Einstein, a relatividade e os Recursos Humanos

O mundo é cada vez mais global e aberto, com todas as imensas vantagens que daí resultam, mas por outro lado há que entender cada vez melhor os outros. Sobretudo na questão do tempo.

 

Por Pedro Raposo, director de Recursos Humanos do Banco de Portugal

 

Quando se trabalha ao longo da nossa vida profissional em diferentes contextos culturais, uma das questões que mais diferença faz de país para país, e de cultura para cultura, é o conceito de “tempo”. Curioso que este tempo é mesmo universal (todos os dias têm 24 horas, cada hora 60 minutos e cada minuto 60 segundos) mas também enormemente subjectivo.

Como se pode então ser relativo ou subjectivo, quando se trata de marcar uma reunião ou um encontro? Não deveria ser tudo igual? 15h30 são a mesma coisa em Los Angeles ou Rabat, não é assim? Não é mesmo assim, e muitas vezes a falta de conhecimento desta noção relativa do tempo provoca inúmeras confusões e mal- entendidos entre membros de equipas interculturais.

Comecemos pela nosso cantinho à beira-mar plantado e vamos fazer um teste: quantos de nós marcam ou têm reuniões agendadas para a fracção de 15 minutos da hora, por exemplo 14h15? Ou 11h45? Por certo que os que disseram que sim ou estão em multinacionais a operar em Portugal ou são uma grande minoria. Em Portugal, quase só há reuniões em horas em ponto ou meias horas. O que significa isto na realidade? Que aceitamos culturalmente atrasos até meia hora. Ou seja, que a reunião propriamente dita só começa passada meia hora: sentar toda a gente, cumprimentar, falar de futebol e fado, esperar os 15 minutos da praxe, e então começar.

No polo oposto desta realidade está (e isto é mesmo verdade) uma reunião que me marcaram uma vez em Londres para as 15h29! Ler outra vez: 15h29. Não é 15h28, e muito menos 15h30. A concepção de tempo é totalmente relativa e condiciona profundamente a nossa maneira de pensar e estar com os outros. Em outro momento desta profissão tive uma reunião na Suíça às 07h30.

Para mim o dia começa lá para as 9h00 e nada de reuniões entre as 13h e as 14h, porque fico esfomeado. Quando me marcam reuniões no exterior às 13h30 fico logo a pensar no dilema: almoço antes ou depois da reunião? Só meia hora para almoçar? Já não consigo comer mais carnes frias… Num outro momento, também real, tive que ir a uma reunião num determinado país e marquei uma reunião, ao que me responderam que podia ir nessa semana. E eu fui, depois de insistir bastante para saber o dia e a hora a que seria recebido, mas sem sucesso. E esperei no hotel três dias até que me disseram “venha agora”. E eu fui. Não é falta de educação, mas apenas um povo que culturalmente tem uma enorme diferença do conceito de tempo em relação à minha própria concepção.

O meu conselho vai assim para que tenham tudo isto em conta, principalmente quando trabalham em equipas com pessoas de muitas culturas diferentes: combinem as regras base no primeiro dia. A que horas se começa, quando se acaba, se se interrompe para almoçar ou comemos todos aqui uma coisa rápida? O mundo é cada vez mais global e aberto, com todas as imensas vantagens que daí resultam, mas por outro lado há que entender cada vez melhor os outros. Sobretudo nesta questão do tempo, há que perceber, adaptar e criar consensos aceites por todos, para que a equipa/ grupo funcione da melhor forma.

Este artigo foi publicado na edição de Abril da Human Resources.

 

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