E se a cor dos seus olhos fosse determinante para o sucesso da sua carreira?

Human Resources
27 de Julho 2022 | 21:00
E se a cor dos seus olhos fosse determinante para o sucesso da sua carreira?

Quando a professora primária e socióloga Jane Elliott, em 5 de Abril de 1968, se viu perante a difícil missão de explicar aos seus alunos em Riceville, estado norte-americano de Iowa, porque é que Martin Luther King Jr. tinha sido assassinado no dia anterior, optou por desafiar a turma para um “exercício” que consistia em separar e dar um tratamento diferenciado aos alunos com base na cor dos seus olhos.

Escolha a Human Resources como fonte preferida no Google Escolher ›

 

Por Ricardo Martins, CEO na CEGOC

 

Continue a ler após a publicidade

As crianças de olhos azuis receberam reforço positivo como sendo mais inteligentes, bonitas, asseadas e importantes, enquanto as crianças de olhos castanhos foram sujeitas ao tratamento contrário, criticadas ou simplesmente ignoradas. Algumas semanas mais tarde, os papéis inverteram-se, para que todos pudessem sentir “na pele” os dois lados desta experiência social. Os resultados?…quando ignorados ou tratados como “inferiores”, os alunos demonstraram maior tendência para manifestar medo e insegurança, baixa autoestima e dificuldade em completar exercícios relativamente simples, enquanto que se reconhecidos como mais inteligentes, bonitos e até “superiores”, os alunos tenderam para uma atitude mais autoconfiante, mais dominante, um tanto ou quanto sobranceira, mas mesmo crianças habitualmente dóceis e meigas começaram a assumir posturas mais mesquinhas e arrogantes em relação aos colegas. Começaram a surgir disputas, até aí nunca vistas e rapidamente se instalou a noção de hierarquia, poder e direitos. De repente, estimulados por um microcosmo assente na diferença, crianças normais começaram a ter comportamentos típicos de adultos discriminadores e discriminados. O documentário “The Eye of the Storm”, vencedor de um Emmy e baseado nesta experiência de Jane Elliott, gerou polémica e um chorrilho de críticas pela “crueldade” da experiência à qual esta sujeitou as crianças. A resposta dela ao mundo foi… “Experimente viver assim o resto da vida”.Anos depois, continua a ser desafiante e por vezes polémico falar de diversidade e inclusão (D&I) no contexto de trabalho, especialmente quando só vivenciámos um dos lados da história. Ou quando não possuímos empatia suficiente para “vestirmos a pele” do outro e vermos para além dos rótulos – sejam eles de base étnica, religiosa, política, de género, de orientação sexual, ou qualquer outro. O estudo internacional “Diversidade e inclusão nas organizações: desafios e competências de uma transformação cultural”, realizado recentemente pelo Grupo CEGOS junto de 4007 colaboradores e 420 directores e responsáveis de RH (D/R RH) de Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Reino Unido e Brasil demonstra que infelizmente ainda muito há por onde melhorar. Apesar de mais de 70% dos colaboradores afirmarem compreender claramente os conceitos de diversidade e inclusão, 82% confirmam ter testemunhado situações de discriminação e 63% admitem ter sofrido na pele pelo menos uma forma de discriminação devido ao seu aspeto físico, idade, género (este sobretudo!) ou origem étnica e cultural.

Embora movimentos internacionais como #TimesUp#BlackLivesMatter#MeToo ou #LGBTQIA+ ecoem nas nossas consciências e ajudem a “despertar” as organizações para a necessidade de reconhecer e repudiar comportamentos discriminatórios, nomeadamente em contexto laboral, o estudo sublinha que apenas 49% dos colaboradores se veem como “promotores” da diversidade na sua organização e 11% como seus “defensores ativos”. Os restantes 36% dizem-se “indiferentes” ou “céticos”, o que demonstra que em termos de D&I ainda temos um (longo?) caminho a percorrer.

A dar-nos algum alento, o facto de tanto colaboradores como DRH’s encararem as gerações mais novas e os seus líderes como os grandes aliados e “guardiões da inclusão e diversidade”. Parece haver mesmo uma revolução geracional em curso: Baby Boomers e Geração X versus Millennials/Geração Y e Geração Z.

O barómetro deixa claro que são os profissionais mais jovens (18-34 anos), os gestores e os mais trabalhadores qualificados quem que mais facilmente percebem (e combatem!) a discriminação no ambiente laboral, em contraste com os colaboradores mais seniores (50-64), os não-gestores e os trabalhadores menos qualificados, que se revelam mais apáticos e até permissivos nesta matéria.

Continue a ler após a publicidade

Estas novas gerações, que o World Economic Forum estima representarão mais de 50% da força de trabalho mundial em 2025, são mais proativas em relação às causas que apoiam. Cresceram em plena voracidade digital e por isso têm uma perceção mais global, interconectada e plural do mundo, caraterísticas que as levam a ser mais sensíveis a ambientes de trabalho onde sejam permitidas práticas discriminatórias – tanto que, se tivessem de mudar de emprego amanhã, 84% escolheriam o seu novo empregador baseadas no critério da inclusão.

Dados como estes devem levar-nos a encarar a D&I nas organizações de forma radicalmente diferente. Promover a D&I é muito mais do que contratar e integrar colaboradores que pertencem a minorias. É garantir processos de onboarding e formas de integração que assegurem que todos se sentem elementos valorizados, numa equipa vencedora, a fazer um trabalho com um propósito relevante, num ambiente de confiança, com capacidade de alcançar o seu máximo potencial, independentemente das suas características físicas ou identitárias.

É elevar a combinação de diferentes talentos, experiências, ideologias e perspetivas a um novo patamar de diversidade cognitiva, invisível aos olhos, sim, mas que põe diariamente em marcha um ciclo virtuoso capaz de trazer mais criatividade, agilidade, inovação, competitividade e valor às equipas e organizações que forem capazes de o ver.

Antes de partirmos todos de férias de verão, desafio-o a ler este estudo internacional, disponível gratuitamente para download no site da CEGOC, não apenas porque, baseado em dados recolhidos e analisados criteriosamente por especialistas na matéria, dá voz a um conjunto de tendências emergentes em Portugal e no resto do mundo, mas sobretudo porque o pode encorajar a repensar a sua visão nestas matérias para o futuro, motivando-o a si e aos outros à sua volta para a acção.

Continue a ler após a publicidade
Partilhar


Mais Notícias