João Pinto, Católica Porto Business School: Voltar aos básicos: mais do que uma frase, um imperativo

No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.

 

Por João Pinto, Dean da Católica Porto Business School

Estamos a viver tempos de instabilidade e disrupção contínua. O crescimento económico desacelera, a desigualdade aprofunda-se, a confiança nas instituições diminui e a saúde mental tornou-se uma preocupação global. Simultaneamente, tecnologias como a inteligência artificial (IA) estão a redesenhar o modo como vivemos, aprendemos e trabalhamos. Neste contexto, repensar a liderança é não apenas necessário, mas urgente.

Combinando as três primeiras perguntas numa resposta única: a liderança do futuro deve assentar em seis pilares estruturantes – pilares que, na Católica Porto Business School (CPBS), defendemos como essenciais para formar profissionais preparados para um mundo ético, global e sustentável.

1. Liderança ética e responsável

Voltar aos básicos é mais do que uma frase – é um imperativo. Liderar com a mente e com o coração implica competência técnica, mas também empatia, compaixão e integridade. Quando a confiança nas instituições está em risco, os líderes devem ser exemplos de coerência e responsabilidade, promovendo culturas organizacionais que espelhem os valores que defendem.

2. Disrupção como catalisador da inovação

A disrupção é hoje a norma, não a excepção. Encará-la como ameaça é um erro estratégico. Os líderes eficazes são aqueles que transformam incertezas em oportunidades. Promovem inovação com propósito, assumem riscos informados e colocam a tecnologia ao serviço da missão da organização. A inovação deixa de ser reactiva e torna-se uma fonte proactiva e crítica de vantagem competitiva a médio e longo prazos.

3. Liderar com propósito

Num mundo em constante mutação, o propósito funciona como bússola. As novas gerações valorizam organizações com impacto social claro, práticas sustentáveis e culturas inclusivas. O verdadeiro desafio é tornar o propósito vivido e tangível, indo além dos KPI (Key Performance Indicators) tradicionais para adoptar Key Value Indicators, capazes de medir o alinhamento com os valores. Como dizia Peter Drucker, «a cultura come a estratégia ao pequeno-almoço». E o propósito alimenta essa cultura.

4. A tecnologia como pilar estratégico

Inteligência artificial, biomateriais, fermentação de precisão ou energia verde já não são temas futuristas, são realidades com impacto directo na competitividade das organizações. Mas importa sublinhar: tecnologia sem ética é um risco. De acordo com o estudo global da KPMG (2025), 70% dos profissionais portugueses já utilizam IA no trabalho, mas 85% receiam os seus impactos e apenas 36% confiam nos sistemas. Isto revela uma urgência: integrar tecnologia com responsabilidade, espírito crítico e transparência. Na CPBS, adoptámos uma abordagem transversal à IA, com formação, regras de utilização e um código de conduta claro. A IA deve amplificar o pensamento humano, não substituí-lo.

5. Colaboração transnacional e pensamento em ecossistema

Nenhum país ou sector resolverá, sozinho, os desafios globais. A competitividade será cada vez mais determinada pela capacidade de colaboração intersectorial, pela criação de redes de valor e pela actuação em ecossistema. Para Portugal e para a Europa, este é um caminho incontornável. A educação, os negócios, a ciência e as políticas públicas devem alinhar-se em torno de objectivos comuns.

6. Antecipação estratégica e literacia para o futuro

Num mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo –, a capacidade de antecipação estratégica distingue os líderes transformadores. É essencial planear com base em cenários, promover literacia nas áreas-chave (ética, digital, sustentabilidade, finanças) e cultivar pensamento crítico. A educação, os media e as instituições públicas têm aqui um papel fundamental: serem bússolas estratégicas de mudança, fomentando cidadania informada e confiança social.

O perfil de líder ideal em 2030

Será um facilitador de ecossistemas. Um líder capaz de construir pontes entre pessoas, sectores e culturas. Alguém que sabe ouvir, aprende continuamente e lidera com clareza de propósito. Com humildade intelectual e coragem ética. Que integra tecnologia, mas valoriza o humano. Que mede o sucesso não apenas pelos resultados, mas pelo impacto gerado.

Principais desafios a ultrapassar

Primeiro, a resistência à mudança e o apego a modelos mentais do passado. Depois, a visão de curto-prazo, que ainda domina muitas decisões estratégicas. E, finalmente, a desigualdade no acesso à aprendizagem contínua – num mundo em transformação, ninguém pode ficar para trás.

A liderança de futuro deverá ser ainda mais inclusiva, procurando capacitar os vários colaboradores de uma organização, independentemente da sua idade, género, funções, background, formação de raiz, entre outros.

Por isso, na nossa business school, insistimos tanto nas temáticas humanistas, no desenvolvimento de uma visão responsável, solidária e colaborativa. Assumimos o compromisso de formar líderes preparados para estes novos tempos.

Acreditamos que o futuro não se adivinha, constrói-se. E que a liderança, mais do que uma função, é uma responsabilidade para com o bem comum.

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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