Desigualdade de género: o fosso invisível que molda o nosso mercado de trabalho

Por Lurdes Guerra, Climate Change & Sustainability Senior consultant do FI Group

 

Em pleno século XXI, a desigualdade de género é um dos maiores desafios dos direitos humanos que o mundo enfrenta, sendo que, o género continua a ser um factor determinante no valor atribuído ao trabalho, com consequências económicas e sociais para toda a sociedade. Em Portugal, apesar dos avanços, o desequilíbrio estrutural é difícil de ignorar.

Em Portugal, 49,5% da população activa são mulheres e, quando olhamos especificamente para os seus níveis de qualificação (com ensino superior), o número sobe e as mulheres representam 59% deste universo. Seria legítimo esperar uma distribuição equitativa de oportunidades. Certo?

Os dados mais recentes sugerem o contrário: apenas 30% dos cargos de gestão e 27% dos cargos de liderança são ocupados por mulheres. Nas grandes empresas, a presença feminina nos lugares de decisão é ainda mais escassa — apenas 11% dos cargos de topo. Este desequilíbrio, traduz-se directamente na remuneração. A diferença salarial base entre homens e mulheres situava-se, em 2023, nos 12,5%, representando um fosso ainda mais profundo quando analisamos os rendimentos globais (menos de 161,30€ de remuneração mensal, face aos homens).

Estudos internacionais demonstram que empresas com políticas sólidas de equidade salarial e inclusão de género apresentam melhor desempenho financeiro, maior inovação e níveis superiores de retenção de talento. A par, equipas com diversidade de género destacam-se na resolução de problemas e na tomada de decisões, o que resulta numa organização mais ágil e rentável, amplificando a narrativa de que a inclusão não é apenas um imperativo moral; é uma vantagem estratégica.

Em Portugal, a resposta tem sido feita também pelo robustecimento do quadro legal. A Lei n.º 62/2017 exige transparência remuneratória e obriga empresas a apresentarem planos correctivos sempre que se identifiquem disparidades significativas. Em 2023, mais de 1500 empresas foram chamadas a justificar desequilíbrios salariais. Mas a eficácia da lei esbarra frequentemente numa implementação meramente formal — e pouco transformadora.

Por isso, o caminho para a equidade exige uma actuação mais profunda em algumas áreas cruciais. Promover uma liderança corporativa, ou seja, a importância do “walk the talk”, tendo a capacidade de influenciar políticas e práticas e, em última análise, impulsionar a inovação, melhorar o envolvimento das partes interessadas e moldar o sucesso da organização ao promover a diversidade e a inclusão. É essencial ser transparente nos critérios de progressão, estabelecendo-os de forma clara para a progressão de carreira, reduzem a margem para a discriminação e o enviesamento de género.

É também importante promover de forma activa uma liderança feminina, através de capacitação programas de mentoria, programas de aceleração e metas concretas, medidas eficazes para equilibrar o acesso ao poder. Para além disso, deve existir uma cultura organizacional centrada na equidade, fazendo a igualdade parte da identidade da empresa, não apenas dos seus relatórios, mas através de um conjunto de valores, crenças e comportamentos que moldam a forma como os colaboradores interagem e realizam o seu trabalho. Isto apenas é possível, com o acompanhamento periódico do tema, com a definição de metas e objectivos, permitindo identificar causas estruturais da disparidade e corrigi-las, melhorando continuamente o desempenho organizacional nestas matérias.

Por último, importa reforçar a necessidade de olhar para a desigualdade salarial não apenas como um detalhe, uma estatística ou uma factualidade cultural. É, sem sombra de dúvidas, uma manifestação concreta da desigualdade de poder no ambiente corporativo. E não se trata apenas de justiça social. A desigualdade salarial entre géneros é, em última análise, uma questão de direitos humanos. Mas é também uma oportunidade estratégica para construir ambientes de trabalho mais justos, inovadores e produtivos, onde o salário é igual para trabalho igual ou de igual valor. O futuro da competitividade passa, inevitavelmente, por aqui.

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