Apesar da banca ser uma actividade não dada a revoluções, estamos permanentemente tentando reinventar o que fazemos. Isso estimula e desassossega, o que é especialmente apreciado por quem quer progredir.

Também neste domínio são importantes a participação alargada com ideias e opiniões, a transparência sobre os projectos e a comunicação interna, à qual damos imensa importância. Gosto de cultivar internamente uma atitude empreendedora, onde o medo não esteja presente.

HR: Como define a sua equipa? E como a desenvolve?

Rui Semedo: Tenho uma equipa bastante equilibrada e com muita qualidade, onde se reúnem os skills necessários à operação que estamos a construir. Quanto ao desenvolvimento das pessoas, também sou pouco dado a modas e, por isso, estimulo que seja cada um a descobrir o caminho. Acredito muito na importância do auto-conhecimento e auto-formação. Ninguém melhor que cada um de nós sabe o que temos de bom e de menos bom e onde precisamos de aperfeiçoamento. O “conhece-te a ti próprio” é, em meu entender, um pilar fundamental para o desenvolvimento das pessoas. É claro que damos orientações e fazemos acções estruturadas, mas nunca deixamos de apelar ao sentir individual.

HR: Qual o valor da criatividade no Banco Popular? De que forma deveria ser tratada?

Rui Semedo: A actividade de banca comercial, pelas suas especificidades e regras não faz um apelo permanente à criatividade individual e, por isso, tem que ser estimulada. Damos muito valor às novas ideias e estamos em permanente estado de reflexão sobre o que poderíamos fazer melhor. Só a liderança bem exercida em todos os patamares pode evitar a falta de novas ideias que, muitas vezes, conduz à decadência.

No quadro de um banco, com tudo o que isso significa, valorizamos muito a partilha e a discussão, mecanismos indispensáveis à geração de um ambiente criativo. No que se faz e na maneira como se faz.

HR: Como é um dia (a)típico?

Rui Semedo: Grande parte do meu tempo é ocupada com as pessoas. Não abro mão de seguir muito de perto a área de Recursos Humanos. Desde sempre. Todos os dias falo com colaboradores, seja a meu pedido, seja porque manifestam essa vontade. Se sempre dei imensa importância à proximidade, agora, em tempos tão complexos, ela é ainda mais importante. Assim colaboradores e clientes são os meus principais focos. Depois a rotina. Muitos papéis, muitos e-mails e os comités mais importantes, como são os relacionados com o risco e com o negócio.

HR: Como ocupa os tempos livres?

Rui Semedo: Sou de vida simples. Tempo de qualidade com a família, muitos livros, muita música, o Alentejo e algum Sporting.

Ler Mais