A falta de controlo na avaliação psicológica do vigilante

Os serviços de segurança privada têm adquirido grande importância nas organizações privadas e na contratação pública devido ao crescimento da criminalidade e das condições de insegurança resultantes de diversos problemas de desordem social.

Por Manuel Sacramento, gestor de clientes da COPS

 

Neste contexto, não se furta a compreensão de que os valores são vistos como uma componente basilar de identidade de uma organização. O sector da segurança privada é uma área que necessita de profissionais qualificados e capacitados, física e intelectualmente, para que possam actuar com a devida consciência da função que desempenham.
O vigilante é um profissional que convive, diariamente, com o perigo e diversos riscos inerentes à sua profissão, portanto manter um equilíbrio e ter a habilidade de saber enfrentar cada situação, faz com que estes diminuam os seus níveis de stress.

Contudo, as actividades de segurança privada em Portugal ainda não estão devidamente controladas e fiscalizadas, de forma a garantir o perfeito estado psicológico e físico dos vigilantes que actuam neste sector.

Existem situações nas quais o vigilante tem de trabalhar um elevado número de horas, por exemplo, 12 horas diárias e, em caso de falta de um substituto de turno, serem “obrigados” a fazer mais 12 horas, ou seja, 24 horas seguidas de trabalho.
O trabalho por turnos (rotatividade na hora de dormir) tem consequências graves reconhecidas pela Organização Mundial de Saúde e é uma das grandes causas do desenvolvimento do stress ocupacional, sendo este o causador de mais de metade das faltas ao trabalho e o segundo problema de saúde mais recorrente relacionado com o emprego.

Um estudo publicado em 2013 – European Opinion Poll on Occupational Safety and Health – revela que Portugal está classificado como o terceiro país europeu com a maior proporção de trabalhadores com problemas de stress, tendo sido apurada uma taxa de 28%, quase o dobro da média europeia que se cifra nos 16%.

A redução do número de folgas que lhes permita descansar e repor os níveis normais de stress, a pressão diária a que muitas vezes estão sujeitos nas instituições públicas e privadas no relacionamento direto com o público, a falta de direito à hora de almoço como tempo de descanso, pois o almoço destes profissionais é feito de forma ativa, onde têm apenas 20 minutos para almoço e, muitas vezes, no próprio local onde trabalham, sendo que é possível verificar no artigo 197º do CT que não existe o direito a pausas diárias para descanso, são algumas das causas deste problema que se vem a agravar cada vez mais.

Trabalhadores submetidos a estas circunstâncias indutoras de stress têm normalmente reações fisiológicas próprias com a alteração do seu ritmo cardíaco e respiratório, músculos descontrolados nos braços e pernas e manifestações de alguma agressividade e descontrolo emocional, pois o organismo é estimulado e motivado para se defender.

O stress é uma resposta fisiológica e comportamental a algo com que somos frequentemente obrigados a lidar e nos faz sentir ameaçados ou, de alguma forma, perturba o nosso equilíbrio emocional e físico. Quando nos sentimos em perigo real ou sujeitos a determinadas rotinas diárias, as defesas do organismo reagem rapidamente num processo automático conhecido como reação de “luta ou fuga” ou de “congelamento”. Uma resposta inconsciente sobre a qual, muitas vezes, não entendemos a causa.

O stress excessivo e o cansaço físico levam normalmente ao Síndrome de Burnout. Situação que pode ser desencadeada em qualquer atividade profissional, mas que se verifica uma maior predisposição em profissionais que impliquem um contacto diário com pessoas e a quem prestem determinado serviço, por exemplo vigilantes, profissionais de saúde, professores, serviço social, forças de segurança, entre outros, dada a elevada responsabilidade, exigência profissional e envolvimento emocional.

Urge criar medidas no sector da segurança privada que permitam um controlo mais eficaz e assíduo ao estado psicológico, físico e emocional dos vigilantes que prestam serviço em variados setores públicos.

É, também, de grande urgência um maior controlo e fiscalização por parte da entidade reguladora e do MAI na formação de novos vigilantes através de uma avaliação psicométrica, onde estão incluídos os testes cognitivos, psicomotores e um questionário de personalidade para apreciação, seguida de uma entrevista psicológica que permita uma avaliação prévia das características de personalidade do vigilante e um despiste psicopatológico e de potenciais atitudes de risco.

O MAI não deve continuar a credenciar profissionais para um setor tão critico e complementar às forças de segurança, sem uma análise prévia mais aprofundada das características de personalidade desses futuros vigilantes.

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