A (in)sustentável visibilidade da Mulher

Por Paula Perfeito, presidente da PWN Lisbon

 

Há um par de anos, a caminho daquela que é considerada a capital da Europa, Estrasburgo, vivi uma pequena epopeia digna das viagens rumo a Ítaca. Era 7 de Merço quando aterrei no Aeroporto de Frankfurt, envolto num silêncio sepulcral para um dos maiores hubs do mundo. Uma greve dos trabalhadores aéreos e ferroviários acabava de começar e prometia complicar uma viagem que deveria ser simples, no trajecto, e que tinha como objectivo participar num evento da PWN Global no Parlamento Europeu, reunindo líderes de 25 países na celebração simbólica do Dia Internacional da Mulher.

À chegada, o autocarro para Estrasburgo tinha sido cancelado. Consegui um comboio alternativo para mais tarde e aproveitei a espera para adiantar trabalho no lounge do aeroporto. A viagem começou, mas em Mannheim o comboio foi evacuado, após um apedrejamento numa carruagem. Entre explicações em inglês e gestos que substituíam o alemão, consegui um novo bilhete. Seguiram-se novas escalas e dois comboios até chegar, finalmente, a Estrasbrugo, perto das 22h — dez horas depois do previsto.

Ao longo do percurso, desenhou-se, quase como metáfora, a trajectória de uma vida em missão: o trabalho investido, a exigência da conciliação e as aparentes contradições, os desafios previsíveis e os imponderáveis, os labirintos, as quedas, as derrotas, as conquistas. A vida como ela é. Com a chegada ao destino, pacificada pela convicção do que motivou toda a viagem.

Quando, no dia seguinte, 8 de Março, entrei na sede do Parlamento Europeu, constatei que estava na instituição que em 1981, o ano em que nasci, era presidida por Simone Veil, emergida nas primeiras eleições à presidência do Parlamento Europeu realizadas por sufrágio universal directo, em 1979. Foi a primeira mulher a ocupar o lugar, com a sobrevivência do Holocausto na carteira e uma convicção inquebrantável da necessidade de uma Europa unificada e legitimada no seu projecto democrático. Como hoje, de resto, e por tantos outros motivos.

Toda a epopeia vivida no dia anterior foi, imediatamente, relegada para um plano diminuto, perante tamanha inspiração e dado o motivo da reunião de mais de 300 pessoas provenientes dos diferentes continentes, com a presença das diferentes City Networks que constituem a PWN Global, com a PWN Lisbon incluída. O objectivo era claro: reflectir e perspectivar a condição daqueles que devem ser os nossos principais stakeholders: a diversidade, a igualdade e a inclusão.

Mesmo com o valor incremental introduzido pela Grécia Antiga; as principais revoluções liberais; o texto fundador do feminismo conhecido em 1772 pela mão de Mary Wollstonecraft; a Declaração Universal dos Direitos Humanos; o Tratado de Lisboa em vigor desde 2009; ou a moldura normativa introduzida nas empresas com Viviane Reding… continuamos hoje a observar uma União Europeia a três diferentes velocidades. Os países que não têm qualquer medida em vigor (como Estónia, Letónia, Roménia); outros com medidas de auto-regulação das empresas (como Espanha, Dinamarca, Finlândia); e outros, ainda, com medidas regulatórias, no grupo dos quais estamos nós, Portugal, ao lado da Alemanha ou França.

Trouxe deste dia – e da epopeia para dele fazer parte – uma profunda convicção. A mulher, ao navegar entre os mundos profissional e todos os papéis que histórica, social e culturalmente lhe são conferidos, desenvolve uma capacidade de gestão de crise e uma eficiência e eficácia com as quais nenhuma prática escolar, por mais pergaminhos que tenha, pode competir. Aprende e empreende na hierarquização do essencial, na negociação do tempo, na gestão de conflitos e na identificação de soluções, recorrentemente. Está habilitada a transferir competências ganhas nos contextos familiar e pessoal para o âmbito profissional, onde pode destacar-se, por isso, ainda que nem todos o vejam (ou queiram ver).

O Pew Research Center continua, de facto, a dizer-nos que as mulheres se destacam em vários factores decisivos da liderança corporativa, como a criação de espaços de trabalho seguros, a valorização e integração de pessoas oriundas de diferentes contextos, a consideração do impacto social das decisões de negócio, a mentoria e o cuidado com colaboradores mais jovens ou, ainda, o sentido de justiça face às condições e ao estatuto remuneratório.

E duas perguntas sacramentais distinguem o início e o fim do século XX, de acordo com Claudia Golden, Prémio Nobel da Economia em 2023: Devo investir na família ou na carreira?; e Como posso investir, simultaneamente, na família e na carreira? Ora, se a carreira oferece à mulher uma identidade própria, um espaço de realização intelectual e a segurança de poder prover; a maternidade, por sua vez, confere-lhe uma perspectiva renovada sobre o futuro e uma motivação que transcende o simples sucesso financeiro. E, já agora, ser uma profissional dedicada é também um exemplo poderoso para os filhos, ensinando-lhes, desde cedo, o valor do trabalho, da autonomia e da busca pelos próprios sonhos. Estes pilares são, por sinal, altamente competitivos. Mas, as lideranças actuais continuam a carecer, mais do que nunca, de incontestada diversidade para uma visão transversal.  

Situemo-nos, pois, na complexidade deste nosso tempo. Diz-nos o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han que há uma preponderância da eficácia sobre a verdade. Se conseguirmos ser eficazes, qual é a necessidade de sermos verdadeiros, impactantes? É assim que nos interpela o autor. E é aqui que nos deveríamos propor recuperar a cultura e a educação enquanto laboratórios de transmissão de valores, conhecimento, transformação e preparação para os papéis que assumimos nas organizações, na sociedade, no país, no mundo.

Que líderes somos, afinal? Líderes de equipas? Ou, sobretudo, e por convicção, fervorosos promotores de equipas de líderes? A presente complexidade obriga a dar às mesas que lideramos respostas sistémicas, que liguem causas a efeitos; execução orientada a dados, com accountability e transparência; comunicação empática e aprendizagem contínua, como ecossistema; sabedoria na leitura dos desafios e oportunidades; parcerias entre público, privado e economia social, para agregar esforços e fazer sinergias. O impacto de um líder mede-se, não apenas pelos resultados financeiros, mas pela cultura sinérgica que cria e a capacidade de ler as mutações culturais em curso, entre a filigrana tão apertada e subtil.   

Os grandes problemas que hoje assolam a humanidade – a guerra, a desinformação, a pobreza, a transição climática – obrigam a respostas diferentes e a um novo pragmatismo. O que hoje se exige a um líder é um reservatório dinâmico de competências mais vastas, de saber colaborar, agir com o outro, provocar um ambiente de interdisciplinaridade; saber comunicar, apresentar, conciliar a visão afunilada da educação com uma abordagem de verdadeira multidisciplinaridade e assente num património inegociável, essa grande pedra de toque: os valores, lá está.

A importância das competências técnicas será sempre inquestionável. Mas nunca a ética e a qualidade das valências comportamentais foram tão gritantes para, perante a perda de diálogo e escuta, a polarização, a inteligência artificial que entendemos já dominar, podermos fazer a diferença na forma como nos relacionamos, falamos com o outro, construímos uma equipa e fazemos projectos que respondam à capacidade de aliar aumento de qualificações a aumento de produtividade, para fazer crescer a nossa economia, a nossa capacidade competitiva, o nosso desenvolvimento. Para crescermos em ambição como país.

Para mudar o sistema, é absolutamente nevrálgica esta visão holística da liderança, porque o desafio continua a ser eminentemente cultural, o que implica cuidar do que está nas raízes:  saber que esta missão é absolutamente transversal e humanista (nem da mulher, nem do homem). Inspiram-me, para fechar, precisamente, os modelos formativos que recolocam as humanidades como requisito curricular transversal em todas as áreas do saber. Que cuidam do legado. E que cuidam do impacto. Podem não ser infalíveis (como nada é), mas serão decisivos para fazer a diferença que se impõe, apesar das epopeias.

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