
Case Study Zühlke: Mais um passo para mudar a percepção do mundo
Como seria trabalhar com visão limitada, perda auditiva ou mobilidade reduzida? A Zühlke desafiou profissionais e a comunidade a viver essa experiência, para mudar mentalidades, redefinir práticas e mostrar que a inclusão no trabalho tem de ser uma prioridade.
Por Tânia Reis
A tecnológica Zühlke assinalou o Dia Internacional das Pessoas com Deficiência – que se comemora a 3 de Dezembro – com o evento “Designing for all: accessibility in practice, with Zühlke AID- -x Lab”, em parceria com a Associação Salvador. Além de uma apresentação sobre tecnologia assistiva, o evento teve uma sessão experimental com equipamentos de assistência, onde cada participante pôde sentir, na primeira pessoa, como é executar tarefas como as pessoas com deficiência o fazem. O objectivo? Consciencializar para a importância de desenvolver e implementar soluções tecnológicas que vão ao encontro das necessidades das pessoas com deficiência, contribuindo para um mundo do trabalho mais justo e inclusivo.
Mariana Figueiredo Salvaterra, CEO da Zühlke em Portugal, fez notar que «a parceria com a Associação Salvador não é “de agora”, nem o tema da acessibilidade é um investimento do momento». A associação já havia apoiado a empresa na revisão do plano do novo escritório, no Porto, e a «identificar, ainda em planta, oportunidades de melhoria», de forma a garantir acessibilidade a todas as pessoas, fosse a nível de circulação ou de uso dos espaços.
Consciente de que as pessoas com deficiência enfrentam muitas dificuldades no mundo do trabalho, por não disporem, ainda, dos recursos necessários para poderem trabalhar, «fez todo o sentido voltar ao contacto com a Associação», perita no tema, para, «numa sessão aberta à comunidade, partilhar conhecimento e experiência para as pessoas ficarem mais conscientes» de como é viver com deficiência, conta a responsável.
E a palavra-chave aqui é mesmo consciencializar, «pela voz e mãos de quem experiencia o mundo com deficiências e dificuldades», reforça Mariana Figueiredo Salvaterra. «Acreditamos que o primeiro passo para um mundo do trabalho mais justo e inclusivo é estar consciente e procurar remover obstáculos para que as pessoas possam dar o seu melhor no dia-a-dia, independentemente das suas características.»
Experienciar a realidade
Foi num workshop com a Google, onde foram utilizados equipamentos criados pela Cambridge University – o AID-X Lab, que surgiu a ideia de proporcionar uma experiência imersiva. «Nesse momento, achámos interessante adquirir estes kits à universidade e, desta forma, mostrar às nossas equipas como usar para aumentar a consciencialização acerca das dificuldades destas pessoas», recorda a CEO.
Uma vez que o feedback e as reacções das equipas foram muito positivas, a Zühlke decidiu abrir a experiência à comunidade, «proporcionando uma oportunidade acrescida para aprenderem mais sobre acessibilidade». Contaram com cerca de 20 pessoas, com audiência mista entre colaboradores e pessoas externas, incluindo pessoas com deficiências visíveis e não visíveis.
O evento concretizou cinco simulações. «A primeira constava de uma sala de visão, com vários óculos a simular diferentes condições visuais. Houve também uma sala de audição, com headphones que simulavam as diferentes perdas e condições de audição.» A terceira sala, de mobilidade, permitia simular as dificuldades de quem tem artrite nas mãos, através de umas luvas que, mesmo sem a dor experienciada, permitiam sentir o que é trabalhar com esta condição. Depois, criaram uma sala de neurodiversidade, destinada a compreender como trabalham as pessoas com condições como dislexia, discalculia, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperactividade (TDAH), entre outros. A última simulação foi uma experiência imersiva com óculos de realidade virtual, em que os «participantes conseguiam ver e experienciar de forma mais pessoal o que é viver com uma determinada condição».
A reacção dos participantes ao experimentarem, na primeira pessoa, as dificuldades que pessoas com deficiência enfrentam foi «um misto de choque e surpresa», descreve a responsável, pois «as pessoas apercebem-se de certas dificuldades, especialmente em termos do uso da tecnologia».
Mariana Figueiredo Salvaterra considera a experiência «inesperada e enriquecedora », ampliando horizontes e mudando a percepção de mundo de quem participa. «Permite compreender de forma mais profunda como o mundo é visto e sentido por pessoas com diferentes níveis de habilidade e ficar consciente das dificuldades das pessoas, num mundo ainda pouco adaptado, é essencial. » A seu ver, através desta experiência, há uma empatia e compreensão que ganham uma nova dimensão.
No final da iniciativa, houve, inclusive, um grupo de estudantes interessados em realizar uma sessão com o resto da turma, «o que demonstra como este é um tema importante de ser continuamente abordado e experienciado», acrescenta.
Da necessidade à inovação
Até ao final do século XX, a tecnologia assistiva – conjunto de ferramentas, dispositivos e recursos criados para auxiliar indivíduos com necessidades específicas a interagir com o mundo e desempenhar actividades com maior autonomia – «estava mais restrita a dispositivos físicos e pouco desenvolvidos tecnologicamente ». Porém, a rápida evolução tecnológica permitiu que esta tecnologia «desse um grande salto evolutivo, e, com a chegada da inteligência artificial, vivemos uma nova fase de desenvolvimento nestes auxiliares».
Os recursos podem ser de baixa ou alta tecnologia e abrangem desde suportes para afixar monitores, rampas, legendas, bengalas, próteses, óculos, aparelhos auditivos, cadeiras de rodas e lupas, até soluções mais tecnológicas, como leitores de ecrã, modos de alto contraste ou tema escuro, assistentes de voz e correctores ortográficos. Caio Soares, Expert Business Analyst & People lead da Zühlke, profissional com deficiência visual, «demonstrou no evento como se usam tecnologias assistivas e a importância destas para um mundo do trabalho mais justo e inclusivo», dá nota.
Leia o artigo na íntegra na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.