
A redução da jornada como caminho para o bem-estar e a eficiência
Por José Pedro Fernandes, vice-presidente da SISQUAL® WFM
A discussão sobre a redução da jornada de trabalho não é nova, mas só recentemente começou a ganhar forma prática e concreta. Quando falamos de diminuir horas semanais ou adoptar a semana de quatro dias, parece que estamos a tocar num tema sensível: produtividade, custos, organização interna e, acima de tudo, mudança cultural. E é aqui que reside o grande desafio.
Muitas vezes, quando analisamos esta questão apenas por uma perspectiva quantitativa, em que menos horas é igual a menos produção, a conclusão parece imediata: é algo impossível de implementar. De facto, se reduzirmos a jornada mantendo exactamente o modelo de gestão e a mesma lógica operacional, chegaríamos à ideia de que seria necessário contratar quatro ou cinco pessoas adicionais por serviço para manter o nível de funcionamento. O mercado, culturalmente, não quer assumir esse custo. Basta olhar para realidades próximas, como em Espanha, onde muitos sectores preferem evitar a mudança por medo de enfrentar o impacto financeiro inicial.
No entanto, a verdadeira questão nunca esteve apenas na redução das horas, mas no paradigma de gestão que utilizamos para organizar o trabalho. Quando deixamos de olhar apenas para turnos fixos e passamos a observar as tarefas que realmente precisam de ser realizadas, percebemos que a operação pode ser reorganizada com foco na produtividade real e começamos a perguntar o que é realmente importante: quanto tempo é necessário para executar cada tarefa? Que competências são necessárias para garantir a qualidade do serviço ao cliente? Como se assegura que ninguém fica sobrecarregado e, ainda assim, o cliente continua bem atendido?
Ao analisar estas questões, podemos desenvolver uma nova forma de gerir equipas: em vez de planear horas de contrato, planeiam-se horas por tarefa. Isso leva a identificar funções específicas dentro das equipas, reforçar a formação, elevar competências e valorizar os colaboradores. Assim, torna-se claro que não é necessário contratar tantas pessoas quanto inicialmente imaginado. O que é preciso é reorganizar inteligentemente o trabalho, e é aí que as ferramentas de workforce management se podem tornar parte da solução.
Com essa transformação, torna-se possível dar às pessoas mais tempo de descanso, mais espaço para viver fora do trabalho e, consequentemente, melhorar a sua qualidade de vida.
Este processo abre caminho para outro conceito fundamental: a flexibilização do trabalho e o conceito de ‘Open Shifts’. Há sectores onde já é possível que o próprio colaborador escolha horários e turnos com base nas necessidades das operações e na sua disponibilidade pessoal. Por exemplo, pode assumir um turno no domingo e reservar um dia da semana para um compromisso familiar sem ser penalizado por isso. Esta autonomia não só melhora a motivação como também reforça o sentido de responsabilidade e pertença.
Ainda não estamos num ponto em que isto possa ser aplicado em toda a economia. Faltam estrutura, ferramentas e, sobretudo, confiança. Mas a direcção é clara: é possível manter níveis elevados de serviço, fortalecer a produtividade, dar mais autonomia aos colaboradores e integrar as suas necessidades pessoais num modelo de trabalho mais humano. Com as ferramentas certas, cada pessoa sabe o que deve fazer, desenvolve novas competências, sente-se valorizada e respeitada.
No final, tudo se resume a reconhecer que reduzir a jornada de trabalho não significa trabalhar menos para produzir menos, mas sim trabalhar melhor.