High performers, tração e carrinhos de mão

Por Isabel Moço, coordenadora e professora da Universidade Europeia

 

Está dinâmico e animado o mercado das contratações neste início de ano, em especial no âmbito da Gestão de Pessoas. Muitas movimentações, muitos “pedidos”, quer para cargos mais destacados, quer para início de carreira ou mesmo estagiários. Se coisa boa esta pandemia trouxe, parece ter sido um novo entendimento da dimensão pessoas, expresso em tantas perspetivas que vão desde aos objetivos de vida de cada um, ao fit dos perfis com o propósito da empresa. Esta dinâmica, pelo que consigo entender, já não resulta predominantemente da iniciativa das empresas, mas são as pessoas que querem mudar e procuram alternativas. O mercado a funcionar, mas com idiossincrasias pois ainda se nota a lógica “da galinha da vizinha ser melhor que a nossa” e, por vezes, o melhor recurso já está dentro de portas – a não esquecer.

Efetivamente depende de nós o caminho que trilhamos, a forma como o fazemos e o modo como apreciamos essa jornada. Na esfera profissional as mais recentes gerações têm provado que a vida não é um contínuo, mas uma sucessão de ciclos e quando um se fecha só significa que outro vai começar. Essa visão é extraordinária, pois há muito que, definitivamente, terminou o “emprego para vida” e cada vez procuramos mais o empregador, e o trabalho, que nos traga realização, equilíbrio e bem-estar. Independentemente da lógica de funcionamento do mercado, se existe mais oferta ou procura, continua a ser determinante a atitude – face à vida, à profissão, às tarefas, ao emprego, às pessoas… enfim, todas as dimensões de “atitude” que nos definem e caracterizam, continuando a ser o que mais procura um empregador.

A propósito da atitude que os empregadores procuram, recupero o que me explicaram sobre funcionamento dos carros, e em particular dos carros de alta cilindrada. Explicavam-me a diferença entre tração dianteira, traseira e “all-wheel” e que o carro tinha tração nas rodas traseiras, e por isso o “carro era empurrado”, o que o tornava mais rápido e ágil. Pelo contrário os carros que têm tração dianteira, em que a marcha acontece porque é “puxado”, a sua produção é mais barata por ter menos componentes, têm ganhos na habitabilidade interior, mas é “menos entusiasmante”.  A tração 4×4, ou a tração integral, as quatro rodas tracionam o carro e geralmente estes são mais flexíveis no ajustamento ao terreno e tipo de condução. À parte das questões de engenharia mecânica, de que me desliguei de imediato, este paralelo serve na perfeição para ilustrar os processos de seleção – é importante que as partes (leia-se empregadores e trabalhadores) percebam que tipo de tração é possível e desejável. Há toda uma diferença no “puxe/empurre” que o trabalhador, ou empresa, pode precisar ou requerer e é necessário que isso fique muito bem esclarecido à partida – funções ou cargos com maior autonomia em que o trabalhador precise permanentemente de ser “puxado” pode não resultar, ou trabalhadores dinâmicos, autónomos e responsáveis que precisem de aguardar que os puxem, também não parece o “fit” que tanto procuramos e desejamos. Entretanto, também há os “carrinhos de mão” em termos de atitude perante o trabalho, aqueles que só se “mexem” se forem empurrados, e esta é talvez a pior das atitudes enquanto não se desenvolver. E também não se esqueça que a melhor contratação nem sempre é a do melhor candidato.

Segundo o World Economic Forum, as “Top 10 skils of 2025” estão fundamentalmente centradas na resolução de problemas e na autogestão e por aqui se deve orientar a procura de “high performers” – aqueles que se puxam e puxam os outros, e esse é um papel que cabe na perfeição ao gestor de pessoas.

Ler Mais