
Casamos? Ou é um flirt com a angústia de liderar?
Na liderança, a angústia estará sempre à espera para cumprir o seu papel: desgastar, consumir energia, colocar dúvidas… Liderar está longe de ser um processo confortável. Mas talvez seja essa condição que nos faz crescer.
Por Rui Lança, director desportivo no Ittihad Club (da Arábia Saudita) e docente universitário
Lê-se muito sobre liderar, ser líder, fórmulas mágicas (lê-se menos sobre o que é ser liderado, estranhamente). Mas quem lidera pessoas e projectos de forma contínua sabe que liderar consome-nos tempo e energia. É um pacote a full-time. Por vezes, tira-nos o foco, sofremos por antecipação e, numa cultura de trabalho errática, o reconhecimento aparece muito mais quando algo corre mal do que quando corre bem.
Consoante o perfil de quem lidera, o grupo que lideramos, o contexto e os resultados que ambicionamos, há também várias formas de estar nesta relação com a liderança. Não me interessa discutir quais são as (in)correctas. Tal como há quem trabalhe pouco mas com grande qualidade, e quem trabalhe muito mas sem grande impacto, também na liderança há quem se entregue totalmente e não gere fluidez, quem sofra internamente – mesmo quando tudo corre bem – e quem pareça conviver bem com o menor controlo, deixando-nos na dúvida se se trata de distracção ou de uma falta de compromisso.
Confesso que a experiência em contextos exigentes e em países diferentes me ajudou a conviver melhor com a angústia. Mas também confesso que, pelo meu perfil, ela continua presente na minha relação com a liderança, e não só porque trabalho num ambiente onde cada derrota é um tiro no porta-aviões e onde vivemos numa constante montanha-russa de bestial a besta. Acredito que todos temos formas diferentes de nos entregarmos ao acto de liderar: seja liderar pessoas, números, ou ambos.
A fase seguinte é sabermos como viver e lidar com esse sentimento. E creio que aí existem estratégias muito interessantes. Uma delas é saber distinguir entre o que controlamos e o que não controlamos, e focarmo-nos no que depende de nós. E aceitar isso como natural. Celebrar o que corre bem e não apenas viver do que corre mal. E rodearmo-nos de pessoas que acrescentem valor, sejam assertivas, possam apoiar e instruir, mesmo que liderar possa ser um processo muito solitário.
No final do dia, a angústia, especialmente para quem tem essa característica na sua génese, estará sempre à nossa espera para cumprir o seu papel: desgastar, consumir energia, colocar dúvidas e fazer-nos pensar que o copo nunca está totalmente cheio de coisas boas. Liderar está longe de ser um processo confortável. Mas talvez seja essa condição que nos faz crescer. Não é um caminho sem pedras, mas convém saber, de forma clara, que liderar pressupõe interessarmo-nos genuinamente pelas pessoas, mais do que querermos ser interessantes para elas.
Como costumo dizer: dia-a-dia, um dia não são dias, mas muitos dias acabam por ser uma vida inteira. Por isso, é fulcral pensarmos primeiro com clareza no que pretendemos e no que estamos dispostos a abdicar.
Este artigo foi publicado na edição de Junho (nº. 174) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.