
Donald vs. Kamala: percepções de liderança
Por Carlos Sezões, Managing partner da Darefy – Leadership & Change Builders
Não costumo efectuar assessments ou ensaios genéricos de liderança sobre líderes ou celebridades da actualidade. Sejam elas do mundo da economia, do desporto ou da política. A principal razão é a ausência de dados objectivos sobre os seus reais traços e comportamentos de liderança e o impacto efectivo que terão sobre as suas equipas – algo que só o tempo e a análise histórica farão com mais fiabilidade. Faço aqui uma excepção “especial” no caso dos dois protagonistas das hiper-mediatizadas eleições nos EUA. E não tratarei aqui de liderança “real” mas de percepções de liderança que, estou certo, moldaram boa parte dos critérios (conscientes e inconscientes) de escolha dos eleitores.
Sobre Donald Trump… uma figura que beneficia, desde logo, da sua imensa notoriedade global. A sua liderança evidencia um estilo de comunicação direto e sem filtros. Uma abordagem assertiva e combativa ressoou junto dos apoiantes que apreciam a sua linguagem contundente e populista. O estilo de Trump tende a concentrar-se em momentos de elevada intensidade emocional e energia, onde utiliza slogans simples (make America great again) para conectar-se com a sua base – que o vêem como uma ruptura refrescante com as convenções do politicamente correcto. O seu estilo de tomada de decisão é percepcionado como instintivo, e ele tem demonstrado uma preferência por confiar no seu próprio julgamento em detrimento dos conselhos de assessores ou especialistas. É conhecido por valorizar a lealdade e reorganizou frequentemente o seu círculo íntimo para garantir o alinhamento com os seus pontos de vista e objetivos. A sua abordagem enfatiza a acção rápida e a flexibilidade, que, segundo ele, promovem a inovação e a capacidade de resposta, mas podem resultar em mudanças abruptas e… no caos. Em suma, a sua marca pessoal é construída em torno de atributos como força e independência, características que cultivou muito antes da sua presidência. A sua experiência como empresário ajudou a enquadrar a sua imagem de sucesso e desafiador das normas – abordagem agrada que aos eleitores que desejam uma ruptura do status quo, embora o seu estilo polarizador seja potenciador de divisões.
Sobre Kamala Harris… uma liderança mais discreta (pouco visível como vice-presidente), com um estilo de comunicação mais comedido, fazendo uso da sua experiência como procuradora para articular questões complexas de forma estruturada. Utiliza exemplos pessoais e a empatia para interagir com o público, (especialmente em questões como a justiça racial e os direitos das mulheres). A abordagem de Harris pretende, aparentemente, construir consensos e pontes com os seus públicos. Parece adoptar uma abordagem mais inclusiva e colaborativa na tomada de decisões – a sua formação em Direito terá moldado a sua propensão para “dados” e factos e valorizar os contributos de outros. Conhecida pela sua natureza deliberativa, pondera frequentemente os impactos das decisões a longo prazo, especialmente na política social. Este estilo pode ser visto como cauteloso, o que alguns apoiantes consideram reconfortante para questões complexas (mas também pode ser percepcionado por falta de ousadia). A marca de Kamala é definida pelo seu papel histórico como a primeira mulher a servir como vice-presidente. Potencia uma visão progressista, apelando àqueles que priorizam a representação e a justiça social. O seu comportamento acessível repercute-se bem junto dos eleitores jovens e de algumas comunidades fora do mainstream.
Em suma, Donald Trump e Kamala Harris representam arquétipos de liderança distintos: o estilo assertivo e populista de Trump versus a abordagem colaborativa de Harris. As suas diferenças evidenciam dicotomias óbvias: empatia versus força, consenso versus independência/ individualismo e planeamento estruturado versus decisão instintiva. Como sabemos, o estilo e mensagem de Donald Trump ganhou no passado dia 5 de Novembro. Como também já percebemos, nem sempre este estilo será bem bem-sucedido. Depende sempre do contexto. E a história segue dentro de momentos.