“AI-washing” está a aumentar? A polémica sobre despedimentos atribuídos à IA

Há muito que os despedimentos são atribuídos a incumprimento de metas, excesso de contratações ou factores externos. Ultimamente, há outro factor, cada vez mais mencionado pelas empresas, a inteligência artificial.

 

Segundo o New York Times, os mais de 50 mil cortes de emprego anunciados em 2025 citaram a IA como factor, de acordo com dados da empresa de recrutamento de executivos Challenger, Gray & Christmas. Os executivos argumentam que os rápidos avanços na IA generativa irão em breve remodelar a forma como o trabalho é realizado e que os gastos com salários precisam de ser reduzidas já para se prepararem.

A Amazon anunciou recentemente mais 16 mil despedimentos, a juntar aos 14 mil do último Outono. O CEO Andrew Jassy afirmou que a IA e a automatização devem reduzir o número de colaboradores ao longo do tempo, embora a empresa tenha posteriormente enfatizado a redução da burocracia como o principal factor. Muitos analistas acreditam que os cortes também estão a libertar capital para investimentos em IA, como os data centers.

Outras empresas tomaram medidas semelhantes. O Pinterest anunciou que vai cortar cerca de 15% da sua equipa, redireccionando recursos para funções focadas em IA. A Hewlett-Packard sinalizou que a incorporação de IA nos seus produtos poderá levar a milhares de despedimentos nos próximos anos.

Nem todos estão convencidos. Os críticos argumentam que algumas empresas estão a exagerar o papel da IA, uma prática cada vez mais chamada de “AI-washing”. A empresa de pesquisa de mercado, Forrester, alertou que muitas empresas que alegam despedimentos motivados por IA não têm actualmente sistemas maduros capazes de substituir estes trabalhadores.

Peter Cappelli, da Wharton School, afirma que o cepticismo faz sentido quando os cortes são justificados por uma tecnologia que ainda não gerou ganhos de produtividade significativos. E Molly Kinder, da Brookings Institution, observa que justificar os despedimentos com base na IA pode ser muito mais apelativo do que admitir erros estratégicos.

Até à data, os dados sugerem que a IA não alterou fundamentalmente o mercado de trabalho. Um estudo recente do Yale Budget Lab encontrou poucas evidências de deslocação generalizada de trabalhadores, enquanto as mais de 700 mil despedimentos no sector tecnológico desde 2022 reflectem, em grande parte, uma retracção das contratações excessivas da era da pandemia.

Ainda assim, culpar a IA pode ser a explicação menos controversa. Num clima político e económico tenso, os executivos podem considerar mais seguro apontar para as tecnologias futuras do que para as políticas, erros de planeamento ou abrandamento da procura, mesmo quando as verdadeiras causas são mais complexas.

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