Entrevista à Secretária de Estado da Inovação e Modernização Administrativa: «As competências de liderança são críticas para a Administração Pública»

Tal como nas empresas, atrair o melhor talento é um dos principais desafios da Administração Pública. Maria de Fátima Fonseca acredita que o caminho que tem sido feito compara positivamente o sector público com o privado, mas reconhece que há domínios em que é preciso melhorar, em particular no domínio da gestão e, porventura, comunicar melhor e reforçar a sua marca.

 

Por Ana Leonor Martins | Fotos Nuno Carrancho

 

Com consciência dos desafios, no início da actual legislatura foi desenhada uma Estratégia para a Inovação e Modernização da Administração Pública, estratégia essa que aponta para a centralidade da gestão das pessoas nessa transformação, «expressa em objectivos como desenvolver e renovar as lideranças, mobilizar e capacitar os trabalhadores, envolver os trabalhadores na mudança cultural, fortalecer a gestão do desempenho para melhorar a qualidade dos serviços públicos ou promover a inovação na gestão pública», partilha Maria de Fátima Fonseca, Secretária de Estado da Inovação e da Modernização Administrativa

Parte desse caminho para a modernização e inovação na Administração Publica é a Bússola, uma plataforma digital já em funcionamento que visa potenciar a comunicação e o trabalho colaborativo, entre todas as entidades públicas e as pessoas que as compõem, que são mais de 500 mil. Ser um «ponto de encontro entre pessoas e ideias».

 

Foi recentemente apresentada formalmente a plataforma Bússola. Que objectivos estiveram subjacentes a esta aposta?
A Bússola é a concretização de uma medida Simplex destinada a potenciar a comunicação e o trabalho colaborativo na Administração Pública. Nasce da constatação de uma evidência: a Administração Pública é composta por muitas organizações, com missões e culturas distintas. Para articular todas estas entidades e pessoas em torno de muitos desafios comuns, faltava uma ponte entre elas. Que lhes transmita identidade e sentido de pertença. Que as mobilize, inspire e envolva em torno dos mesmos valores. É por isso que o mote da Bussola é constituir “o ponto de encontro entre pessoas e ideias”.

 

Como é que se propõe fazer isso?
É uma plataforma que, não substituindo as intranets corporativas nem os sites dos organismos, vem facilitar o acesso aos conteúdos e funcionalidades relevantes para o quotidiano dos trabalhadores, orientando-os nas suas actividades e nos seus projectos. A Bússola serve assim para muitas coisas: conhecer a Administração Pública e o seu funcionamento; aprender, através da formação e da partilha de conhecimento; colaborar, em projectos transversais e trabalhar em equipa; comunicar, o que acontece na Administração Pública; e consultar, documentos e dossiers temáticos.

 

Que tipo de oferta formativa a plataforma disponibiliza, com vista a desenvolver competências que consideram essenciais hoje?
Na área Aprender, os trabalhadores e trabalhadoras podem encontrar diversas possibilidades formativas: tanto oportunidades de formação contínua, como tutoriais sobre os mais diversos temas ou ainda possibilidades de formação de nível superior, através de parcerias com algumas das principais instituições nesse âmbito. Mas acreditamos que muitas das competências necessárias hoje e para o futuro do trabalho, competências pessoais e relacionais, são adquiridas através da prática e da troca de experiências. Por isso, a área Colaborar é das áreas mais importantes da Bússola, na qual os próprios trabalhadores e trabalhadoras da Administração Pública podem criar as suas redes colaborativas. Existem já oito redes colaborativas em funcionamento, operacionalizadas a partir da Bússola.

 

Como vão funcionar essas redes colaborativas e que resultados esperam alcançar?
Em bom rigor, as redes colaborativas já existiam antes da criação da Bússola. Já tivemos três planos de trabalho colaborativo nos últimos 12 meses, com dezenas de projectos e centenas de participantes, que funcionaram informalmente. Mas o que temos agora é um espaço dedicado, com ferramentas colaborativas, que esperamos que possa constituir-se como um espaço de trabalho transversal à Administração Pública.

 

Voltando à capacitação, nomeadamente dos líderes, que é também uma aposta anterior a este projecto. Que competências consideram fundamental desenvolver para ter que tipo de líderes, por oposição aos que existem?
As competências de liderança são críticas para o caminho que as administrações públicas estão a percorrer, no sentido de se tornarem não só mais eficientes, mas também resilientes, inovadoras nas respostas e com capacidade de antecipação e gestão de desafios muitas vezes inesperados. Um caminho que requer competências técnicas e comportamentais adequadas, para termos líderes capazes de actuar em ambientes de incerteza, de identificar as oportunidades da transformação digital e dela tirar partido, orientados à inovação e que saibam liderar em proximidade e colaboração, envolvendo as suas equipas, estimulando a participação, a multidisciplinariedade e a autonomia, assumindo um papel central na transformação organizacional, liderando pelo exemplo.

Foi com este propósito que investimos na capacitação da liderança no sector Público, sobretudo através do Centro para o Desenvolvimento de Liderança [CDL], ancorado no INA [Instituto Nacional de Administração], e através do qual desenvolvemos uma oferta de capacitação diversificada, tanto em conteúdo como em formato – desde percursos formativos mais convencionais a Laboratórios de Liderança, Conferências, Programas de Mentoria ou o CAT – Futuros Líderes, uma formação dirigida a preparar a sucessão de lideranças na Administração Pública.

 

Também referiu a comunicação como uma das áreas da Bússola. Quais são os principais desafios neste âmbito?
O desafio de chegar aos trabalhadores, com conteúdos relevantes, informação clara e capacidade de identificar os temas emergentes, que devem ser atempadamente trazidos até às pessoas. Isto só é possível com uma equipa de gestão que traduza também a diversidade da Administração Pública, pois reúne membros de várias entidades, e que articula com uma rede ampla de parceiros produtores de conteúdos. Desenvolver a Bússola e escalar a sua utilização é um trabalho colaborativo permanente.

 

Até à data, a plataforma conta com 500 trabalhadores registados. De um universo de quantos? Como esperam que evolua a adesão à Bússola?
Estamos agora na casa de partida. É muito positivo começarmos com cerca de 500 trabalhadores e trabalhadoras da Administração Pública registados, mas esperamos multiplicar rapidamente este valor com uma campanha de divulgação que agora encetamos junto dos mais de 500 mil trabalhadores do nosso universo da administração central. Estamos certos de que os desafios sem paralelo que nos serão trazidos pela execução do Plano de Recuperação e Resiliência [PRR] constituirão um bom mote para exponenciar rapidamente a utilização da Bússola.

 

Leia a entrevista na íntegra na edição de Maio (125) da Human Resources, nas bancas.
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