«As empresas vão tentar reduzir a sua dependência do factor humano», afirma Arlindo Oliveira. Há funções em risco e outras em expansão

Arlindo Oliveira, professor no Instituto Superior Técnico (que presidiu durante oito ano) e autor de livros como “Mentes Digitais” e “Inteligência Artificial”, e Marlene Fernandes, sales & operations director para a área de Outsourcing na Randstad Portugal, foram os protagonistas de mais uma re(talk), onde esteve em debate “as profissões de hoje e de amanhã”.

 

Antes da pandemia se tornar no dia-a-dia de todos nós, alguns dos principais temas na agenda, não só dos gestores de Pessoas, mas das empresas, em geral, eram a atracção e retenção de talento, a escassez de determinados perfis, e o obsolescência progressiva de outros, bem como a progressiva e cada vez mais necessária, transformação digital. Será que a pandemia veio afectar as dinâmicas que se vinham a verificar no emprego e do mundo do trabalho?

Arlindo Oliveira tem defendido que os avanços tecnológicos podem mudar radicalmente a sociedade, e até o próprio conceito de humanidade. E acredita que a actual pandemia veio acelerar algumas tendências que de outra forma demorariam mais tempo. «Falamos de tempos diferentes, a pandemia é uma coisa imediata, de meses ou alguns anos, enquanto as tendências que estávamos a observar são tendências de longo prazo, normalmente de dezenas de anos». Reconhecendo que veio acelerar significativamente algumas práticas, nomeadamente de reuniões ou eventos virtuais, por exemplo, mas não perspectiva «uma inversão das tendências que já estávamos a observar».

Também na Randstad a COVID-19 não veio propriamente trazer novidades em termos de ferramentas ou práticas, mas veio sem dúvida exponenciá-las. As pessoas já estavam familiarizadas com o digital e preparadas para poder trabalhar de uma forma remota, como de facto veio a acontecer em virtude da pandemia, e «ter os processos já idealizados para serem desenvolvidos e concluídos de uma forma remota foi claramente uma grande ajuda para que o negócio pudesse continuar.»

No que respeita aos clientes não foi muito diferente. A responsável explica: “Com quem já tínhamos parcerias, a nossa solução tecnológica estava implementada, tendo por isso sido simples fazer esta mudança. Não é de hoje que falamos com os nossos clientes sobre esta transformação digital e claramente que aqueles que estavam mais bem preparados não sentiram um impacto tão forte com esta situação. Mas há aqui de facto algumas aprendizagens que temos de fazer, sobretudo relativamente à experiência do cliente, com o factor humano muito presente nos canais remotos».

 

Profissões em declínio Vs profissões em destaque

Será que a dinâmica entre a oferta e procura vai ser afectada pela actual crise e a que se avizinha? As profissões que estavam “a morrer” vão mesmo desaparecer ou ganharam novo “fôlego”? Arlindo Oliveira constata que há um conjunto de profissões, nomeadamente na área da saúde, que mereceram uma atenção grande durante a pandemia e que vão continuar com um foco maior.

Mas destaca que, «a um nível mais global, podemos ver muitas empresas que vão tentar reduzir a sua dependência do factor humano». E concretiza: «Falo de indústrias e outros serviços que estavam muito dependentes do factor humano e que agora, se puderem, vão optam por automatizar parcialmente a sua actividade. A robótica, a digitalização e o próprio trabalho à distância vão desempenhar um papel importante. E foram provavelmente profissões deste tipo que foram aceleradas pela pandemia, e tudo o que são profissões repetitivas – que já estavam com algum risco de serem descontinuadas – viram essa sua situação acelerada.» Ou seja, tudo o que sejam funções automatizáveis através de tecnologia sofisticada, como por exemplo as funções num call center ou a condução de veículos vão ser substituídas ou fortemente reduzidas.

«Por outro lado – continua – tudo o que é Informática, Sistemas de Informação e Telecomunicaçãos acentuaram a sua  relevância e vão continuar a ser profissões com uma grande procura, assim como as profissões ligadas à criatividade, à educação e à investigação, que não difíceis de automatizar. Como também servir à mesa num restaurante não deixará de existir facilmente, acrescenta.

 

Marlene Fernandes discorda que as profissões ligadas aos contact center estejam em perigo no futuro, até porque, «nesta pandemia, claramente o que sobressaiu foi o atendimento ao cliente. As pessoas tiveram necessidade de fazer as suas compras online, assim como de adquirir serviços e resolver problemas, daí a necessidade de termos do outro lado uma pessoa que perceba aquilo que o cliente precisa e procura», faz notar. «Claro que a tecnologia poderá ajudar, e muito, mas a componente das emoções é – e vai continuar a ser – muito importante, assim como é importante perceber bem o que é que a pessoa que está do outro lado quer.»

O professor não discorda que o serviço ao cliente teve um reforço grande no actual contexto, que muito provavelmente se vai manter, mas não deixa de dar o seu próprio exemplo: «Durante a pandemia já comprei diversas coisas online e nunca precisei da intervenção humana.» Não fica no entanto sem resposta, pois Marlene Fernandes reitera:  «Se algo não corresse bem nessas compras, certamente que teria necessidade de falar com uma pessoa para ajudar a resolver o problema.»

 

A inteligência artificial é o que está a permitir que, em algumas funções, se possa prescindir do elemento humano. Mas Arlindo Oliveira ressalva que é só uma das tecnologias que estão subjacentes à digitalização da economia. Assim, tudo o que tem a haver com digitalização vai continuar a ter muita procura. Exemplifica: «Informáticos, programadores, mas também analistas de sistema, designers, web designers, um conjunto de profissões que vão continuar a ser importantes porque as empresa vão continuar a precisar de serviços para o digital. E a pandemia veio acelerar esta situação. Tudo o que está relacionado com economia digital vai continuar a ter muita procura. Desde que tenhamos as competências correctas, a digitalização não é em si uma ameaça à economia e ao emprego. As pessoas têm é de saber fazer as coisas que são precisas numa sociedade que está cada vez mais digital», alerta.

Para o especialista esta preparação – ou falta dela – depende um pouco da idade. «À medida que entramos nas faixas etárias mais avançadas, essa capacidade é menor. Entre os jovens vejo essa capacidade muito presente, importando aqui referir que o nosso sistema de ensino no geral é bom. Estamos bem posicionados para enfrentar o futuro digital, mas é preciso reforçar a educação nessa área, não só no ensino superior, mas no ensino secundário e básico.»

 

Fazendo notar que existem ciclos, com profissões que vão perdendo a sua valoriação em detrimento de outras, a responsável da Randstad acrescenta: «Nesta pandemia assistimos a profissões que não eram valorizadas pela sociedade serem agora reconhecidas como fundamentais. Mas sem dúvida que sentimos um défice em tudo o que sejam profissionais na área das Tecnologias de Informação, e resolver esta situação passa muito pela formação.» Acrescenta ainda que «já não há funções para toda a vida, e as pessoas têm de ter a capacidade de, ao longo do percurso profissional, ir aprendendo novas competências, numa lógica de aprendizagem continua».

 

O mercado de emprego

Há vários anos que Portugal assite à chamada “fuga de cérebros” para estrangeiro, sendo os profissionais que saem do Técnico um exemplo disso mesmo. «Isto gera alguns problemas em áreas onde já existe uma lacuna grande, mas a verdade é que os salários em Portugal são muito mais baixos do que, por exemplo, na Alemanha ou na Escandinávia», salienta Arlindo Oliveira. «Aqui, a única coisa que podemos realmente fazer é continuar a lutar por tornar a economia competitiva, de maneira a que ela gere mais valor e consiga pagar mais aos novos graduados, pois muitos só vão para fora devido precisamante aos baixos salários que se praticam no nosso País. Esta situação pode até ter abandado com a pandemia, mas a competição pelos nossos graduados vai certamente continuar.»

Já Marlene Fernandes destaca que a nossa produtividade não é comparável à de alguns países europeus, daí a dificuldade em pagar salários mais altos. «Não é que as pessoas não merecem, o ponto aqui é que muitas vezes não há capacidade para tal. O digital veio ajudar, pois estamos todos a ficar mais eficientes com a ajuda da tecnologia, mas temos ainda um caminho a percorrer relativamente aos salários.»

Como habitualmente, a conversa foi moderada por Ana Leonor Martins, directora de Redacção da Human Resources.

(re) Veja aqui, na íntegra:

Texto: Sanda M. Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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