
A culpa é do mordomo
Por Pedro Ramos, CEO da KeepTalent Portugal
Dizem por aí que, em todas as “boas histórias de mistério”, há sempre um suspeito improvável. Alguém discreto, aparentemente secundário, que só aparece para servir o chá ou para ajeitar as flores da sala de jantar. No final, claro, descobre-se que era ele o responsável por todo o enredo e seu desfecho: o mordomo.
Nas empresas, a trama não é muito diferente. Quando os resultados não aparecem, quando os talentos fogem pela porta “dos fundos” e quando a cultura organizacional perde o brilho, há sempre um olhar que se volta, ainda que discretamente, para uma mesma personagem: o RH. “A culpa é do RH!”, dizem alguns com a convicção de detective experiente.
Mas será mesmo?
Talvez o RH – o tal “mordomo corporativo” – não seja o assassino da estratégia, mas a vítima silenciosa do enredo. O primeiro a ser chamado para “arrumar a casa”, o último a ser realmente ouvido nas decisões. Afinal, o RH costuma saber onde estão “os corpos”; leia-se, as lacunas de liderança, os talentos desmotivados, as decisões precipitadas que matam a cultura empresarial aos poucos. No entanto, quantas vezes o seu aviso chega tarde demais, abafado pelo barulho das “urgências” e números?
Ser um RH estratégico hoje é como ser um detective de Agatha Christie tentando resolver um crime enquanto participa do jantar dos suspeitos. Requer faro, leitura de sinais, intuição e coragem para dizer o que ninguém quer ouvir. A diferença é que, na vida real, o “crime corporativo” não é resolvido com uma revelação dramática na sala principal; pelo contrário, é prevenido todos os dias, com escuta activa, liderança empática e visão de futuro.
O verdadeiro mistério, portanto, não é descobrir quem matou os resultados, mas entender por que o RH foi afastado da cena do crime. Empresas que mantêm o RH apenas como executor administrativo acabam tornando-o cúmplice involuntário da morte da estratégia. Quando o RH é convidado apenas para preencher vagas e organizar campanhas de bem-estar com entrega de “maçãzinhas”, não tem acesso às motivações do enredo – e sem este, ninguém investiga o que realmente importa: o comportamento humano nas organizações!
No final, o veredicto é simples. A culpa não é do mordomo, nem do RH. A culpa é da história mal contada, onde o protagonista foi deixado na cozinha enquanto a empresa se desintegrava na sala de jantar.
Talvez seja hora de reescrever o roteiro: dar ao RH o papel central que merece – o de quem não apenas serve a estratégia, mas a cria, a alimenta e a protege. Porque, em qualquer organização que queira sobreviver ao próximo capítulo, o verdadeiro mistério é como fazer das pessoas o melhor enredo possível.
Afinal, morra a culpa “solteira ou casada”, a culpa nem sempre é do RH… mas às vezes até parece!