Catástrofes e Gestão de RH: que desafios?

Por António Saraiva, Business Development manager_ISQ Academy

 

As organizações, em geral, enfrentam hoje um cenário onde crises — naturais, tecnológicas, sanitárias, económicas ou geopolíticas — deixaram de ser apenas eventos extraordinários. Para a Gestão de Recursos Humanos, tal significa operar num ambiente onde a adaptação rápida, a segurança das Pessoas e a continuidade organizacional se entrelaçam.

Catátrofes, como a que vivemos no País, expõe de forma assintosa a vulnerabilidade das organizações: ao nível das pessoas, das competências, dos modelos de trabalho, da liderança e da própria cultura organizacional. E coloca à Gestão de Pessoas uma pergunta central: estamos preparados para continuar a funcionar quando tudo deixa de funcionar?

Mesmo eventos que se prevêem de cura duração, têm efeitos duradouros. O choque emocional e a insegurança ficam bem presentes, com o medo, a ansiedade e a perda de controlo a aparecerem regularmente. Outro efeito é a disrupção das rotinas de trabalho e dos sistemas de apoio. Mas, também, a exaustão, o burnout e a fadiga mental (e moral) em equipas críticas, aquelas sobre quem recai a responsabilidade de dar resposta de segurança de pessoas e bens, por exemplo. Logicamente que o aumento da imprevisibilidade na produtividade e na presença das pessoas, em particular de quem foi mais afectado, é um efeito significativo.

O impacto não é apenas operacional: é humano, comportamental e cultural. E é aqui que a Gestão de Pessoas tem um papel único, irrepetível. Quais são, pois, os grandes desafios em contexto de catástrofe? A maioria das organizações ainda trabalha em modo reactivo. Mas a Gestão de Recursos Humanos necessita de se debruçar sobre a arquitectura da preparação no combate às dificuldades, a guardiã da gestão de risco humano e, acima de tudo, a promotora da resiliência organizacional. O desafio está, sem dúvida, em passar de uma resposta improvisada para planos estruturados que incluam (envolvam) pessoas, competências e comunicação.

Mas há que não descurar, acima de tudo, a segurança do trabalhador em catástrofes em três níveis: físico, considerando a protecção, a evacuação, se necessária, e os equipamentos. O nível psicológico, em termos de controlo da ansiedade e de factores traumáticos e a garantia de estabilidade emocional. Finalmente, o nível social, com respostas de suporte, a coesão e o sentimento de pertença. No fundo, estruturar protocolos que protejam os colaboradores como pessoa integral (contextos familiar e de sociedade onde se movimentam são fulcrais).

Mas a comunicação é o sistema nervoso central da resposta. O que falhar aqui, falha em todo o sistema. Daí que os desafios passem por fluxo rápido de comunicação, clareza e verificação da informação, de forma a se evitarem rumores e pânico. E como não podia deixar de ser… líderes capazes de comunicar sob pressão e canais adaptados para quando a tecnologia falha. E já que falamos de Liderança, há duas coisas, pelo menos, que as catástrofes revelam: o tipo de líderes que uma organização realmente tem e o tipo de líderes de que realmente precisa.

No fundo, são necessárias decisões rápidas com informação incompleta, empatia sem perder autoridade, capacidade de priorizar vidas, não apenas processos e manter equipas funcionais num ambiente que, por si só, é emocionalmente instável.

Catástrofes não são apenas eventos a evitar, até porque normalmente não as controlamos — são testes à maturidade da liderança, aos valores da organização e ao tecido da composição das equipas. Uma catástrofe é como espelho organizacional.  As crises revelam o que as organizações realmente são — não o que os seus manuais dizem que são. Para a Gestão de Pessoas, o desafio é monumental. Trata-se de proteger pessoas, manter a cultura organizacional, garantir a continuidade do negócio e reconstruir a confiança. E a pergunta não é se haverá outra catástrofe, mas que tipo de organização estaremos quando ela voltar a chegar. E a resposta será sempre humana — e a Gestão de Pessoas é a guardiã dessa resposta!

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