Gerir os RH com metaverso?

Por Vanda Vieira, Psicóloga Especialista em Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações; em Psicologia da Educação; em Psicologia Vocacional e do Desenvolvimento da Carreira

 

O ambiente metaverso é um mundo digital à parte do mundo real, mas que existe em paralelo. O conceito reporta-nos para um mundo online alternativo, onde as interações ocorrem em espaços virtuais 3D. No metaverso não há limitações de tempo ou de espaço. As múltiplas personagens virtuais, os avatares, podem vivenciar experiências virtuais em conjunto, independentemente do local onde se encontram. Não sendo um substituto da vida real, pode, contudo, levar a dissonâncias cognitivas. O metaverso muda o nosso futuro? Quais as implicações nas relações pessoais e na forma de trabalhar? Como podem as organizações prevenir riscos e potenciar comportamentos éticos e socialmente responsáveis?


Impacto nas nossas vidas

O fenómeno tem um impacto crescente nas nossas vidas, multiplicam-se as experiências no metaverso associadas ao uso e disseminação das tecnologias mais imersivas. Na vida real, é possível trabalhar remotamente, e a pandemia veio aumentar e democratizar a tendência. No metaverso pode recriar-se um escritório virtual a partir de casa ou um espaço digital onde o escritório está localizado em permanência. Também no consumo electrónico são esperadas implicações. Por exemplo, algumas marcas de roupas como a Balenciaga e a Gucci estabeleceram parcerias com o Fortnite e o Roblox, respectivamente, para lançar coleções de roupas para avatares. De tal forma que as autoridades Europeias admitem precisar entender melhor este mundo digital futurista para sua regulação. O metaverso envolve toda esta rede de ambientes virtuais agregados ​por meio de diferentes dispositivos onde os utilizadores podem trabalhar, socializar e divertir-se.


Impacto na saúde mental

Phil Reed, no seu blog Digital World, Real World, “The psychological and social effects of digital technology” faz uma reflexão sobre os resultados de uma pesquisa realizada por utilizadores em contextos de imersão nas redes sociais e analisa o metaverso enquanto espaço seguro para as pessoas. Na pior das hipóteses, afirma, a imersão nesse mundo digital poderá contribuir para aumentar a probabilidade das pessoas se divorciarem da realidade e, assim, conduzir à criação de sintomas delirantes ou psicóticos. Este será um lado da narrativa: uma solução digital com potencial destrutivo para a saúde pública, se não for submetido a testes científicos.

Um artigo de Tori DeAngelis salienta os benefícios do uso de avatares na terapia, na consultoria empresarial e na formação, uma metodologia tão eficaz quanto as técnicas equivalentes da vida real. No ambiente Second Life, as pessoas adotavam qualquer outra “persona”. Mas em 2012, o autor apontava preocupações maiores, como a confidencialidade e a segurança da relação estabelecida com o paciente/cliente. Não havia recomendações para a terapia online, portanto psicólogos/terapeutas deveriam aprender a evitar um conjunto de armadilhas legais e éticas. Em Portugal, a OPP – Ordem dos Psicólogos Portugueses adotou e disseminou junto dos seus membros um conjunto de linhas de orientação para a prática profissional da OPP no que concerne à Prestação de Serviços de Psicologia mediados pelas TICs.

Dada a dimensão económica do fenómeno, Matthew Ball, CEO da empresa de capital de risco Epyllion, acredita que a economia do metaverso poderá valer entre 10 e 30 trilhões de dólares na próxima década. Nos Estados Unidos da América, é evitável que as soluções “metaversianas” vinguem, bem como as ofertas de algumas empresas como: o HoloLens da Microsoft, os sistemas de Realidade Virtual da PlayStation, o Oculus do Facebook, os videogames da Epic Games, o Ali Metaverse do Alibaba, os jogos de vídeo no metaverso de Tencent, entre outros. Até o fundador do Second Life, Philip Rosedale é recuperado no projeto.

Para além da previsível adesão das massas a esta tecnologia, a inovação e o desenvolvimento da tecnologia são a chave para tornar o metaverso acessível e prático, com regulação e planos de prevenção de riscos para a saúde e bem-estar psicológico.

Devemos ter uma atitude aberta e receptiva à mudança, mapear os riscos e os benefícios do metaverso quando aplicado à consultoria em saúde, à consultoria empresarial, na cultura e entretenimento, no desporto e lazer, na educação e na formação profissional. Formar as pessoas para o uso destas tecnologias, estabelecendo limites entre o mundo virtual e o mundo real, criando pontes, e não clivagens, entre ambos, nas novas formas de interagir e de trabalhar.

Nas relações de trabalho, a tecnologia serve para manter a comunicação e a interação, apesar da distância física, mas dos custos como a perda da interação e leitura do comportamento não verbal. Alguns gestores, podendo sentir-se, de certa forma desconectados, com o que está efectivamente a acontecer no local de trabalho. O metaverso simula e replica a experiência de trabalhar presencialmente e em equipa, sem perder o comportamento espontâneo dos colaboradores, nos ambientes de socialização online. No universo metaverso podemos juntar membros da mesma equipa, em espaços de trabalho virtuais com recurso a avatares 3D, de forma mais aproximada ao real. No mundo metaverso, a modelagem em 3D permite a avaliação de um projeto e uma mais rápida análise e decisão, com menos limitações de tempo e de custos financeiros. No universo metaverso, o espaço não constitui problema, porque os espaços de trabalho virtuais podem ser expandidos. Segundo os peritos, trabalhar no metaverso exigirá apenas quadros brancos digitais e estações de trabalho digitais; os avatares 3D são gratuitos e podem encontrar-se “face-to-face” sem a necessidade de equipamentos de videoconferência. Por exemplo, ao ingressar numa reunião, através do uso de inteligência aumentada e artificial, os utilizadores podem aceder aos perfis dos participantes, às suas interações prévias. Neste assunto: primeiro estranha-se, depois entranha-se!


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