
Formação contínua: preparar o talento para uma transformação digital segura
Por Joana Mota Agostinho, advogada da área de Propriedade Intelectual, Tecnologia e Telecomunicações da Cuatrecasas e formadora da Academia Cuatrecasas
A formação contínua dos colaboradores é hoje um dos pilares fundamentais para a sustentabilidade, competitividade e conformidade legal das organizações. Num contexto marcado pela transformação digital acelerada, pelo aumento das ameaças cibernéticas e pela adopção crescente de tecnologias emergentes, como a inteligência artificial, investir na capacitação das pessoas deixou de ser apenas uma boa prática: tornou-se uma necessidade estratégica.
As instituições europeias reconhecem claramente este facto. A Directiva NIS 2, que reforça o quadro europeu de cibersegurança, estabelece explicitamente a formação como uma obrigação legal para as organizações abrangidas. Ao exigir que colaboradores e órgãos de gestão disponham de conhecimentos adequados em matéria de segurança da informação, gestão de riscos e boas práticas, o legislador europeu assume que a tecnologia, por si só, não é suficiente para prevenir incidentes ou garantir a resiliência das organizações.
Na realidade, uma parte significativa dos incidentes de segurança tem origem em erro humano, falta de sensibilização ou desconhecimento de procedimentos básicos. A formação adequada permite reduzir estes riscos, já que promove comportamentos responsáveis, a correcta aplicação de políticas internas e uma resposta mais eficaz a incidentes. Para além da cibersegurança, a formação é igualmente essencial para assegurar o cumprimento de outras obrigações legais, como a protecção de dados pessoais e a utilização responsável de novas tecnologias.
Este desafio torna-se ainda mais relevante com a crescente adopção da inteligência artificial nas empresas. A aplicação destas tecnologias exige conhecimentos específicos não só do ponto de vista técnico, mas também ético e jurídico. Formar os colaboradores é fundamental para garantir que a inteligência artificial é utilizada de forma transparente, responsável e em conformidade com a legislação europeia. Assim, evitam-se discriminações, decisões automatizadas indevidas ou violações de direitos fundamentais.
Para o tecido empresarial português, maioritariamente composto por pequenas e médias empresas, a formação assume um papel crítico. Com recursos frequentemente limitados, apostar na prevenção através da capacitação dos colaboradores é a forma mais eficaz de reduzir riscos, evitar coimas, proteger a reputação e garantir a continuidade do negócio.
Em suma, a formação não deve ser vista como um custo ou uma imposição burocrática, mas como um investimento essencial. O facto de legislação como a Directiva NIS 2 a consagrar como obrigação legal demonstra que o valor deste investimento é amplamente reconhecido a nível europeu. Cabe agora às empresas portuguesas integrar a formação de forma estruturada e contínua, nomeadamente ao prepararem os colaboradores para enfrentarem os desafios da segurança, da inovação tecnológica e do cumprimento da lei.