Lições da sétima arte para a Gestão de Pessoas. Ghostlight: A luz que se esconde atrás da ira

Do realizador Kelly O’Sullivan, com Keith Kupferer, Katherine Mallen Kupferer e Tara Mallen nos principais papéis, “Ghostlight” é um daqueles filmes que passam despercebidos, por não seguirem as “lógicas habituais do mercado”, mas que dão óptimas pistas sobre o desempenho profissional e a realização pessoal.

 

Por Paulo Miguel Martins, professor da AESE Business School e investigador nas áreas de Cinema, História, Comunicação e Mass Media

 

Um homem trabalha numa empresa de construção civil, reparando danos na estrada. É um trabalho pesado e repetitivo. Os peões e condutores olham para ele como um inimigo que prejudica as deslocações. Dá-se bem com os seus colegas, ainda que esteja à beira da exaustão. Um problema familiar consome-o, afectando a sua actividade laboral. Um dia, em plena rua, “explode cheio de raiva” contra um condutor. As pessoas observam e algumas filmam, publicando em directo para as redes sociais. Faz uma pausa e então uma transeunte aproxima-se. Falam um pouco. Oferece-lhe um cartão com a morada de um pequeno teatro que ensaia uma peça de Shakespeare. Precisam de actores para o horário pós-laboral. A senhora sugere-lhe que poderia fazer bem “descarregar” toda essa energia em palco, acrescentando que representar uma personagem dar-lhe-ia pistas para enfrentar com novas perspectivas a sua vida diária.

Ele hesita, até que numa ocasião, já “estoirado” e em busca de alguma “luz”, aceita e procura esse local. A peça é “Romeu e Julieta”. Conhece os vários intervenientes. Fica espantado, embora, de alguma forma, esperançado. Há mais vida para além da sua, com os seus problemas, apesar de serem mesmo questões sérias que não pode esquecer. Sabe que estar ali a representar essa peça, com os seus desafios, não significa uma fuga da realidade. É, em alternativa, uma forma de ganhar novos horizontes, transcender o seu dia-a-dia.

Tudo corre mal quando a sua mulher desconfia que ele anda a traí-la, saindo à noite, sem dizer para onde vai, com respostas evasivas e falsas. A filha segue-o e descobre a verdade. Numa discussão familiar, tudo se esclarece. A transparência fortalece a confiança, mas o problema de base permanece: algo se passara, envolvendo a morte do seu filho adolescente.

Os patrões da empresa acabam por despedi-lo devido à discussão na rua e ao impacto das imagens nas redes sociais. Mais uma derrota. No entanto, os ensaios da peça continuam. A filha aceita também participar e a mulher colabora com mil e um contactos para a estreia. Tudo continua como dantes, mas agora tudo se vê com novos olhos e diferentes perspectivas. O próprio texto da peça vai ajudá-lo a abordar as questões mais pessoais. De facto, só assim ganha coragem para esclarecer tudo o que estava relacionado com a morte do filho, expressando de forma clara o que acontecera. Essa sua atitude não vai agradar a todos, mas para ele é um peso do qual se liberta. Assume uma posição aberta que lhe permite avançar na própria vida e que até acaba por fortalecer uma melhor relação com os colegas, a mulher e a filha.

A estreia acontece e é um êxito! Sente-se realizado ao constatar que conseguira enfrentar e ultrapassar bloqueios paralisantes. No fundo, através de uma actividade invulgar e diferente do habitual, descobrira-se a si mesmo. Ganhara novas formas de se relacionar consigo e com os outros.

A lição que nos dá é que vale a pena abrir-se, revelando vulnerabilidades, o que irá fortalecer laços e aumentar a confiança mútua entre todos. Expressar o que vai por dentro abre caminho para o sentido da vida.

 

Este artigo foi publicado na edição de Maio (nº. 173) da Human Resources, nas bancas.

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