Francisca Brito Pereira, NOS: «Não se inova nem se transforma sem a coragem de fazer diferente»

Sandra M. Pinto
22 de Abril 2022 | 12:40

Francisca Brito Pereira, head of Learning and Development da NOS, partilhou na 23.ª edição da Conferência Human Resources a maneira como a organização promoveu uma transformaçao cultural, tendo como “motor” os seus líderes.

 

A caminhada da NOS rumo ao leadershift começou em 2019, no âmbito de uma reflexão estratégica da empresa, que a levou a ter a ambição de liderar a experiência do cliente no digital assente no melhor talento. Tendo esta ambição em mente, a empresa questionou-se sobre a cultura que deveria ter para concretizar esta estratégia. Para obter uma resposta, a NOS efectuou uma análise interna, revela Francisca Brito Pereira. «Com ela, percebemos que precisávamos de uma cultura que nos trouxesse mais flexibilidade, mais autonomia, mais espaço para errar, mais acção e mais agilidade». Assim, a NOS iniciou, em 2020, a sua transformação cultural, que teve início com a concepção de um novo propósito, visão, missão, valores e comportamentos.

«Mas, como todos sabem, uma cultura não se faz por decreto», sublinha, «pelo que começámos por questionar quem seria o motor desta transformação, tendo de imediato a noção de que seriam as nossas e os nossos líderes». Ciente de que os negócios não se fazem de convicções, a NOS foi ao mercado perceber se existiam provas que sustentassem esta nova convicção. «No início de 2020, já sabíamos que as transformações são cinco vezes mais prováveis de serem bem-sucedidas quando os líderes são o modelo da mudança», acrescenta, «50 a 70% do clima da equipa é impactado pela chefia directa, e 83% das organizações afirmam ser importante desenvolver todos os níveis de liderança, mas apenas 5% o fazem, acabando por escolher apenas um dos níveis». Em Março de 2020 irrompe a pandemia, com impactos significativos não só no negócio, mas também na Gestão de Pessoas. «A nível do negócio, teve um enorme impacto na transformação digital», refere. «Estima-se que a pandemia COVID-19 acelerou em três anos a digitalização na interacção com clientes e em sete anos o volume de oferta de produtos ou serviços que são total ou parcialmente digitais, e que o processo de robotização do trabalho foi 40 vezes mais rápido do que aquilo que se esperava.»

 

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Esta nova realidade trouxe uma pressão acrescida sobre os líderes, ao nível dos desafios que a gestão de equipas acarreta. Francisca Brito Pereira destaca três que considera mais importantes. «Desde logo, o engagement das equipas, com quase metade dos líderes a referir que gerir relações é o maior desafio em trabalho remoto e híbrido, algo particularmente preocupante quando se fala das novas contratações, pois sabemos que 56% das novas contratações podem sair da empresa nos dois anos seguintes», começa por enumerar a head of Learning and Development da NOS. O segundo grande desafio é o desgaste com a síndrome do “always on”. «A Microsoft contabilizou as reuniões, por isso sabemos que, desde o início da pandemia até agora, houve um aumento de 252% em tempo semanal gasto em reuniões do Teams.» Mas não foi só isto que aumentou; o mesmo aconteceu às horas extra, onde se verificou um aumento de 28%.

Hoje, as pessoas têm diferentes necessidades no que diz respeito à flexibilidade. «Provavelmente, já existiam antes da pandemia, mas foram por ela evidenciadas», sublinha. «73% dos colaboradores dizem agora que querem manter opções de trabalho flexível, e 53% declaram ser mais provável priorizarem o seu bem-estar face ao trabalho do que antes da COVID-19.»

As necessidades das pessoas mudaram. «Será que a liderança acompanhou essas mudanças?», questiona. «Mais de 50% dos managers sentem que a liderança não está preparada para estas novas necessidades.»

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«Tendo em conta a nossa convicção interna e estas evidências externas, começámos em 2021 o desenho do novo caminho de liderança», relembra. A primeira coisa que a NOS fez foi perceber «onde é que estamos, para depois perceber onde é que queremos chegar». Estas foram as duas questões que a organização colocou: “Que cultura de liderança temos na NOS?” e “Que cultura de liderança queremos ter no futuro?” Quando se tornou claro a cultura de liderança que a empresa queria para o futuro, a organização precisou de perceber os princípios que devem fazer parte deste novo perfil de liderança e os comportamentos que alimentam esses princípios. «Para dar resposta, fizemos uma auscultação interna profunda com grupo de enfoque a mais de 100 pessoas na organização, um survey aos nossos colaboradores com uma taxa de resposta de mais de 50%, e uma análise às tendências externas.»

Feito isto, a organização chegou aos princípios do líder da NOS. «Estas não são palavras simples — são palavras criadas por nós e fizemo-lo por dois motivos: primeiro, porque não queríamos que fosse mais uma palavra, queríamos que os nossos líderes se lembrassem de quais são os princípios da liderança, e segundo porque percebemos que liderar não é um tema linear, pode muitas vezes ser um tema complexo e de gestão de paradoxos.» Desta forma, a responsável destaca dois princípios: «a “cooperança”, que junta a palavra confiança com a palavra cooperação, e reflecte o nosso empenho em trabalhar num ambiente de confiança na organização, com enfoque na segurança psicológica; e o segundo é “riscoragem”, coragem de arriscar, pois sabemos que não se inova nem se transforma sem a coragem de fazer diferente, por isso olhamos agora para o erro de uma forma diferente, vendo-o como parte de uma jornada de aprendizagem e não como algo catastrófico».

Com estes princípios clarificados, era chegada a altura de fazer o lançamento do leadershift, mas em que consiste exactamente?

«É um movimento cujo objectivo é promover o desenvolvimento e a capacitação dos líderes na NOS», esclarece. Tem a designação de movimento porque a organização quer que seja algo contínuo, «é isto que queremos para o desenvolvimento das nossas lideranças». É um movimento de transformação das lideranças composto por três eixos. «Comunicação: foco no awareness e no engagement com a criação de um manifesto que passa a mensagem do que queremos dos nossos líderes, de um kit de leadershift que não é mais que o conjunto de vários exercícios de auto-reflexão e de reflexão em equipa, e das leadershift talks.»

O segundo eixo é o assessment, com foco no autoconhecimento. «Queremos que as pessoas, no final deste processo, consigam dizer que sabem onde estão e o que precisam de fazer para se desenvolverem e chegarem onde querem estar.» Integrado neste eixo, Francisca Brito Pereira destaca alguns aspectos: «É para todos os 550 líderes da NOS e é um assessment 360, ou seja, tem quatro ângulos de observação e o desenvolvimento como objectivo.»

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O terceiro eixo é a capacitação, com foco no desenvolvimento. «Queremos que as pessoas consigam dizer: aprendo e coloco em prática aquilo que aprendo, pois temos de ter sempre em conta que o leadershift foi criado segundo a lógica do fazer.» Para concretizar este eixo, a NOS disponibilizou o livro de John C. Maxwell, “Leadershift: The 11 Essential Changes Every Leader Must Embrace Hardcover”, e avançou com uma iniciativa de coaching individual ou de grupo e com uma formação.

O que espera a NOS do movimento leadershift?

«Queremos ter líderes que conseguem responder melhor às necessidades actuais, não só do negócio, mas também das pessoas», esclarece, «esta é, no fundo, a razão de ser do leadershift.» Mas a NOS pretende ainda ter líderes comprometidos com o seu processo de desenvolvimento e mais motivados. «Em simultâneo, acreditamos e queremos que este projecto não tenha impacto apenas nos líderes», reforça, «queremos também equipas mais alinhadas e eficientes, e uma organização mais ágil, corajosa e equilibrada (uma empresa mais saudável, com pessoas mais felizes).»

Em jeito de conclusão, Francisca Brito Pereira assinala um último ponto: os factores que a NOS acredita serem os mais críticos para o sucesso do movimento leadershift.

«Aqui surge, desde logo, o envolvimento de todos os líderes ao longo do processo. Depois surge a necessidade de uma comunicação regular e próxima, seguida da inclusão de vários ângulos de observação (360), do foco no desenvolvimento versus foco na avaliação, da personalização e da qualidade dos parceiros», termina.

 

Texto: Sandra M. Pinto | Foto Nuno Carrancho

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