Por Nuno Miguel Guerra, founder da Create IT e Diggspace
As organizações nunca disponibilizaram tanta informação, tantas ferramentas e tantos conteúdos de aprendizagem. Ainda assim, muitas equipas continuam a sentir dificuldade em executar com autonomia, adaptar-se à mudança e tomar decisões consistentes.
Quando o conhecimento existe, mas não chega às pessoas
Esta contradição é particularmente visível nas organizações com equipas distribuídas por escritórios, lojas, hospitais, fábricas, armazéns ou operações no terreno. A distância física agrava um problema que existe dentro de muitas empresas: o conhecimento está disponível, mas nem sempre está acessível, organizado ou ligado ao trabalho que precisa de ser realizado.
Durante muito tempo, capacitar equipas significava realizar acções de formação, distribuir manuais e transmitir procedimentos. Esse modelo continua a ter valor, mas já não responde, por si só, à velocidade e à complexidade das organizações actuais.
O problema de tratar a capacitação como um momento isolado
A principal limitação é tratar a capacitação como um momento isolado. O colaborador frequenta uma sessão, consulta um documento ou conclui um curso. Depois, regressa a um ambiente de trabalho onde a informação está dispersa, as orientações mudam e as respostas dependem frequentemente da disponibilidade de uma chefia ou de um colega mais experiente.
É neste intervalo entre aprender e conseguir agir que se perde uma parte significativa do investimento em formação.
Capacitar uma equipa exige, por isso, mais do que transmitir conhecimento. Exige criar condições para que esse conhecimento possa ser encontrado, compreendido e aplicado no momento certo.
Aprender quando o trabalho realmente o exige
Numa força de trabalho distribuída, isto implica que a aprendizagem esteja disponível de forma contínua e autónoma. Um novo colaborador pode precisar de rever várias vezes um processo durante as primeiras semanas. Um profissional no terreno pode necessitar de confirmar um procedimento antes de iniciar uma tarefa. Um trabalhador por turnos pode não conseguir participar numa sessão realizada em horário fixo.
A autonomia, contudo, não elimina a necessidade de liderança.
A capacitação também é uma responsabilidade das chefias
As chefias devem conseguir definir prioridades de desenvolvimento, atribuir formação de acordo com funções e responsabilidades, acompanhar o progresso das suas equipas e identificar onde persistem lacunas de conhecimento.
A capacitação deixa, assim, de ser uma responsabilidade exclusiva dos Recursos Humanos e passa a integrar o próprio modelo de gestão.
Concluir uma formação não significa saber aplicar
Também a medição precisa de evoluir. A presença numa sessão ou a conclusão de um curso não demonstram que houve aprendizagem. O que importa é perceber se a pessoa compreendeu, reteve e consegue aplicar o conhecimento no seu contexto profissional.
Por isso, a avaliação da capacitação deve aproximar-se dos resultados reais: maior autonomia, integração mais rápida, menos erros, menor dependência das chefias e maior consistência na execução.
A fragmentação reduz o valor da formação
Este tema liga-se a um desafio organizacional mais amplo. Muitas empresas não têm falta de conteúdos. Têm excesso de informação fragmentada por aplicações, mensagens, documentos e repositórios. A formação perde eficácia quando o restante ambiente de trabalho continua a ser difícil de navegar.
Capacitar equipas significa, também, reduzir essa fragmentação. Significa aproximar formação, comunicação, procedimentos e conhecimento operacional, para que aprender e trabalhar não sejam experiências separadas.
Transformar conhecimento em capacidade coletiva
As organizações mais preparadas para o futuro não serão necessariamente aquelas que produzem mais conteúdos ou realizam mais horas de formação. Serão as que conseguirem transformar conhecimento disperso em capacidade colectiva: acessível a todos, adequada a cada função, acompanhada pelas lideranças e comprovada na prática.
A verdadeira questão não é quantas pessoas receberam formação. É quantas ficaram efectivamente mais capazes de decidir, executar e evoluir.














