É preciso quebrar estereótipos

Human Resources
13 de Setembro 2021 | 21:00

«O estereótipo vai fazer com que haja uma desigualdade de acesso e de concretização de oportunidades.»

 

Por Ana Lomba Correia, fundadora da associação Women2Women e orador no Rock in Rio Humanorama*.

 

Durante anos foi-me incutido e ensinado que estudar numa turma cuja maioria são meninas, que trabalhar numa equipa com mulheres ou outras situações onde a presença de mulheres seja envolvida em grupos, era uma autêntica dor de cabeça. Era uma dor de cabeça porque as mulheres e meninas, diziam-me a generalidade das pessoas, são muito cuscas, dramáticas, emocionais. Confesso que eu própria a dada altura interiorizava esta ideia e, consequentemente, integrava-a no expressar das minhas frustrações com a escola, por exemplo, visto que nas várias turmas em que estudei no decorrer do meu percurso académico eram compostas, na maioria, por meninas.

Continue a ler após a publicidade

É altamente provável que tu, leitor ou leitora que estás a ler este artigo, já te tenhas cruzado com este discurso pelo menos uma vez na tua vida, ou até já o tenhas dito em voz alta. E não te julgo por isso, é o que nos têm ensinado desde que nascemos.

Neste artigo, o meu objectivo é mostrar-te como este raciocínio está errado e como ele tem um impacto muito negativo na vida de todos, sejas tu um homem ou uma mulher. É, realmente, um problema de todos nós e perpetuado por todos nós.

Ora, para entender um problema, é necessário identificá-lo primeiro. Tratamos aqui da aplicação de um papel de género com efeitos extremamente discriminatórios em meninas e mulheres, mas também em rapazes e homens. Ao dizer que a presença maioritária de mulheres em grupos é uma dor de cabeça pelo que enunciamos em cima, presume-se de forma imediata que um grupo com uma maioritária presença de homens faz com que essa dor não exista, porque assume-se que este grupo já vai ser mais ponderado, eficiente, objetivo e assertivo. Isto porque, como nos ensinam, os homens são menos emocionais.

Continue a ler após a publicidade

Acredito que este problema está a minar o nosso potencial enquanto sociedade, por estarmos constantemente a desvalorizar o papel das mulheres nas nossas vidas, e por incentivarmos à masculinidade tóxica nos homens nas nossas vidas. É aqui que entra a importância da igualdade de género, que já vamos aprofundar melhor.

Que impacto tem este problema na nossa vida prática? Em primeiro lugar, gera divisão, desentendimento e falta de compreensão. Isto quer dizer que quando fechamos as mulheres e os homens em caixinhas diferentes – como se de espécies diferentes se tratasse – ao fazer esta divisão, criam-se ideias pré-concebidas e generalizadas sobre a caracterização de cada um dos grupos e expectativas baseadas nisto, o que gera um enorme desentendimento, pois face a ideias generalizadas há sempre alguém que diz: “Mas eu não sou assim”.

Quando não nos sentimos integrados em determinadas expectativas que a sociedade em geral deposita em nós, começam a surgir alguns problemas. Peço-te que penses na última vez que te sentiste desintegrado, incompreendido. Pensa na última vez que, face a um estereótipo, respondeste que, apesar de pertenceres ao grupo a que o estereótipo é direccionado, não praticas a acção que o forma. E assim chegamos à palavra-chave do resultado da divisão e do desentendimento: o estereótipo.

Assim, o estereótipo vai fazer com que haja uma desigualdade de acesso e de concretização de oportunidades. Apesar de estarmos a caminhar num sentido de uma maior liberdade e emancipação feminina, os estereótipos sobre papéis de género ainda impedem o acesso e a concretização prática de oportunidades, seja na escola, no mercado de trabalho, na vida política e na vida familiar. Isto é grave porque além de estarmos a dizer que mulheres não são capazes só por serem mulheres, também estamos a dizer que homens, por exemplo, não podem manifestar as suas emoções só por serem homens. Isto cria expectativas totalmente desmesuradas, restritivas e injustas para todas as pessoas da nossa vida, não achas?

Há que abordar uma questão importante nesta análise que estamos a fazer, que é a questão do privilégio. Os tópicos que aqui abordei são apenas a superfície de todo o problema, porque esta questão desenrola-se noutros problemas graves, nomeadamente o que respeita à violência baseada no género em Portugal. Recentes dados sobre violência no namoro em Portugal relevam que 89,7% das vítimas são mulheres e 91,9% dos agressores são homens. Isto também se aplica a outras problemáticas em que as mulheres, ainda hoje, são muito mais discriminadas que os homens: olhemos para o nosso Parlamento, olhemos para os quadros superiores em empresas, olhemos para as nossas próprias casas, para as diferenças de tratamento não justificadas.

Continue a ler após a publicidade

Pela estrutura da nossa sociedade, os homens levam uma grande vantagem e são mais privilegiados. A questão do privilégio, quando saímos da perspetiva binária, ainda mais complexa fica. Uma mulher branca, heterossexual é mais privilegiada que uma mulher negra, LGBTQ+. E assim em diante.

Hoje vivemos num momento de urgente inovação e transformação social, para que juntos consigamos viver num mundo onde a liberdade e a igualdade são princípios integralmente respeitados. Começa em mim, em ti, na nossa casa, na tua escola. Sê o agente de mudança que precisamos de ver no mundo.

 

#DIVERSIDADE#INCLUSAOSOCIAL#NÓS#EUMEIMPORTO#AFORÇADOCOLETIVO#CIDADANIAATIVA#PENSAMENTOCRITICO

 

**O evento acontece de 14 a 17 de Setembro, 100% online e gratuito. Inscrições: https://festival.rockinriohumanorama.com

 

Partilhar


Mais Notícias