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Como será a cultura do trabalho pós COVID-19?
A cultura do trabalho mudou e as estruturas humanas das organizações exigem hoje outras estratégias e métodos na sua eficaz gestão. Mas qual é a força motriz desta transformação e complexidade crescente?
Por Filipe Ferreira, co-fundador e sócio da Sfori
O enquadramento em que qualquer profissional desenvolve hoje o seu trabalho, é o culminar de uma mudança rápida e vertiginosa, que os agentes da maioria dos sectores produtivos não conseguiram ainda acomodar.
Todos os dias nos cruzamos com notícias, estudos e até mesmo desabafos de empresários e chefias, que nos dão conta disso mesmo e acentuam a complexidade do tema e dos desafios que daí emergem.
Agora mesmo, a COVID-19 está a introduzir na vida pessoal e profissional de todos nós alterações forçadas que deixarão as suas sementes. Veja-se o exemplo do trabalho à distância e a desmaterialização de processos e estruturas, com a inerente adopção de tecnologias e toda a formação de novas competências a que em menos de uma semana nos vimos obrigados.
Por mais sucintos que queiramos ser ao sumarizar o assunto, fica claro que este não é um tema simples, circunscrito ou que tolere uma fácil resposta. Ainda assim, procurámos sumarizar nos próximos tópicos as principais forças de pressão que têm vindo a “remodelar” a cultura do trabalho na nossa sociedade, gerando dificuldades e oportunidades como em qualquer outro processo de mudança:
- Os colaboradores procuram hoje um senso de propósito e privilegiam uma conexão clara com a missão da empresa;
- Exige-se hoje que todo o colaborador seja criativo, pense criticamente e colabore positivamente com outros, assinalando-se um definitivo afastamento das tarefas rotineiras e decisões essencialmente hierarquizadas;
- Pela primeira vez na história da humanidade, existem cinco gerações na força de trabalho, com a geração dos millenials a ocupar já cerca de 50% da força de trabalho;
- A força de trabalho tornou-se cada vez mais diversificada e móvel, com indivíduos a trabalhar em vários locais e a partir de vários dispositivos, ao longo de todo o dia de trabalho;
- Os colaboradores esperam que os seus dispositivos corporativos funcionem tão perfeita e intuitivamente como os que são disponibilizados aos clientes. Estes dispositivos enquadram um tremendo poder. Hoje, o smartphone médio é milhões de vezes mais poderoso do que todo o poder computacional combinado da NASA, em 1969;
- O trabalho em equipa é fundamental. As organizações funcionam cada vez mais em rede, ajudando a gerir o aumento do fluxo de informação, a criar insights mais ajustados e a encontrar soluções para desafios cada vez mais complexos;
- As pessoas têm “outros mundos”, viveram outras experiências e possuem novas expectativas sobre como e porquê trabalham. São verdadeiras multidões esclarecidas, numa continua procura de espaços de trabalho (físicas e digitais) que sejam abertos e inclusivos, onde possam compartilhar, conectar e trabalhar em conjunto com outros;
- As equipas e dados estão mais distribuídos globalmente do que nunca. O tráfego de dados transfronteiriço tem vindo a aumentar desde 2005, em múltiplos de 45;
- Com os recursos certos, as pessoas podem descobrir e conectar-se com o melhor know-how disponível, sem quaisquer barreiras ou limites geográficos ou físicos;
- Quase 50% dos empregadores sofre hoje de perdas de produtividade motivadas pela existência de vagas por preencher. As lacunas de competências geraram e continuarão a gerar novas formas de recrutamento, desenvolvimento e trabalho;
- As redes sociais e conectividade omnipresente promove maior transparência, ajudando as pessoas e empresas a serem mais ágeis, respondendo mais rápido do que nunca às informações e necessidades de novos targets/mercados;
- As organizações estão hoje focadas em manter uma envolvente segura e protegida de ameaças cibernéticas.
Não sendo uma tarefa fácil, cada gestor (e não só os de topo) devem começar desde já a procurar resposta para questões como: Qual é a organização que vou ter quando a crise passar? Qual será a cultura de trabalho que vigorará? Que impactos e oportunidades se configuram no horizonte? Estará a minha organização, pelo menos, activamente consciente para se reinventar no sentido de dar as respostas que a força de trabalho exige, através de uma cultura de trabalho ajustada, aglutinadora e profícua?
A rapidez que caracteriza os tempos actuais encarregar-se-á de rapidamente tornar obsoletas estas forças e questões, fazendo emergir outras, com os desafios que lhe são inerentes. E nós, enquanto sociedade, cá estaremos para lhes dar resposta, porque o Ser Humano é isso mesmo, ser resiliente, adaptar-se e continuar a inovar e evoluir.