Carla Marques, Intelcia: Fim do “super líder”, início do líder facilitador

No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.

 

Por Carla Marques, CEO da Intelcia Portugal

Onde estamos e para onde queremos ir

Vivemos numa era de transição profunda, marcada por duas grandes forças: por um lado, a transformação digital e, por outro, a emergência da inteligência artificial (IA). Implicam uma mudança não apenas tecnológica, mas também cultural, estrutural e estratégica. A liderança afasta-se cada vez mais da sua parte reactiva e operacional, para se tornar mais visionária, adaptativa e orientada por dados.

Importa compreender como a tecnologia pode acelerar o negócio, mas também como pode amplificar o valor humano. Somos desafiados a repensar o que deve ser automatizado e o que deve continuar profundamente humano, como equilibrar eficiência com empatia e como manter a confiança num mundo cada vez mais guiado por algoritmos.

A liderança que queremos construir para os próximos 15 anos é, seguramente, aquela que alia tecnologia e propósito, dados e intuição, performance e empatia. Mais conectada com o exterior, ágil, informada e digital, mas igualmente consciente do seu impacto interno, centrada nas pessoas, nos valores e na inclusão.

Queremos líderes que compreendam a transformação digital não apenas como uma actualização de ferramentas, mas como uma verdadeira transformação cultural e estratégica. E que saibam usar a inteligência artificial como um catalisador de valor humano.

Na Intelcia, este caminho já começou. Com programas como o Grow’IN e Care’IN, que promovem o desenvolvimento intergeracional da liderança, com a adopção de soluções tecnológicas em co-criação com as equipas, e com iniciativas de bem-estar emocional que valorizam a saúde e o equilíbrio dos nossos colaboradores, estamos a transformar esta visão em acção.

A disrupção que está a obrigar à mudança

A disrupção não é apenas tecnológica, é também profundamente social, geracional e cultural. Uma das maiores forças de mudança são as novas expectativas das gerações mais jovens, que exigem autenticidade, diversidade, flexibilidade e um verdadeiro sentido de propósito. Hoje, convivem nas organizações cinco gerações com visões, ritmos e necessidades muito distintas. Esta pluralidade é uma riqueza, mas também um enorme desafio de liderança.

O idadismo, ainda presente em muitos contextos organizacionais, precisa de ser combatido com urgência. Liderar no futuro (e no presente) exige valorização intergeracional, saber ouvir, incluir e aproveitar o melhor de cada geração, seja a sabedoria dos mais experientes ou a ousadia dos mais jovens.

A emergência da inteligência artificial, a automação e a hiperconectividade são outras disrupções claras que estão a transformar a forma como trabalhamos e tomamos decisões. É o fim do “superlíder” e o início do líder facilitador, capaz de construir pontes entre gerações, talentos e tecnologias.

Esta abordagem está alinhada com as práticas globais mais avançadas em liderança, que reconhecem a necessidade de modelos mais flexíveis, inclusivos e colaborativos.

Competências críticas e temas prioritários dos “líderes do futuro”

Os líderes do futuro (que, na verdade, são de agora) precisam de uma combinação de competências humanas e tecnológicas. Precisam de gerir com agilidade, decidir com base em dados, mas também com a sensibilidade para interpretar emoções, promover inclusão e criar confiança, num mundo cada vez mais digital.

A curiosidade tecnológica, a literacia em IA e a capacidade de navegar em ambientes ambíguos são competências essenciais. Contudo, nenhuma tecnologia substituirá a importância da empatia, da escuta activa e da capacidade de inspirar e unir equipas diversas.

Na sua agenda, os líderes devem colocar em primeiro plano temas como a sustentabilidade, a diversidade geracional e cultural, o equilíbrio emocional das suas equipas e a integração responsável da tecnologia. Serão verdadeiros “tradutores” entre o mundo digital e o humano, garantindo que a inovação aproxima e não afasta as pessoas. Por isso, investimos de forma contínua na capacitação das nossas lideranças, com programas de upskilling, mentoring e aprendizagem ao longo da vida.

Mais do que nunca, o desenvolvimento de relações baseadas na confiança, na transparência e no propósito será um factor crítico de sucesso. Num contexto onde algoritmos tomam decisões com rapidez, é o carácter e a ética do líder que asseguram integridade e sentido à organização.

O perfil de líder ideal em 2030

O líder ideal em 2030 será um facilitador humano num mundo tecnológico. Terá a capacidade de liderar com propósito, num ambiente onde a inteligência artificial já não é uma tendência, mas uma realidade do dia-a-dia. Compreenderá profundamente o impacto das tecnologias no negócio e terá a capacidade de formar e liderar equipas especializadas que garantam a integração eficiente das ferramentas digitais, mantendo ele próprio uma visão estratégica clara.

Este líder será adaptável, ético, transparente e colaborativo. Terá a capacidade de tomar decisões rápidas, mas sempre com uma visão de longo prazo. Estará habituado a trabalhar com algoritmos, mas saberá que os dados nunca substituem a escuta activa e o contacto humano. Largando o perfil de alguém que sabe tudo, para ser quem aprende continuamente, constrói em conjunto e gere a mudança com empatia e clareza.

Principais desafios a ultrapassar

O maior desafio talvez seja este: a tecnologia evolui muito mais rapidamente do que nós, enquanto líderes e organizações, conseguimos adaptar-nos. A dissonância entre o ritmo acelerado da inovação e a nossa capacidade de transformação cultural, estrutural e emocional pode tornar-se um bloqueio sério.

Estamos a lidar com uma curva de mudança exponencial que representa um risco real. Podemos ficar tecnologicamente avançados, mas humanamente desactualizados. Além disso, existe a resistência natural à mudança, o receio de perder o controlo e a dificuldade em aceitar a vulnerabilidade como parte essencial do processo de liderança. Liderar com humildade, reconhecer que não se tem todas as respostas e saber pedir ajuda permanece, paradoxalmente, um dos maiores desafios.

Por fim, há um ponto fundamental: cuidar de quem lidera. Num mundo hiperconectado, sob pressão constante para inovar e decidir rapidamente, a saúde mental e o equilíbrio emocional dos líderes tornam-se cruciais. Não podemos construir lideranças de futuro se não cuidarmos do presente de quem lidera. Quem cuida do líder? Essa é uma questão fundamental que não pode ser ignorada. O cuidado com os líderes deve ser uma responsabilidade partilhada entre as próprias organizações, equipas e redes de apoio. Programas de desenvolvimento contínuo, espaços para partilha, mentoria, e uma cultura que valorize o equilíbrio entre vida pessoal e profissional são essenciais.

Líderes resilientes e apoiados são a base para organizações saudáveis e preparadas para o futuro. Liderar com futuro é liderar com coragem e convicção. Os próximos 15 anos começam hoje, e queremos estar entre os que inspiram, transformam e cuidam.

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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