
Carlos Rabadão, Instituto Politécnico de Leiria: Criatividade, inovação e talento
Como preparar líderes para os desafios da próxima década.
Por Carlos Rabadão, presidente do Instituto Politécnico de Leiria
Na próxima década será marcada por uma transformação profunda, impulsionada pela inteligência artificial (IA) e pela digitalização em larga escala. O conhecimento renova-se hoje a um ritmo vertiginoso, e as competências técnicas, por si só, já não bastam para garantir relevância profissional ou sucesso organizacional. O futuro exigirá líderes capazes de pensar de forma criativa, agir com visão e mobilizar o talento humano para enfrentar desafios complexos e imprevisíveis. A criatividade, a inovação e o talento constituem, assim, os pilares de uma nova liderança – mais humana, colaborativa e orientada para o impacto social.
A criatividade permite imaginar o que ainda não existe, a inovação transforma essa imaginação em valor concreto e o talento garante a energia e a competência necessárias para concretizar ideias e gerar mudança. Estes três elementos são inseparáveis e formarão a base da preparação dos profissionais e dos líderes que moldarão o mundo nos próximos anos.
Neste processo, o ensino superior assume um papel central. As instituições de ensino são muito mais do que espaços de transmissão de conhecimento: são centros fulcrais de pensamento crítico, de experimentação e de descoberta. É nelas que se deve promover a curiosidade intelectual, o espírito empreendedor e a capacidade de trabalhar de forma colaborativa. Formar profissionais criativos e inovadores significa proporcionar-lhes experiências de aprendizagem que combinem teoria e prática, ciência e imaginação, tecnologia e ética.
A inteligência artificial vem reforçar esta necessidade. Num cenário em que as máquinas aprendem e executam tarefas complexas com precisão crescente – e até se aventuram a criar textos, imagens e ideias “criativas”, com resultados por vezes surpreendentes –, o valor humano reside naquilo que é insubstituível: a empatia, a intuição e a capacidade de dar sentido à tecnologia.
Os líderes da próxima década terão de ser mediadores entre o mundo digital e o humano, capazes de usar a IA como ferramenta de progresso, sem perder de vista os princípios éticos e sociais que devem orientar a inovação.
Contudo, preparar líderes para este futuro não é responsabilidade exclusiva das instituições de ensino. As empresas têm igualmente um papel determinante, não apenas enquanto empregadoras, mas como agentes de inovação e de captação de talento. O diálogo entre academia e tecido empresarial deve ser contínuo, estratégico e orientado para resultados partilhados. É dessa articulação que nascem ecossistemas de inovação mais fortes, capazes de antecipar tendências, desenvolver soluções e criar oportunidades.
Projectos de cocriação, programas de incubação, investigação aplicada e estágios orientados para desafios reais – desde a saúde digital às cidades inteligentes – são exemplos concretos de como academia e empresas podem, juntas, preparar profissionais mais aptos a liderar a mudança. Esta cooperação é também essencial para garantir que a formação acompanha a evolução do mercado de trabalho e das tecnologias emergentes.
Num tempo em que o futuro se constrói em rede, torna-se igualmente relevante que estas duas esferas – o ensino superior e o sector empresarial – se encontrem, debatam e planeiem em conjunto. É neste tipo de encontros que se gera o pensamento que fará avançar as organizações e a sociedade.
Porque preparar líderes para o futuro não é apenas uma questão de ensinar competências, mas de criar pontes entre conhecimento e acção, entre tecnologia e humanidade, entre o que somos e o que ainda podemos ser.
Este artigo foi publicado na edição de Novembro (nº. 179) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.