
Do lucro ao legado: como a liderança regenerativa começa a moldar o futuro
Por Emília Alves, Business strategist, Executive, Team and Business coach
Nos últimos meses, tenho sentido que, quiçá devido à influência dos media, as lideranças começam por dar uma maior atenção a temas como as alterações climáticas, a responsabilidade social, a saúde e o bem-estar. Este movimento de transformação nas prioridades das lideranças está a ganhar força à medida que mais e mais líderes se conscientizam de que o futuro das organizações não pode ser dissociado das questões ambientais e sociais que afectam as suas comunidades e o planeta como um todo.
A liderança regenerativa surge precisamente neste contexto, como uma resposta ao esgotamento dos modelos tradicionais de liderança, que têm se concentrado principalmente no lucro e no sucesso de curto prazo. Em vez de simplesmente sustentar o que já foi alcançado, a liderança regenerativa visa criar valor que se reinventa continuamente, ajudando as organizações a crescer e a evoluir de forma sustentável, tanto para as pessoas quanto para o meio ambiente.
Mas o que exactamente caracteriza a liderança regenerativa? Em essência, trata-se de uma abordagem que vai além da sustentabilidade; ela busca regenerar, nutrir e fazer crescer as partes do sistema que envolvem não apenas a organização em si, mas também a sociedade e o ambiente. O conceito de regeneração, aqui, é entendido como o processo de renovação constante, onde cada acção da liderança visa criar um impacto positivo duradouro, em vez de apenas manter ou explorar os recursos de forma linear e desgastante.
Um exemplo prático de liderança regenerativa é a ideia de stewardship, ou gestão responsável. Isto implica que os líderes vejam o seu papel como guardiões dos recursos, não como proprietários. Ao assumir essa responsabilidade, os líderes não estão apenas a buscar o sucesso imediato, mas a criar uma base sólida para o futuro, onde a sustentabilidade e o bem-estar das pessoas se tornam tão importantes quanto os resultados financeiros. É um foco mais holístico, que reconhece que as empresas não existem isoladas, mas sim em conexão com as comunidades que servem e com o ambiente que utilizam.
Outro pilar importante da liderança regenerativa é o pensamento sistémico. Esta abordagem convida os líderes a olhar para as suas decisões e acções dentro de um contexto mais amplo, considerando o impacto a longo prazo e as consequências para todos os envolvidos. Isso exige uma mudança de mentalidade, onde o líder deixa de tomar decisões isoladas e passa a ponderar as repercussões dessas escolhas nas várias partes do sistema, incluindo colaboradores, clientes, fornecedores e até mesmo a comunidade em geral.
A resiliência e adaptabilidade também são qualidades-chave na liderança regenerativa. Vivemos numa era de mudanças rápidas e incertezas, onde o mundo e os mercados estão em constante transformação. Líderes regenerativos são aqueles que são capazes de criar organizações que não apenas resistem às mudanças, mas que as utilizam como oportunidades para se fortalecer e crescer. Ao invés de se agarrar a modelos fixos e estáticos, eles abraçam a flexibilidade, incentivando uma cultura de inovação contínua, aprendizagem e evolução.
A liderança regenerativa não se trata de criar apenas organizações que sobreviverão ao longo do tempo, mas aquelas que contribuirão positivamente para o mundo ao seu redor, criando um legado de valor que transcende as métricas financeiras. Ela desafia os líderes a pensarem não apenas nas suas necessidades e objectivos imediatos, mas também naquilo que deixarão para as futuras gerações.
Num mundo cada vez mais focado no lucro rápido, a liderança regenerativa oferece uma abordagem que não só visa o sucesso duradouro, mas que também traz um impacto positivo e transformador para todos os envolvidos. Ela vai além da simples gestão de recursos e resultados; ela gera um ciclo de crescimento contínuo, onde a regeneração se torna um processo natural e constante, impulsionando tanto a organização quanto a sociedade para um futuro mais equilibrado e sustentável.
Este tipo de liderança exige coragem, visão e um compromisso profundo com o bem-estar colectivo, mas também oferece uma oportunidade única de construir algo verdadeiramente significativo, que tenha o poder de transformar positivamente o mundo.